O brasileiro vai gastar R$ 537 bilhões com saúde este ano — quase o dobro do orçamento do Ministério

O brasileiro vai gastar R$ 537 bilhões com saúde este ano — quase o dobro do orçamento do Ministério

Levantamento do IPC Maps projeta consumo privado de R$ 537,5 bilhões em 2026, alta de 7%. Para efeito de comparação: o Orçamento sancionado para a Saúde federal foi de R$ 271,3 bilhões. Em um país com sistema universal e gratuito, o bolso do cidadão paga mais que o Estado.

SaúdeCidade ·

Faça o seguinte exercício: some o que saiu da sua conta este ano com saúde. A mensalidade do plano, se você tem. O dentista. A caixa de losartana, a de metformina, o anticoncepcional. O antibiótico do filho. O exame que não deu para esperar. A consulta particular com o especialista porque o encaixe pelo convênio era só em novembro.

Agora multiplique isso por 200 milhões de brasileiros e você chega ao número que a consultoria IPC Maps acaba de projetar: o setor de saúde deve movimentar R$ 537,5 bilhões no Brasil até o fim de 2026 — alta de 7% sobre o ano anterior.

Esse valor não é o que o governo gasta. É o que as famílias gastam.

O número que só faz sentido quando comparado

Sozinho, R$ 537,5 bilhões é uma abstração — cifra grande demais para o cérebro processar. Ela ganha significado quando colocada ao lado do outro número: o Orçamento de 2026 para a Saúde federal, sancionado em janeiro, ficou em R$ 271,3 bilhões.

Ou seja: o consumo privado de saúde no Brasil é praticamente o dobro do que o governo federal reserva para manter em pé o maior sistema público universal do mundo — SUS inteiro, com atenção básica, hospitais, vacinas, transplantes, medicamentos de alto custo, vigilância sanitária e Farmácia Popular.

É preciso dizer o quanto isso é anômalo. Em países com sistema universal — Reino Unido, Canadá, Espanha, Portugal — o gasto público domina folgadamente o gasto privado. O Brasil escreveu na Constituição que a saúde é "direito de todos e dever do Estado" e depois construiu a única grande economia do mundo com sistema universal em que o cidadão paga mais do que o Estado. A universalidade existe no papel; o rateio da conta, não.

Onde o dinheiro entra: plano ou farmácia

O levantamento divide o gasto em dois grandes blocos, e eles são quase gêmeos em tamanho: R$ 279,7 bilhões vão para planos de saúde e tratamentos médicos e odontológicos; R$ 257,8 bilhões, para a compra de medicamentos e insumos.

Esse segundo bloco é o mais revelador. Quase R$ 258 bilhões em remédio num país em que o SUS distribui medicação gratuita para hipertensão, diabetes, asma, HIV, tuberculose, saúde mental e uma lista extensa de doenças crônicas. Se o programa público funcionasse plenamente em cobertura e distribuição, esse número deveria ser bem menor.

Ele não é, por razões que qualquer um que já foi a uma UBS conhece: falta do medicamento na unidade, receita que venceu, marca que a pessoa "confia mais", automedicação por conta própria e o velho hábito nacional de resolver na farmácia o que deveria ser resolvido no consultório.

O consumo privado de saúde no Brasil em 2026 (IPC Maps)

• Total projetado: R$ 537,5 bilhões (+7% sobre 2025)
R$ 279,7 bi em planos de saúde e tratamentos médicos e odontológicos
R$ 257,8 bi em medicamentos e insumos
São Paulo: R$ 163,7 bi  |  Minas Gerais: R$ 62,5 bi
Rio de Janeiro: R$ 51,7 bi  |  Rio Grande do Sul: R$ 35,5 bi  |  Paraná: R$ 27,7 bi
• Cerca de 4.000 novas farmácias abertas no último ano — total de 127 mil no país
• Comparação: Orçamento federal da Saúde para 2026 = R$ 271,3 bilhões

127 mil farmácias: mais que padarias, mais que postos de saúde

O dado que fecha o raciocínio é o do varejo farmacêutico: cerca de 4.000 novas farmácias foram abertas no último ano, elevando o total para aproximadamente 127 mil unidades em todo o país.

Para dimensionar: o Brasil tem em torno de 45 mil unidades básicas de saúde. Existem, portanto, quase três farmácias para cada UBS. Em muitos bairros brasileiros, o balcão da farmácia é o serviço de saúde mais próximo, mais rápido e mais previsível — abre no domingo, não exige agendamento e sempre tem alguém disposto a "indicar alguma coisa".

Ninguém abre 4 mil lojas por ano num mercado sem demanda. Cada nova farmácia é um pequeno atestado de que existe uma necessidade de saúde sendo atendida no varejo porque não foi atendida no sistema. O crescimento do setor não é sinal de que o brasileiro está mais saudável — é sinal de que ele está resolvendo sozinho, no cartão, o que deveria ser resolvido em consulta.

O mapa do dinheiro é o mapa da desigualdade

A distribuição por estado não surpreende, mas convém olhar com atenção. São Paulo lidera com R$ 163,7 bilhões — sozinho, quase um terço de todo o gasto privado com saúde do país. Depois vêm Minas Gerais (R$ 62,5 bi), Rio de Janeiro (R$ 51,7 bi), Rio Grande do Sul (R$ 35,5 bi) e Paraná (R$ 27,7 bi).

Os cinco primeiros colocados concentram a maior parte do bolo — e todos estão no Sul e no Sudeste. Não é que o nordestino ou o amazonense adoeça menos. É que gasto privado mede capacidade de pagar, não necessidade de cuidar. Onde a renda é menor, o consumo privado de saúde cai — e a dependência do SUS, que já é a regra para cerca de sete em cada dez brasileiros, vira quase totalidade.

O resultado é um sistema de saúde de duas velocidades sobreposto ao mesmo território: uma parte do país compra diagnóstico rápido, e a outra espera na fila da mesma cidade.

O que fazer com essa informação

No plano individual, existem economias legítimas que muita gente deixa na mesa. Medicamento genérico tem a mesma substância ativa e a mesma eficácia do de referência, por uma fração do preço — e a lei permite a troca na farmácia, desde que o médico não tenha vetado por escrito. O Farmácia Popular distribui gratuitamente remédios para hipertensão, diabetes e asma, além de vender outros com desconto. Boa parte dos exames e das vacinas que se paga em laboratório privado existe, de graça, na UBS do bairro — inclusive as de adulto, que quase ninguém sabe que tem direito.

No plano coletivo, o número do IPC Maps deveria constar de todo debate sobre financiamento da saúde. Quando alguém disser que "não há dinheiro para o SUS", vale lembrar que os brasileiros já pagam R$ 537,5 bilhões por ano com saúde — só que fragmentados em mensalidade de plano, consulta avulsa e caixa de remédio, no varejo, sem poder de negociação e sem escala.

O dinheiro existe. Ele só está sendo gasto da forma mais cara possível: um cidadão de cada vez.

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