O paciente que chega ao consultório por causa das bets quase nunca chega falando de aposta — chega falando de dívida
Neste Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, psiquiatras que atendem ludopatia descrevem um padrão: a pessoa procura ajuda já com humor deprimido, ansiedade alta e, nos casos mais graves, ideação suicida ligada ao prejuízo financeiro. Este texto é sobre os sinais que aparecem antes disso e sobre onde ligar quando eles aparecem.
Se você está agora em sofrimento ou com pensamentos de morte, existe uma linha aberta, gratuita e sigilosa, 24 horas: o Centro de Valorização da Vida, no 188. Também dá para conversar por chat no site do CVV. Em emergência, o SAMU é o 192.
Dito isso, vamos ao que os profissionais estão vendo.
O quadro tem nome e é antigo — o que mudou foi o acesso
Ludopatia é a condição médica caracterizada pelo desejo incontrolável de continuar jogando. Não é vício de caráter, é transtorno de controle de impulso, e existe em manual de diagnóstico há décadas.
O que mudou não foi o cérebro humano. Foi que a máquina caça-níquel saiu do fundo do bar e entrou no bolso, com notificação, crédito instantâneo e nenhuma hora de fechar.
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo — que trata e estuda o transtorno de controle de impulso —, descreve como essas pessoas chegam: "estão extremamente ansiosos em virtude dos prejuízos que têm por causa dos jogos. Há quem tenha pensamentos de morte e, no caso, os mais graves já com a ideação suicida em virtude dos prejuízos financeiros que têm".
Repare na ordem. O sofrimento que leva ao consultório não é "não consigo parar de apostar". É "não tenho como pagar".
Por que o cérebro coopera com isso
O neurocirurgião Orlando Maia, do Hospital Quali Ipanema, no Rio, explica a parte orgânica sem romantizar: quando a pessoa aposta, o cérebro pode liberar dopamina diante da expectativa de ganhar. Não do ganho — da expectativa.
Isso influencia as regiões envolvidas no controle das decisões e do comportamento, num regime que ele chama de reforço intermitente: às vezes vem, às vezes não, e é justamente a imprevisibilidade que fixa o hábito.
"O sistema de recompensa pode começar a falar mais alto do que os mecanismos de controle das decisões", diz ele.
É a mesma engenharia da máquina de cassino, aplicada a um aplicativo que você já tem instalado, com saldo que entra em segundos.
Falar sobre isso não planta a ideia
É o mito mais persistente e o mais caro. Perguntar diretamente a alguém se ele tem pensado em morrer não sugere nada a ninguém — na prática costuma ser o alívio de finalmente poder dizer em voz alta.
É essa a defesa dos profissionais ouvidos: "a ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos", diz Katia Branco. "Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes."
Vale para o consultório e vale para a cozinha de casa.
Quem percebe primeiro quase nunca é a própria pessoa
Orlando Maia insiste nesse ponto: quem tem a dependência passa a sentir que apostar faz parte do dia a dia, e muitas vezes não reconhece o problema sozinho. "Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar."
A família costuma testemunhar as duas coisas ao mesmo tempo — o adoecimento e o endividamento em cascata. Pessoas que perdem tudo e passam a ter agravamento de depressão, ansiedade e risco suicida. "É algo que realmente nos preocupa", diz a psiquiatra.
Se você é essa pessoa da família, três coisas ajudam mais que sermão: perguntar direto e sem julgamento; oferecer ir junto à primeira consulta; e tratar a dívida como problema a ser organizado com ajuda, não como falha moral a ser cobrada.
Onde procurar tratamento
O caminho pelo SUS começa na Unidade Básica de Saúde do seu endereço, que faz o encaminhamento, e nos CAPS — os Centros de Atenção Psicossocial, que atendem transtornos mentais e uso de substâncias, sem necessidade de encaminhamento prévio em boa parte dos municípios. Há também os grupos de mútua ajuda para jogadores, gratuitos, em várias cidades.
O tratamento, dizem os especialistas, não é de um campo só: envolve medicina, psicologia e até atividade física, num processo — a palavra que os dois entrevistados repetem — de melhora contínua, não de decisão única.
O Setembro Amarelo costuma virar laço na lapela e post de empresa. A parte que sobrevive ao mês é mais simples: saber os sinais, saber que perguntar não faz mal, e saber que o 188 atende agora.
Leia também
02/09/2026
Setembro Amarelo: ver alguém próximo tentar suicídio quase triplica o risco entre jovens — e o silêncio piora
30/08/2026
70% dos brasileiros já usam IA para lidar com a cabeça — e o Brasil está "definhando emocionalmente"
26/08/2026
O SUS vai dar 100 mil sessões de terapia por mês para mulheres — e não vai pedir boletim de ocorrência
22/08/2026