São Paulo abriu consulta com clínico geral 24 horas pelo celular — e o detalhe importante está na letra miúda

São Paulo abriu consulta com clínico geral 24 horas pelo celular — e o detalhe importante está na letra miúda

A prefeitura anunciou nesta quarta que o aplicativo e-saúdeSP passa a oferecer teleconsulta com clínico geral e acompanhamento de hipertensão, diabetes e obesidade. Vale para quem é cadastrado numa UBS da capital — o que é, ao mesmo tempo, a maior virtude e o maior limite da novidade.

SaúdeCidade ·

Você já tentou marcar consulta com clínico geral na UBS do seu bairro? Então já conhece o roteiro: você liga ou aparece, alguém diz que a agenda abre na segunda, você volta na segunda, a agenda encheu na primeira hora. Repita até desistir ou até o problema virar urgência.

A Prefeitura de São Paulo anunciou nesta quarta-feira (19) uma tentativa de furar essa fila por outro caminho: o aplicativo e-saúdeSP passou a oferecer consultas virtuais com clínico geral e também acompanhamento remoto de pacientes com doenças crônicas — hipertensão, diabetes e obesidade. O serviço está disponível para moradores da capital cadastrados em uma Unidade Básica de Saúde.

É uma boa notícia. Só que, como quase toda boa notícia em saúde pública, ela vem com uma condição escondida no meio da frase.

O que muda de fato

O e-saúdeSP não é novo. Ele nasceu em julho de 2020, no auge da pandemia, com uma função bem específica: permitir que o paulistano fosse avaliado por videochamada sem entupir o pronto-socorro. Era teletriagem de covid com nome de aplicativo.

Cinco anos depois, virou outra coisa. Hoje o app reúne o histórico do paciente no SUS municipal — atendimentos, laudos de exames, carteira de vacinação — e um conjunto de serviços que muita gente nem sabe que existe: o Busca Saúde (mapa dos equipamentos da rede), o Remédio na Hora (mostra em qual farmácia municipal tem o medicamento que você precisa, e funciona sem cadastro), o Agenda Fácil, o SPrEP (teleconsulta para PrEP e PEP contra o HIV, todos os dias das 18h às 22h) e o Pronto Saúde, atendimento digital para casos não urgentes.

O que muda agora é o degrau seguinte. Até então, o Pronto Saúde começava com enfermagem e encaminhava para médico se fosse necessário. Passar a oferecer consulta direta com clínico geral — e, sobretudo, acompanhamento continuado de crônicos — muda a natureza da ferramenta: ela deixa de ser um filtro de urgência e vira um pedaço da atenção primária.

O e-saúdeSP em números e serviços:

• Lançado em julho de 2020, durante a pandemia
• Cerca de 5 milhões de usuários cadastrados e mais de 52 milhões de acessos
Busca Saúde — todos os equipamentos da rede municipal
Remédio na Hora — onde tem o remédio (sem precisar de cadastro)
Agenda Fácil — agendar, consultar e cancelar consultas
SPrEP — teleconsulta de PrEP/PEP, todos os dias, das 18h às 22h
Pronto Saúde — atendimento digital para casos não urgentes
Novo: teleconsulta com clínico geral e acompanhamento de hipertensão, diabetes e obesidade

Por que crônico é justamente o caso certo

Se alguém tivesse que escolher um único grupo de pacientes para atender por vídeo, escolheria exatamente este.

Hipertensão e diabetes não são doenças de consulta única. São doenças de ajuste: mede a pressão, olha o número, mexe na dose, remarca em três meses. A maior parte desse trabalho é conversa e leitura de dado — não exige que ninguém atravesse a cidade de ônibus para descobrir que está tudo estável e que o remédio continua o mesmo.

E o custo de não fazer esse acompanhamento é conhecido. Pressão e glicemia mal controladas são as duas principais estradas que levam à doença renal crônica — o número de brasileiros em diálise cresceu 41% em uma década, segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia. São também a matéria-prima do AVC e do infarto. Nenhuma dessas coisas acontece de repente; todas acontecem depois de anos de consulta que não rolou.

Trocar uma manhã inteira de deslocamento por vinte minutos de videochamada não é conforto de classe média. Para quem trabalha por diária, é a diferença entre fazer o acompanhamento e não fazer.

A letra miúda: "cadastrado em uma UBS"

Aqui está o ponto que a manchete não conta.

O serviço vale para quem já está vinculado a uma Unidade Básica de Saúde da capital. Faz todo sentido do ponto de vista clínico — teleconsulta sem prontuário e sem equipe de referência é atendimento cego, e prescrever anti-hipertensivo para alguém de quem você não sabe nada é pior do que não atender.

Mas isso significa que a novidade não resolve o problema de quem está fora do sistema. Justamente a população que menos aparece na UBS — homens adultos, trabalhadores informais, gente que se mudou há pouco, morador de rua — continua fora. A telemedicina, aqui, amplifica quem já está dentro. Ela não recruta ninguém.

Há também a barreira óbvia: o serviço mora num aplicativo. Exige celular que aguente o app, internet estável o suficiente para vídeo, e alguma familiaridade com cadastro digital. Nenhuma dessas três coisas é universal na periferia de São Paulo — e as três faltam com mais frequência exatamente entre os idosos, que são a maior parte dos pacientes crônicos.

O que fazer na prática

Se você mora na capital e usa o SUS, vale gastar dez minutos com isto:

1. Descubra se você está cadastrado numa UBS. Muita gente acha que está e não está — ou está numa unidade do endereço antigo. O vínculo é a chave que abre o resto.

2. Instale o app e confira seu histórico. Exames, vacinas e atendimentos ficam lá. É a forma mais rápida de descobrir que aquele exame que você "acha que fez" não foi feito.

3. Use o Remédio na Hora antes de sair de casa. Ele não precisa de cadastro e evita a peregrinação clássica entre farmácias municipais.

4. Se você tem pressão alta ou diabetes, peça o acompanhamento. Consulta de crônico por vídeo só funciona se você levar dados: anote as medições de pressão e glicemia da semana antes de entrar na chamada. Sem número, a consulta vira conversa.

Digital não é atalho, é ponte

Existe um risco recorrente nesse tipo de anúncio, e vale nomear: telemedicina barata é uma tentação enorme para gestor com orçamento apertado. É muito mais fácil comprar plataforma do que contratar médico de família e abrir consultório.

Videochamada não mede pressão, não ausculta pulmão, não apalpa abdome e não faz exame de fundo de olho em diabético — que é como se descobre retinopatia antes de a pessoa perder a visão. Ela resolve o seguimento; não substitui o encontro.

O teste real do e-saúdeSP com clínico geral 24 horas não é quantas consultas ele fizer. É se, daqui a um ano, as UBSs da capital estiverem com menos fila para o presencial — porque o que é rotina virou remoto — ou se a fila continuar igual e a videochamada tiver virado apenas mais uma sala de espera, agora com Wi-Fi.

Tecnologia em saúde pública não é boa nem ruim por natureza. Ela é boa quando devolve tempo ao paciente e ruim quando devolve tempo só ao orçamento.

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