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A vacina do HPV já aparece na conta do SUS — lesão pré-câncer em adolescente caiu 78%

A vacina do HPV já aparece na conta do SUS — lesão pré-câncer em adolescente caiu 78%

Estudo publicado na revista Human Vaccines & Immunotherapeutics contou as primeiras consultas por lesões de alto grau no colo do útero em meninas de 15 a 19 anos atendidas pelo SUS: foram 603 em 2015 e 136 em 2023. Na mesma faixa, as consultas por outras infecções sexualmente transmissíveis subiram seis vezes. A análise é de pesquisadores da MSD, fabricante da vacina, e o resultado combina com o que outros países já viram.

SaúdeCidade ·

Em 2014, quando o SUS começou a vacinar meninas contra o HPV nas escolas, a campanha virou caso de polícia em algumas cidades. Em Bertioga, no litoral paulista, um grupo de meninas passou mal depois da dose, o episódio (mais tarde atribuído a reação psicogênica, não à vacina) correu o país, e as correntes de WhatsApp fizeram o resto: paralisia, esterilidade, "vacina que estimula a sexualidade". Doze anos depois, as meninas daquela primeira leva estão chegando aos 25. E dá para fazer a pergunta que importa: funcionou?

Um estudo publicado na revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics e divulgado nesta segunda-feira (19) responde com dados do próprio SUS: as primeiras consultas por lesões pré-cancerígenas de alto grau no colo do útero em adolescentes de 15 a 19 anos caíram quase 78% desde o início da vacinação.

O que o estudo contou

Os pesquisadores foram ao Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA/SUS) e contaram as primeiras consultas com os códigos de neoplasia intraepitelial cervical de alto grau, a NIC 2 e a NIC 3, acompanhadas de pelo menos um procedimento ligado à lesão, como biópsia ou cirurgia. Traduzindo do burocratês: não é exame alterado de rotina, é a menina que precisou de tratamento.

Em 2011 foram 474 adolescentes. O número subiu até 603 em 2015, quando as vacinadas ainda não tinham chegado aos 15 anos. Depois, despencou: 299 em 2019 e 136 em 2023. A taxa, que corrige o tamanho da população, foi de 7,1 para 1,8 por 100 mil adolescentes. Nenhuma outra faixa etária teve queda parecida. E a única faixa que caiu é justamente a das meninas que receberam a vacina aos 9, 11 ou 13 anos.

A vacina do HPV no SIA/SUS, em números
• Primeiras consultas por NIC de alto grau, 15 a 19 anos: 474 (2011), 603 (2015), 299 (2019), 136 (2023)
• Queda de 2015 a 2023: 77% nos casos e 75% na taxa (7,1 → 1,8 por 100 mil)
• Consultas por outras ISTs na mesma faixa: 1,7 → 10,8 por 100 mil (2015–2023)
• Consultas registradas de 2011 a 2019: 2.620; esperadas sem vacina: 7.688
• Vacina no SUS: meninas desde 2014, meninos desde 2017; rotina dos 9 aos 14 anos
• Câncer de colo do útero: cerca de 19 mil casos e 7 mil mortes por ano no Brasil
(Fontes: Human Vaccines & Immunotherapeutics, SIA/SUS, Ministério da Saúde, Agência Brasil)

Como saber que foi a vacina, e não outra coisa

É a pergunta certa a fazer, porque dado de consulta engana. Se as adolescentes tivessem simplesmente parado de ir ao ginecologista, as consultas por lesão também cairiam, sem a vacina ter feito nada. Há outra armadilha: desde as diretrizes do INCA de 2016, o papanicolau é recomendado a partir dos 25 anos, e menos exame em menina de 17 significa menos lesão achada.

Os autores usaram um controle esperto. Contaram, na mesma faixa e no mesmo sistema, as primeiras consultas por outras infecções sexualmente transmissíveis. Se o problema fosse menos ida ao médico, elas cairiam também. Subiram: de 1,7 para 10,8 por 100 mil, mais de seis vezes. As adolescentes continuam usando o serviço, e continuam se expondo. O que sumiu foi a lesão causada justamente pelo vírus da vacina.

Há uma ressalva que o leitor merece saber: a análise foi feita por pesquisadores da MSD, a farmacêutica que fabrica a vacina quadrivalente usada no SUS, produzida no Brasil em parceria com o Butantan. Isso não invalida os números, que vêm de um banco público e podem ser refeitos por qualquer um, mas pede leitura atenta. E aqui a leitura atenta ajuda o estudo: na Escócia, na Suécia e na Inglaterra, pesquisas independentes, feitas com os registros nacionais de câncer, mostraram quedas de cerca de 90% no próprio câncer de colo do útero entre as mulheres vacinadas antes dos 17 anos. O Brasil está repetindo um filme que já tem final conhecido.

O que os 78% não dizem

Os 78% medem consultas, não vidas. O câncer de colo do útero leva de 10 a 20 anos para se formar a partir da infecção, e as meninas de 2014 só agora entram na idade de rastreamento. A queda do câncer propriamente dito vai aparecer na próxima década, se a cobertura sustentar.

E a cobertura é o calcanhar de aquiles. Depois do pânico de 2014, a adesão despencou e o esquema de duas doses ficou longe da meta de 80% por anos. O Ministério da Saúde adotou a dose única em 2024, abriu um resgate para quem tem até 19 anos e o prorrogou até o fim de 2026, porque havia cerca de 7 milhões de jovens de 15 a 19 anos sem vacina. É esse grupo que vai decidir se os 78% viram regra ou viram exceção de uma geração que deu sorte.

O estudo ainda estima que, sem a vacina, o SUS teria registrado 7.688 primeiras consultas de 2011 a 2019, e não 2.620. São cerca de 5 mil adolescentes que não precisaram de biópsia, cauterização ou conização, a cirurgia que retira um cone do colo do útero e que aumenta o risco de parto prematuro mais tarde. Prevenção que se mede também em gravidez que chega ao fim.

O que fazer

Se você tem filho ou filha de 9 a 14 anos, é uma dose, na UBS, de graça. Menino também: o HPV causa câncer de pênis, ânus e orofaringe, e menino vacinado protege a parceira.

Se tem entre 15 e 19 anos e não tomou, o resgate vai até 31 de dezembro de 2026. Leve a caderneta, ou só o documento.

Se você foi vacinada, não abandone o preventivo. A vacina cobre os tipos responsáveis pela maior parte dos cânceres, não todos. A partir dos 25 anos, o rastreamento continua, e o SUS está trocando o papanicolau pelo teste de DNA-HPV, mais sensível.

Algumas pessoas têm direito fora da faixa: quem vive com HIV, transplantados, pacientes em quimioterapia, vítimas de violência sexual e usuários de PrEP. Pergunte na UBS.

Em 2014, a vacina do HPV foi tratada como ameaça às meninas. Doze anos depois, ela aparece nos registros do SUS do único jeito que interessa: menos adolescentes sentadas numa sala de colposcopia esperando o resultado de uma biópsia. O boato fez barulho por uma semana. A vacina trabalha calada há doze anos.

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