O problema da saúde mental no Brasil não é só falta de psiquiatra — é o cuidado que se perde nas emendas

O problema da saúde mental no Brasil não é só falta de psiquiatra — é o cuidado que se perde nas emendas

Um hospital universitário do Rio Grande do Sul inaugurou um centro que junta, no mesmo lugar, internação, hospital-dia e ambulatório de saúde mental. Parece arranjo administrativo, mas mira um buraco real: o paciente que melhora numa etapa e some na passagem para a próxima.

SaúdeCidade ·

Quem já acompanhou alguém num quadro grave de saúde mental conhece o ponto em que o tratamento costuma desandar — e quase nunca é a falta do remédio. É a passagem de bastão. A pessoa interna numa crise, melhora, recebe alta. Aí precisa marcar o acompanhamento em outro serviço, em outro endereço, com outra fila. No vão entre uma etapa e outra, o cuidado escorrega pelo ralo — e a próxima crise é só questão de tempo.

É exatamente esse vão que o Hospital São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre, tentou fechar. Em 17 de junho de 2026, inaugurou um Centro Integrado de Cuidado em Saúde Mental — segundo a instituição, o primeiro do Rio Grande do Sul a juntar os vários níveis de atendimento dentro de uma única linha de cuidado, num hospital universitário.

O que muda quando tudo fica no mesmo lugar

A ideia central é simples e, por isso mesmo, demorou: em vez de o paciente peregrinar entre serviços que não conversam, ele percorre as etapas dentro da mesma estrutura, com a mesma equipe acompanhando a jornada inteira.

O que o Centro reúne sob o mesmo teto:

Internação psiquiátrica para os quadros agudos
Hospital-dia — o paciente passa o dia em tratamento e dorme em casa
Ambulatórios especializados para o acompanhamento contínuo
Psiquiatria intervencionista: eletroconvulsoterapia, estimulação magnética transcraniana e escetamina
• Terapias em grupo, oficinas e reabilitação psicossocial

Público-alvo: transtornos psicóticos, transtorno bipolar, depressão resistente e casos de alta complexidade.

Repare na palavra "resistente", ali no público-alvo. São os pacientes que já tentaram o tratamento padrão e não responderam — os que mais se beneficiam de recursos como a estimulação magnética e a escetamina, e os que mais se perdem quando o sistema é fragmentado. Concentrar isso num lugar só não é luxo de hospital rico: é o desenho que dá chance a quem o caminho comum já não alcançou.

Por que isso vira notícia agora

Porque a conta da saúde mental no Brasil parou de ser abstrata. Os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no país, e o número vem subindo. O coordenador do centro, Lucas Spanemberg, lembra que dados recentes da Previdência apontam aumento expressivo de afastamentos por ansiedade, depressão e burnout — agravados, no Rio Grande do Sul, pelo trauma coletivo das enchentes de 2024.

No mundo, a Organização Mundial da Saúde calcula que cerca de 1 bilhão de pessoas convivam com algum transtorno mental, com impacto econômico estimado em US$ 6 trilhões até 2030. É a rara estatística em que o custo humano e o custo financeiro apontam para a mesma conclusão: tratar bem sai mais barato do que deixar adoecer.

Um modelo — não a solução do país

É preciso colocar a iniciativa no tamanho real. Um centro num hospital universitário de Porto Alegre não resolve a saúde mental de um país continental. A maior parte dos brasileiros depende da rede pública de base — os CAPS, a unidade de saúde do bairro — e é lá que o gargalo é mais cruel.

Mas o valor de um modelo bem montado é servir de prova de conceito. Ele mostra, na prática, que integrar o cuidado funciona melhor do que espalhá-lo — uma lição que pode ser copiada, adaptada e cobrada na rede pública. Porque o problema central da saúde mental brasileira raramente é não ter o tratamento. É o tratamento existir picado, em endereços que não se falam, e o paciente desistir no caminho entre um e outro. Quem inventou de juntar as pontas, ao menos, está mirando no lugar certo.

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