Brasileiras congelaram óvulos 79 mil vezes em seis anos — e quase nenhuma pelo SUS
O número de ciclos de coleta para criopreservação cresceu 136,7% entre 2020 e 2025, segundo a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. A biologia manda fazer aos 30. A carreira, o salário e o aluguel mandam esperar. E a conta de R$ 20 mil decide quem consegue comprar tempo.
Existe uma conversa que quase toda mulher brasileira na casa dos 30 já teve — com a mãe, com a ginecologista, consigo mesma às três da manhã. É a conversa sobre o relógio. Não o do celular: o outro, o que ninguém consegue desligar e que a medicina passou a oferecer, por um preço, a possibilidade de pausar.
Os números mostram que muita gente resolveu apertar o botão de pausa. Entre 2020 e 2025, o Brasil registrou 79.360 ciclos de coleta de óvulos para congelamento, segundo levantamento divulgado pela Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA). O salto no período foi de 136,7%: de 7.872 procedimentos em 2020 para 18.631 em 2025 — uma taxa média de crescimento de 18,8% ao ano.
Praticamente nenhum desses procedimentos saiu de graça. E é aí que a notícia deixa de ser sobre tecnologia e passa a ser sobre desigualdade.
Por que tanta gente está adiando
A explicação não é mistério nem capricho. Segundo a especialista da SBRA Mylena Naves Rocha, "o principal fator associado ao aumento dessa procura é o adiamento da maternidade, motivado por questões profissionais, acadêmicas".
O IBGE confirma a mudança de padrão. Em 2022, mulheres com 30 anos ou mais já representavam 39% das mães brasileiras. A faixa de 30 a 39 anos saltou de 22% dos nascimentos em 2000 para 34,5% em 2022. Entre mães com 40 anos ou mais, o crescimento foi de 2% para 4,2% — mais que o dobro em duas décadas.
Ou seja: a decisão de ter filhos mais tarde não é uma tendência de nicho de executiva de multinacional. Virou padrão demográfico. O problema é que o corpo não leu o mesmo memorando — a reserva ovariana continua obedecendo ao cronograma de sempre, indiferente a pós-graduação, promoção ou aluguel de São Paulo.
A janela biológica que ninguém negocia
Aqui está a parte que a publicidade das clínicas costuma tratar com delicadeza excessiva: congelar óvulos funciona melhor quanto mais cedo for feito. A recomendação técnica é clara — antes dos 35 anos, com a idade ideal em torno dos 30.
Mulheres acima dos 35 e dos 40 anos podem, sim, fazer o procedimento. Mas precisam ser orientadas com franqueza sobre as chances reais: menos óvulos coletados por ciclo, maior proporção de alterações cromossômicas, taxa de gravidez futura menor por óvulo armazenado. Congelar aos 41 não é o mesmo produto que congelar aos 31 — é o mesmo procedimento com um prognóstico bem diferente.
E aqui a ironia se instala sozinha: a idade em que o congelamento funciona melhor (30 anos) é exatamente a idade em que a maioria das brasileiras está pagando financiamento estudantil, dividindo apartamento e sem R$ 20 mil sobrando na conta.
• 79.360 ciclos de coleta entre 2020 e 2025
• Crescimento de 136,7% no período
• De 7.872 (2020) para 18.631 procedimentos (2025)
• Média de 18,8% de crescimento ao ano
• Idade ideal: até 35 anos, preferencialmente aos 30
• Mães com 30+ anos já são 39% do total (IBGE, 2022)
• Indicações clínicas: falência ovariana precoce, câncer antes de quimio ou radioterapia, endometriose com comprometimento ovariano
Não é só sobre carreira: existe indicação médica
Vale separar duas coisas que a conversa pública mistura. Há o congelamento eletivo — a mulher que quer preservar a possibilidade de engravidar mais tarde — e há o congelamento por indicação clínica, que é outra história.
Entram nessa segunda categoria mulheres com falência ovariana prematura, pacientes que receberam diagnóstico oncológico e precisam preservar a fertilidade antes de iniciar quimioterapia ou radioterapia, e mulheres com endometriose com acometimento ovariano, em que cada cirurgia pode custar parte da reserva.
Para uma mulher de 28 anos que acabou de receber diagnóstico de linfoma, congelar óvulos antes da quimio não é planejamento de vida — é a diferença entre ter e não ter a opção de ser mãe depois de sobreviver ao câncer. E ainda assim, na maior parte do país, esse procedimento depende de conseguir pagar, de conseguir uma vaga em um dos poucos serviços públicos de reprodução assistida ou de entrar na Justiça.
A parte que a estatística não conta
Os 79 mil ciclos são ciclos de coleta, não bebês nascidos. Um óvulo congelado é uma possibilidade guardada no nitrogênio líquido, não uma garantia contratual. O sucesso futuro depende da idade em que a coleta foi feita, da quantidade de óvulos armazenados, da qualidade do sêmen que será usado e das condições uterinas no momento da tentativa — variáveis que ninguém consegue prever com dez anos de antecedência.
Some a isso o custo de manutenção: além do procedimento inicial, há uma taxa anual de armazenamento que continua correndo enquanto o material estiver na clínica. É uma assinatura mensal de esperança, com débito automático.
Nada disso é argumento contra a técnica — a criopreservação é uma conquista real da medicina reprodutiva e devolveu autonomia a muita gente. É argumento contra o marketing que a vende como apólice de seguro com cobertura integral.
O que fazer se você está pensando nisso
Antes de qualquer decisão, existe um exame simples e relativamente barato que muda toda a conversa: a dosagem do hormônio antimülleriano (AMH), combinada com a contagem de folículos antrais por ultrassom. Juntos, eles dão uma estimativa da sua reserva ovariana — informação que transforma "será que devo?" em uma decisão com dado na mão.
Peça à clínica, por escrito, quantos óvulos ela estima coletar por ciclo no seu caso, quantos ciclos provavelmente serão necessários, qual a taxa de sobrevivência ao descongelamento no serviço e quanto custa a manutenção anual. Clínica que responde com folheto em vez de número é clínica que está vendendo tranquilidade, não medicina.
O crescimento de 136,7% em seis anos diz algo sobre o Brasil que vai além da reprodução assistida: milhares de mulheres concluíram que precisam comprar tempo biológico porque o país não lhes oferece as condições para ter filhos na idade em que o corpo cooperaria. Congelar óvulos resolve um problema individual. O problema coletivo continua em temperatura ambiente.
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