As bets movem bilhões e o SUS recebe a conta: atendimentos por vício em apostas sobem 104%
O custo social do jogo no Brasil é estimado em R$ 38,8 bilhões por ano — R$ 30,6 bilhões deles em impacto direto na saúde. Entre 2018 e maio de 2025, o SUS registrou mais de 10.500 atendimentos por ludopatia. A OMS classifica isso como transtorno desde a CID-11.
Tem uma frase que a publicidade das bets repete até virar paisagem: "jogue com responsabilidade".
É o equivalente moderno do "beba com moderação" — uma linha de isenção legal colada no fim de um anúncio de trinta segundos que faz exatamente o oposto: cria urgência, promete retorno imediato e mostra alguém ganhando.
O problema é que, quando a responsabilidade individual não dá conta, quem recebe a pessoa não é a casa de apostas. É o CAPS do bairro. É a UBS. É o pronto-socorro numa madrugada de tentativa de suicídio.
E os números disso pararam de ser anedota.
Dez mil e quinhentos atendimentos — e essa é a ponta visível
Entre 2018 e maio de 2025, o SUS registrou mais de 10.500 atendimentos relacionados ao vício em apostas, com alta de 104% no período. Dobrou.
Antes que alguém ache o número pequeno: ele é pequeno, e é justamente esse o problema.
Ludopatia é um transtorno que quase nunca chega ao serviço de saúde com o próprio nome. Chega como depressão, como ansiedade, como insônia, como conflito familiar, como abuso de álcool, como tentativa de suicídio. O paciente senta na frente do profissional e fala de dívida, de vergonha, de casamento acabando — raramente fala do aplicativo.
E se ninguém pergunta, o registro sai com outro código. Os 10.500 são os casos em que alguém nomeou a coisa certa.
• R$ 38,8 bilhões — custo social total estimado por ano
• R$ 30,6 bilhões — impacto direto e indireto na saúde (tratamento, perda de qualidade de vida, suicídios)
• 10.500+ atendimentos por vício em apostas no SUS entre 2018 e maio de 2025
• 104% de aumento no período
• CID-11, código 6C50 — a OMS reconhece o transtorno do jogo como doença
Dados apresentados em painel do Healthcare Innovation Show (HIS 2026).
Trinta bilhões em saúde
Repare na composição do custo social: dos R$ 38,8 bilhões, R$ 30,6 bilhões — quase quatro quintos — são impacto em saúde.
Isso inclui tratamento, perda de qualidade de vida e suicídios.
É um dado que reposiciona o debate inteiro. A discussão pública sobre bets no Brasil tem sido, quase toda, uma discussão de arrecadação: quanto o setor gera de imposto, quanto patrocina, quanto emprega. A conta da saúde raramente entra na planilha — porque ela não chega como despesa etiquetada "apostas". Chega diluída, como mais um paciente na fila do CAPS e mais uma internação psiquiátrica.
Uma indústria que fatura no caixa e transfere o custo para o orçamento público não é um negócio — é uma externalidade. E externalidade tem nome técnico em economia porque tem solução técnica em política pública: quem gera o custo paga por ele.
Não por acaso, uma das propostas que aparece no debate é vincular parte da tributação do setor ao financiamento da RAPS — a Rede de Atenção Psicossocial, que é onde o paciente com ludopatia deveria ser acolhido e que é, historicamente, uma das áreas mais subfinanciadas do SUS.
Não é falta de caráter. Está na CID.
Vale ser direto, porque essa é a parte em que o senso comum brasileiro erra feio.
O transtorno do jogo está classificado na CID-11 da OMS sob o código 6C50. É doença, com critério diagnóstico, curso clínico e tratamento — não é fraqueza moral, não é falta de disciplina, não é "gostar demais de arriscar".
O mecanismo é o mesmo das dependências químicas: o sistema de recompensa do cérebro é sequestrado por um estímulo que entrega dopamina de forma imprevisível. E "imprevisível" é a palavra-chave — reforço intermitente é, comprovadamente, o padrão que mais fixa comportamento. É o motivo pelo qual máquina caça-níquel funciona melhor que salário.
O aplicativo de aposta esportiva otimizou isso. Ele está no bolso, funciona às três da manhã, aceita PIX instantâneo, oferece "aposta ao vivo" que resolve em segundos e devolve bônus quando você para de jogar. Não é um cassino que você precisa visitar — é um cassino que te visita.
Cobrar força de vontade contra um sistema desenhado por engenheiros comportamentais é como cobrar de alguém que resista à gravidade.
Quem está na linha de frente
A discussão foi levada ao Healthcare Innovation Show, que acontece em 16 e 17 de setembro no São Paulo Expo, com painel específico sobre o tema — reunindo, entre outras, Claudia Ruggiero Longhi, diretora da Divisão de Saúde Mental da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.
Que a rede municipal de saúde mental de São Paulo esteja na mesa diz muito. Não é um debate sobre regulação de publicidade em abstrato — é sobre quem atende, hoje, com a equipe que tem, uma demanda que não existia há cinco anos.
Os eixos apontados são três: coordenação público-privada, tributação destinada à RAPS e regulação da publicidade de jogos.
Esse último item é o mais óbvio e o mais difícil. O Brasil já fez isso antes, com resultado documentado: a restrição à propaganda de cigarro derrubou a prevalência de tabagismo de forma que campanha educativa nenhuma conseguiria. Ninguém acha hoje que aquilo foi censura. Foi política de saúde.
Como reconhecer — em você ou em alguém próximo
Os sinais clínicos do transtorno do jogo são razoavelmente bem definidos, e nenhum deles é "jogar muito":
Perda de controle. A pessoa decide parar, promete parar, e volta a apostar. Repetidamente.
Necessidade de apostar valores crescentes para sentir a mesma coisa — o equivalente à tolerância nas dependências químicas.
Perseguir o prejuízo. Apostar para recuperar o que perdeu. É o comportamento mais característico e o mais destrutivo, porque transforma perda em motivo para apostar mais.
Mentir sobre o quanto joga ou esconder extratos, dívidas e empréstimos de família e amigos.
Prejuízo real em trabalho, estudo, relações ou finanças — e continuar mesmo assim.
Irritabilidade ou angústia ao tentar parar, que é abstinência com outro nome.
Onde procurar ajuda: o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) do município atende sem encaminhamento e sem custo — é a porta de entrada da RAPS para transtornos de dependência. A UBS também acolhe e encaminha. Para crise e ideação suicida, o CVV atende 24 horas no 188, de graça.
E há uma medida prática que funciona melhor do que força de vontade: autoexclusão e bloqueio. Pedir bloqueio nas plataformas, tirar o cartão e o PIX salvos, entregar o controle financeiro a alguém de confiança por um período. Não é humilhação — é a mesma lógica de tirar a bebida de casa.
A conta que já está sendo paga
O Brasil legalizou as apostas esportivas prometendo arrecadação, regulação e fim do mercado clandestino. Ganhou as três coisas — e uma quarta que ninguém colocou no projeto de lei.
R$ 30,6 bilhões por ano em impacto na saúde é aproximadamente o que o país gasta com programas inteiros de atenção básica. Só que esse gasto não aparece em nenhuma rubrica orçamentária: ele aparece como fila no CAPS, como leito psiquiátrico ocupado e como família que perdeu alguém.
A pergunta que o setor prefere que ninguém faça não é se as bets dão lucro. É quem está pagando por ele.
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