Só 5% dos bebês têm as três doses contra covid — e 25 crianças morreram em 2026
O diretor do Programa Nacional de Imunizações diz que não falta vacina: falta confiança, corroída por anos de desinformação. Enquanto isso, mais de 1,1 mil crianças foram internadas com covid grave neste ano, e frascos descongelados vencem nas geladeiras dos postos.
Se você tem um filho pequeno, provavelmente já ouviu de alguém na fila do posto, no grupo da família ou na reunião da creche alguma versão de "covid em criança é só um resfriado" ou "essa vacina ninguém sabe o que tem". Pois o Ministério da Saúde fez a conta do que essas frases custaram em 2026.
Segundo o Programa Nacional de Imunizações (PNI), apenas 5% das crianças pequenas do país estão protegidas com as três doses da vacina contra a covid-19. No mesmo ano, mais de 1,1 mil crianças menores de 14 anos foram hospitalizadas com quadros respiratórios graves causados pelo coronavírus, e 25 morreram. Quinze delas tinham menos de 2 anos, justamente a faixa que o calendário vacinal tenta proteger.
Não é falta de vacina. É falta de braço
Os números foram apresentados pelo diretor do PNI, Eder Gatti, em entrevista à Agência Brasil durante a 28ª Jornada Nacional da Sociedade Brasileira de Imunizações, no Rio de Janeiro. E ele foi direto: o país tem estoque e contratos para manter o abastecimento. O gargalo está do lado de fora do posto.
"Tem que pôr na conta de quem de fato deve", disse Gatti. "A gente compra as vacinas, distribui e cumpre nossa obrigação constitucional, só que há o desincentivo da população para se vacinar. Inclusive, qualquer vacina de covid que é perdida hoje, a culpa é do discurso antivacina."
A perda tem um motivo técnico que agrava o problema. A vacina infantil é armazenada congelada e, depois de descongelada, tem validade de dez semanas. Se ninguém aparece para tomar nesse prazo, o frasco vai para o lixo. É como comprar pão para uma festa em que os convidados foram avisados por WhatsApp de que o pão era envenenado: a padaria entregou, a mesa está posta, e a comida estraga.
• Cobertura com as três doses entre crianças pequenas: 5% (PNI)
• Calendário: doses aos 6, 7 e 9 meses, podendo ser aplicadas até antes dos 5 anos (desde 2024)
• Em 2026: mais de 1,1 mil internações por covid grave em menores de 14 anos e 25 mortes, 15 delas abaixo de 2 anos
• 2020 a 2022: mais de 23 mil crianças de até 11 anos com síndrome respiratória grave por covid e 1.067 mortes
• Síndrome inflamatória multissistêmica (2020 a 2023): 2.115 casos e 142 óbitos
• Redução de casos graves com a vacina em crianças: 97% (estudo da USP em 24 cidades)
• Mais de 6 milhões de doses aplicadas em crianças na pandemia: nenhum óbito pela vacina e 92% das reações notificadas leves
(Fontes: Ministério da Saúde/PNI, Agência Brasil, USP, IBGE)
Como se chegou a 5%
A vacinação de crianças contra a covid começou no Brasil em janeiro de 2022, quase um mês depois da autorização da Anvisa, e no meio de uma briga pública entre entidades médicas e o próprio governo federal. O Ministério da Saúde de então chegou a propor que a vacina infantil só fosse aplicada com receita médica. O presidente da época declarou que não vacinaria a filha de 11 anos, alegando um "suposto baixo índice de mortes infantis".
Baixo comparado a quê? Entre 2020 e 2022, 1.067 crianças de até 11 anos morreram de covid no Brasil. Dá cerca de 30 por mês: uma turma inteira de escola, todo mês, durante três anos.
A dúvida plantada naquela época criou raiz. Uma pesquisa do IBGE de 2023 mostrou que, mesmo durante a emergência sanitária, 15% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos não foram vacinados. Entre os responsáveis, quase 40% alegaram medo de reação adversa ou da injeção, 22% acharam que a vacina não era necessária e 18% disseram não confiar no imunizante. Três anos depois, com a covid fora das manchetes, a dúvida virou esquecimento, e o esquecimento virou 5%.
"A vacina mais estudada de todas"
O medo de reação é compreensível. Só não se sustenta nos dados. Das mais de 6 milhões de doses aplicadas em crianças durante a pandemia, não houve registro de morte causada pela vacina, e 92% das reações notificadas foram as esperadas: febre e dor no braço. Miocardite e trombose, as palavras que mais circulam nos grupos de WhatsApp, aparecem em proporção muito maior em quem pega covid do que em quem se vacina.
Gatti usou uma comparação que vale guardar: a vacina tríplice viral, dos anos 1980, tem uns 5 mil trabalhos científicos publicados. A da febre amarela, da década de 1930, mais ou menos o mesmo. A da covid já passa de 20 mil. "A gente pode dizer que essa é a vacina mais estudada de todas", disse. O argumento de que "ninguém sabe o que tem nessa vacina" envelheceu pior do que leite fora da geladeira.
E o sistema de vigilância funciona, a ponto de ter suspendido uso quando foi preciso, como aconteceu com uma vacina de dengue. Quem desconfia de tudo deveria notar que é justamente o monitoramento que permite confiar no resto.
O resto do calendário melhorou — e isso diz muito
Aqui está o contraste mais revelador. Em 2022, 12 das 16 vacinas do primeiro ano de vida estavam com cobertura abaixo de 80%, e só uma batia a meta de 90%. No ano passado, sete imunizantes superaram os 90%. O orçamento do PNI quase dobrou, de cerca de R$ 5 bilhões para quase R$ 10 bilhões previstos para o próximo ano. A vacina contra o vírus sincicial respiratório para gestantes, mais o anticorpo para prematuros, já derrubou em mais de 50% os casos de bronquiolite em bebês com menos de seis meses.
Ou seja: os mesmos pais, nos mesmos postos, voltaram a vacinar os filhos contra quase tudo. Menos contra a covid. Não é um problema de acesso, de logística ou de verba. É um problema específico de uma vacina que virou bandeira política. E vírus não vota.
A cobertura ainda patina em outras frentes: a segunda dose da tríplice viral, contra o sarampo, segue entre 80% e 90%, num momento em que surtos se espalham pelas Américas. A lição da covid infantil serve de aviso para o resto do calendário.
O que fazer com o seu filho
Se seu filho tem entre 6 meses e 5 anos e não completou as três doses, leve a caderneta a uma unidade básica de saúde. A vacina é gratuita, não exige receita médica, e as doses atrasadas podem ser colocadas em dia. Se a criança tem doença crônica, nasceu prematura ou tem imunidade comprometida, o motivo para correr é ainda maior.
Se a dúvida é sobre segurança, leve a pergunta ao pediatra ou à equipe de vacinação, não ao grupo da família. Eles têm a resposta e, de quebra, a vacina na geladeira.
Vinte e cinco crianças morreram de covid no Brasil em 2026, com vacina disponível, gratuita e parada no posto. Nenhuma estatística de cobertura explica isso melhor do que a frase do próprio diretor do programa: o problema não é a vacina que falta. É a que sobra.
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