Pular para o conteúdo
Fentanil na maconha sintética: USP acha o opioide em 1 de cada 3 usuários — e nenhum sabia

Fentanil na maconha sintética: USP acha o opioide em 1 de cada 3 usuários — e nenhum sabia

Pesquisadores analisaram a saliva de 65 usuários das drogas K atendidos em três serviços de saúde de São Paulo. Vinte e um tinham fentanil no organismo, e nenhum relatou ter usado opioide. A droga custa de R$ 1 a R$ 5 a porção, sai mais barata que o crack e virou o atalho perfeito para uma crise que o Brasil passou anos achando que era só dos Estados Unidos.

SaúdeCidade ·

Se você acompanhou, mesmo de longe, a epidemia de opioides nos Estados Unidos, deve ter ouvido alguma variação da frase "isso não chega aqui". O argumento era quase reconfortante: o brasileiro não tem cultura de heroína, o fentanil é remédio de centro cirúrgico, a nossa praga é o crack. Pois um estudo da Universidade de São Paulo (USP) acaba de mostrar que o fentanil não precisou pedir licença. Ele entrou de carona, escondido dentro de outra droga.

A pesquisa, conduzida pela pesquisadora Ligia Goes Endo e divulgada pela Folha de S.Paulo, coletou a saliva de 65 usuários de canabinoides sintéticos, as chamadas drogas K (K2, K9 e variações), atendidos em três serviços de saúde da capital paulista, um na zona sul e dois na zona leste. Resultado: 21 deles, ou 32%, tinham fentanil no organismo. Nenhum dos 65 declarou ter usado qualquer opioide.

Traduzindo: um terço das pessoas testadas estava consumindo um dos venenos mais potentes do mercado ilegal sem saber. Não escolheram o risco. Compraram uma coisa e levaram outra.

O que é a droga K — e por que "maconha" é o nome errado

O apelido "maconha sintética" é um dos maiores golpes de marketing do tráfico. As drogas K são substâncias de laboratório borrifadas sobre ervas secas, chás e até temperos, que acabam fumadas como se fossem um baseado. A perícia já encontrou de tudo nas porções apreendidas em São Paulo.

"Essas drogas K têm o efeito similar ao da maconha, mas é importante destacar que elas não são canabinoides", explica Endo. "A comparação se dá exclusivamente porque atingem o mesmo receptor, mas o efeito é extremamente potencializado. É uma redução brusca da atividade cerebral." É como chamar um caminhão desgovernado de "carro grande": tecnicamente os dois andam na mesma rua, mas a semelhança para por aí.

E tem o preço. Os usuários entrevistados relataram pagar entre R$ 2 e R$ 5 pela porção. Alguns disseram conseguir, com R$ 1, o suficiente para dois cigarros. Mais barato que o crack, segundo os próprios consumidores, que contaram que a K9 virou a droga principal depois que começaram, e que só recorrem ao crack quando não encontram a K. Para o tráfico, é o produto dos sonhos: mais viciante, mais barato de produzir e com margem que dispensa explicação.

O estudo da USP, em números
• 65 usuários de canabinoides sintéticos testados pela saliva
• 3 serviços de saúde na cidade de São Paulo (1 na zona sul, 2 na zona leste)
• 21 positivos para fentanil (32%), nenhum relatou uso de opioide
• Perfil dos positivos: maioria homens, em situação de rua e com baixa escolaridade
• Idade mediana dos participantes: 23 anos
• Preço relatado da droga K: R$ 1 a R$ 5 a porção
• Fentanil: cerca de 100 vezes mais potente que a morfina; 2 mg podem ser letais para um adulto
(Fontes: USP/Folha de S.Paulo; DEA e CDC para a potência do fentanil)

Por que achar fentanil na saliva muda o jogo

Já se sabia, por análises de material apreendido pela polícia, que havia fentanil misturado em lotes de maconha sintética. Mas droga apreendida é droga que não chegou ao pulmão de ninguém. O que faltava era a prova de que a substância estava circulando no corpo de quem usa, na rua. Segundo os pesquisadores, é a primeira vez que o opioide aparece num rastreamento feito com esse foco.

