Setembro Amarelo: ver alguém próximo tentar suicídio quase triplica o risco entre jovens — e o silêncio piora

Setembro Amarelo: ver alguém próximo tentar suicídio quase triplica o risco entre jovens — e o silêncio piora

Um estudo publicado no JAMA acompanhou 2 mil jovens de 13 a 22 anos por dois anos. Quem teve uma tentativa de suicídio na rede próxima apresentou risco quase três vezes maior de também tentar — e o efeito persiste mesmo descontando a depressão. O dado chega no primeiro dia da campanha que existe justamente para quebrar o tabu de falar sobre o assunto.

SaúdeCidade ·

Você provavelmente conhece alguém que perdeu um amigo, um primo, um colega de escola para o suicídio. E provavelmente reparou que, nos meses seguintes, ninguém falou sobre isso. A família mudou de assunto, a escola fez um minuto de silêncio e seguiu o calendário, o grupo de WhatsApp ficou mudo por três dias e voltou aos memes. Existe uma crença antiga por trás desse silêncio: a de que falar do assunto "dá ideia". Um estudo publicado nesta semana no JAMA, a revista da Associação Médica Americana, mostra que a realidade é o oposto — e que o custo do silêncio é pago por quem ficou.

Os pesquisadores acompanharam cerca de 2 mil jovens de 13 a 22 anos por dois anos. Nenhum tinha histórico de tentativa de suicídio no início — a ideia era observar quando e em quem as primeiras manifestações surgiam. Ao longo do estudo, os cientistas registraram, em entrevistas, quem havia sido exposto a tentativas ou mortes por suicídio de pessoas próximas: amigos, familiares, colegas.

O que os números dizem

Entre os jovens que tiveram uma tentativa de suicídio na rede próxima, a probabilidade de também tentar foi quase três vezes maior do que entre os não expostos. A pergunta óbvia — "mas não é só porque quem tem gente deprimida em volta também está deprimido?" — foi feita pelos próprios autores. Eles isolaram estatisticamente os sintomas de depressão. O risco caiu, mas continuou 2,5 vezes maior.

Traduzindo: a depressão explica uma parte, mas não o fenômeno todo. Existe algo no fato de ver alguém com quem você se identifica escolher esse caminho que, por si só, aumenta a chance de você considerar o mesmo. Como explica a psiquiatra Laiana Quagliato, da UFRJ, que não participou do estudo, a adolescência é justamente "a época na qual observamos e nos apropriamos da forma na qual outras pessoas enfrentam situações de sofrimento".

Os dados que abrem o Setembro Amarelo de 2026:

• Exposição a tentativa de suicídio na rede próxima: risco quase 3x maior de o jovem também tentar (estudo JAMA, 2 mil participantes, 13 a 22 anos)
• Descontando os sintomas de depressão, o risco segue 2,5x maior
• Redes de amizade presenciais maiores associadas a menos sintomas depressivos
• Brasil: mais de 15 mil mortes por suicídio em 2021; 77,8% entre homens (Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde)
• OMS: para cada morte, ao menos 20 tentativas e 5 a 6 pessoas próximas afetadas psicologicamente
• Suicídio é a 3ª causa de morte entre 10 e 24 anos nas Américas; o aumento é mais forte entre mulheres jovens (Lancet Regional Health – Americas)
• CVV: cerca de 3.500 voluntários, 100 postos, mais de 3 milhões de atendimentos por ano, 24h, pelo 188

(Fonte: JAMA, Ministério da Saúde, OMS, CVV)

O estudo não diz o que a manchete apressada vai dizer

Cuidado com a leitura preguiçosa. O trabalho não prova que uma tentativa "causa" outra. Como os próprios autores ressaltam, há fatores que ao mesmo tempo aumentam a chance de alguém ter uma tentativa na rede próxima e a chance de tentar: ambiente familiar, condição socioeconômica, bullying, uso de substâncias, trauma. Quem cresce num contexto assim tende a ter amigos que cresceram no mesmo contexto. Correlação não é sentença.

Mas o estudo diz uma coisa com clareza: quando acontece um caso numa escola, numa turma de faculdade, num prédio, numa empresa, o grupo em volta entra numa janela de risco. E o que se faz nessa janela decide muita coisa.

Posvenção: a palavra que o Brasil ainda não aprendeu

Existe um nome para o cuidado que se organiza depois de uma tentativa ou de uma morte: posvenção. Estados Unidos, Canadá e Austrália já têm protocolos estruturados para isso — uma revisão de 2025 na Preventive Medicine mapeou dez anos dessas práticas. O modelo é de saúde pública em camadas: informação segura e acolhimento coletivo para todos, grupos de apoio conduzidos por pares treinados para os mais próximos, psicoterapia especializada para quem ficou mais afetado.

"A posvenção faz um chamamento para um processo de cuidado e acolhimento coletivo", diz a psicóloga Andréia Garbin, docente da USP. A pergunta que ela propõe é simples e desconfortável: "Diante da situação da ocorrência, que espaço a gente cria no trabalho e na comunidade para que a pessoa expresse luto, sofrimento?" Na maioria das escolas e empresas brasileiras, a resposta honesta é: nenhum. Faz-se o minuto de silêncio e volta-se à planilha.

Garbin defende que o Brasil adote protocolos nacionais de posvenção — e o argumento é o calendário. O país registrou mais de 15 mil mortes por suicídio em 2021, e a curva sobe. A OMS estima que, para cada morte, haja ao menos vinte tentativas e cinco ou seis pessoas próximas afetadas. Multiplique: são mais de 300 mil tentativas e perto de 100 mil enlutados por ano, quase todos sem nenhum cuidado estruturado.

O dado que ninguém esperava: amigo de carne e osso

Tem um achado secundário no estudo do JAMA que merece mais atenção do que vai receber. Jovens com redes de amigos presenciais maiores apresentaram menos sintomas depressivos. Não seguidores, não grupo de Discord — gente que senta do lado. Num ano em que 70% dos brasileiros já recorreram a inteligência artificial para lidar com a própria cabeça, como mostrou o Mind Health Report da AXA, é um lembrete pouco tecnológico: a variável de proteção mais robusta que a ciência encontrou até hoje é alguém por perto.

Por que a campanha é amarela — e o que fazer com ela

O Setembro Amarelo nasceu de um Mustang. Em 1994, nos Estados Unidos, Mike Emme tirou a própria vida aos 17 anos. No velório, a família distribuiu cartões com fitas amarelas, a cor do carro dele, e mensagens para quem estivesse sofrendo em silêncio. O gesto virou movimento; no Brasil, foi adotado em 2015 pelo CVV, pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria. O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio é 10 de setembro.

O que fazer, de verdade? Se alguém próximo passou por uma tentativa, não mude de assunto. Pergunte como a pessoa está — e depois pergunte de novo, na semana seguinte. Ouvir é captar o som; escutar é suspender o julgamento sobre o tamanho do problema do outro. Se você é pai, mãe, professor ou gestor e um caso aconteceu no seu grupo, procure ajuda profissional para o grupo, não só para a família. E se o sofrimento é seu: o CVV atende 24 horas, de graça, com sigilo, pelo 188, pelo chat em cvv.org.br e presencialmente. O CAPS do seu município também é porta de entrada, sem encaminhamento.

Falar sobre suicídio não aumenta o risco. O silêncio, sim. A ciência já provou isso vezes suficientes. O que ainda falta provar é que o Brasil consegue ouvir.

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