Depois de perder 60 kg pelo SUS, o paciente tem direito de remover a pele que sobrou — mas ainda não tem

Depois de perder 60 kg pelo SUS, o paciente tem direito de remover a pele que sobrou — mas ainda não tem

Um projeto de lei em tramitação no Congresso quer incluir cirurgias reparadoras pós-bariátricas no SUS. A cirurgia não é estética — é funcional. Sem ela, o excesso de pele causa infecções, dor crônica e impede atividades básicas. O sistema público opera a bariatria e abandona o processo no meio.

SaúdeCidade ·

Imagine que você tinha obesidade mórbida. Passou por anos de tentativas frustradas de perda de peso. O médico indicou cirurgia bariátrica. Você entrou na fila do SUS — que, dependendo do estado, dura de um a cinco anos. Fez a cirurgia. Perdeu 60, 70, 80 quilos. Transformou a sua saúde metabólica. Reduziu o risco de diabetes, hipertensão, apneia do sono, câncer. E acordou com, literalmente, quilos de pele sobrando.

Pele no abdome que dobra sobre si mesma e cria um ambiente úmido e quente onde fungos e bactérias proliferam. Pele nas coxas que provoca feridas de atrito. Excesso de tecido nos braços que limita movimento. O sistema público pagou pela cirurgia que causou o problema. Mas não paga pela cirurgia que resolve.

O Projeto de Lei 6510/25, da deputada Renata Abreu (Pode-SP), quer mudar isso. O PL propõe incluir cirurgias reparadoras funcionais pós-bariátricas no SUS como parte integral do tratamento da obesidade mórbida. Está em tramitação nas comissões da Câmara. Pode chegar ao Senado ainda este ano.

O problema que o sistema criou e não resolve

O SUS realizou mais de 65 mil cirurgias bariátricas em 2024. É o maior programa público de bariátrica do mundo. Uma conquista real de saúde pública — a cirurgia bariátrica tem evidência robusta de redução de mortalidade cardiovascular, remissão de diabetes tipo 2 e melhora de qualidade de vida.

O que o sistema não resolve é o que vem depois. A perda de peso rápida e significativa — característica da cirurgia bariátrica — deixa a pele sem tempo de se adaptar. Em pacientes que perderam mais de 40 kg, o excesso de pele é quase universal. E não é apenas questão estética.

Consequências clínicas do excesso de pele pós-bariátrica:

Dermatite de dobra: infecções fúngicas e bacterianas recorrentes nas pregas cutâneas
Úlceras de pressão: feridas de difícil cicatrização em contato constante com superfícies
Dor crônica: tração mecânica em articulações e coluna
Limitação funcional: dificuldade para caminhar, agachar, praticar exercícios
Impacto psicossocial: depressão, isolamento social, abandono do tratamento de saúde
Cirurgias bariátricas feitas pelo SUS em 2024: mais de 65 mil

A deputada Renata Abreu foi direta na justificativa do PL: "O excesso cutâneo pós-bariátrico está associado a dermatites de repetição, infecções, dores, limitações funcionais e dificuldades para a realização de atividades básicas do dia a dia." Não é conversa sobre aparência. É conversa sobre função — a mesma lógica que o SUS usa para cobrir a amputação de um membro, mas não cobre a prótese.

A fronteira entre estética e funcional

O argumento central do PL é a natureza terapêutica, não estética, dos procedimentos. E a distinção é real — mas complexa na prática. Uma abdominoplastia feita exclusivamente por vaidade é estética. A mesma cirurgia feita para remover um painel de pele que causa infecções mensais e impede que o paciente se exercite é funcional.

O PL resolve isso com critérios de elegibilidade: comprovação de cirurgia bariátrica prévia, estabilidade de peso por período definido pelo Ministério da Saúde, laudo médico atestando prejuízo funcional, clínico ou psicossocial, e avaliação por equipe multiprofissional. Não é entrada livre para qualquer procedimento plástico. É acesso específico para quem tem indicação documentada.

O precedente existe. O SUS já cobre mamoplastia redutora em casos de macromastia funcional — quando o tamanho das mamas causa dor crônica na coluna. Cobre correção de ptose palpebral que interfere na visão. A lógica é a mesma: o critério é impacto na saúde, não na aparência.

O argumento financeiro — e por que ele falha

O contra-argumento mais comum é custo. Cirurgias plásticas são caras. O SUS já está sobrecarregado. Adicionar mais procedimentos é inviável.

O problema dessa lógica é que ela ignora o custo do não-tratamento. Dermatites de repetição geram consultas, antibióticos, antifúngicos, internações. Dor crônica gera fisioterapia, analgésicos, afastamento do trabalho. Depressão pós-bariátrica gera acompanhamento psiquiátrico, medicamentos, risco de abandono do acompanhamento e reganho de peso — o que pode levar o paciente de volta ao ponto de partida, com o SUS pagando pela segunda bariátrica.

O cálculo correto não é "quanto custa a cirurgia reparadora". É "quanto custa a cirurgia reparadora comparada a uma década de complicações não tratadas". Em medicina, quase sempre sai mais barato resolver o problema do que tratar as consequências de não resolvê-lo.

O que falta para virar lei

O PL 6510/25 tramita em caráter conclusivo pelas comissões de Saúde, Finanças e Tributação, e Constituição e Justiça da Câmara. Se passar em todas, vai ao Senado — e depois à sanção presidencial.

O caminho não é curto. E nem garantido. Projetos de lei que ampliam cobertura do SUS tendem a encontrar resistência fiscal — especialmente quando o argumento de custo é mais intuitivo do que o de longo prazo. O lobby estético também olha torto para qualquer movimento que "banaliza" cirurgias plásticas.

Mas a pressão do lado certo é crescente. Associações de pacientes bariátricos, cirurgiões plásticos e cirurgiões bariátricos já apoiam o projeto. A lógica é simples: um sistema de saúde que trata a obesidade pela metade não está tratando a obesidade. Está fazendo metade de um serviço — e mandando a conta da outra metade para o paciente que, frequentemente, é exatamente quem menos tem condição de pagar.

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