Um detalhe chamou a atenção da equipe: todos os usuários com resultado positivo para fentanil relataram não ter usado maconha, cocaína ou álcool nos quatro dias da avaliação. Ou seja, o fentanil não veio de um "coquetel" qualquer. A hipótese dos autores é que a contaminação esteja concentrada em redes e cadeias de fornecimento específicas das drogas K. Em outras palavras: tem gente, em algum ponto da cadeia, colocando fentanil de propósito, ou trabalhando com um insumo contaminado que alguém não se deu ao trabalho de controlar.

Nas duas hipóteses, o resultado para quem fuma é o mesmo. A dose não vem escrita no saquinho.

O problema do fentanil é a matemática

Dentro do hospital, a fentanila é um anestésico excelente, e é justamente por ser tão potente que o uso é tão controlado. "No centro cirúrgico ela causa uma depressão respiratória programada, com dosagem controlada, para um fim específico", diz Endo. "Imagine um usuário usando isso de forma descontrolada na rua, sem noção de dosagem. Ele corre risco elevado de morte."

A conta é cruel. A agência antidrogas americana (DEA) estima que 2 miligramas de fentanil, o equivalente a uns poucos grãos de sal, já podem matar um adulto. Num cigarro artesanal de erva borrifada, ninguém controla se a dose de um é igual à do outro. Um dia o usuário fuma e fica sedado; no outro, o mesmo vendedor entregou um lote mais "carregado" e a respiração simplesmente para. A overdose de opioide mata assim: sem convulsão cinematográfica, só uma respiração que fica lenta, depois mais lenta, até não voltar.

O risco sobe quando o fentanil se encontra com outros depressores do sistema nervoso, como álcool e calmantes da família dos benzodiazepínicos. E o uso repetido leva à dependência física, com crise de abstinência quando falta. Para o traficante, isso tem nome: cliente fiel.

Os Estados Unidos como espelho — e como aviso

Nos Estados Unidos, as mortes por overdose passaram de 100 mil por ano no pico, e a maior parte delas foi causada por opioides sintéticos, principalmente o fentanil ilícito. Lá, a droga chegou misturada a heroína, a comprimidos falsificados e a cocaína, exatamente desse jeito: escondida, sem que o usuário soubesse. As mortes só começaram a cair de forma consistente depois de anos de investimento em tratamento e em naloxona, o antídoto que reverte a overdose de opioide e que, desde 2023, é vendido em spray nasal sem receita nas farmácias americanas.

No Brasil, a naloxona existe, mas mora praticamente só nos hospitais e nas ambulâncias. Não está na mochila do agente de redução de danos, nem na portaria do abrigo, nem no consultório na rua. E o perfil revelado pela USP é exatamente o de quem tem menos acesso a qualquer coisa: homens jovens, em situação de rua, com pouca escolaridade, usando a droga mais barata disponível. Se a epidemia brasileira de fentanil vier, ela não vai começar no condomínio. Vai começar na calçada.

O que fazer na prática

Se você conhece alguém que usa droga K, saiba reconhecer os sinais de overdose de opioide: pupilas muito pequenas (como cabeça de alfinete), respiração muito lenta ou com ronco, lábios e unhas arroxeados e a pessoa que não acorda nem com chamado alto ou estímulo forte. Nesse caso, ligue para o SAMU (192) imediatamente, deixe a pessoa de lado para não engasgar e fique com ela até o socorro chegar. Não é hora de sermão nem de esperar "passar".

Para quem quer parar ou reduzir o uso, o SUS tem os CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), de porta aberta, sem necessidade de encaminhamento, e as equipes de Consultório na Rua em várias capitais. E para quem faz política pública, o estudo deixa um recado com endereço: é preciso testar a droga que circula, monitorar intoxicações nos prontos-socorros e colocar naloxona onde estão as pessoas em risco, antes que a estatística americana ganhe tradução para o português.

A maconha sintética já não era maconha. Agora, para um em cada três usuários testados em São Paulo, ela também é fentanil. O usuário não sabe. O traficante sabe. A questão é se o poder público vai querer saber antes ou depois dos primeiros corpos.

Publicidade: StickybitPublicidade
Compartilhar: