UTI vazia, paciente grave na maca há mais de um mês: o Denasus abriu auditoria em Ananindeua
Os auditores do Ministério da Saúde entraram no Pronto Socorro Municipal e na UPA Icuí Daniel Berg no dia 5 de agosto. Encontraram leitos de terapia intensiva ociosos enquanto doentes graves esperavam vaga há mais de trinta dias numa maca — e faltava sabonete. A auditoria tem três frentes, e a mais séria é a que investiga se o dinheiro federal foi pago por uma capacidade que existia só no papel.
Imagine a cena, porque ela é mais simples do que qualquer explicação técnica: um corredor de pronto atendimento, uma maca, uma pessoa em estado grave deitada nela há mais de um mês. E, no mesmo prédio, uma unidade de terapia intensiva com leito vazio, monitor desligado, cama arrumada.
Não é uma metáfora sobre o SUS. É o que o Departamento Nacional de Auditoria do SUS, o Denasus, registrou em Ananindeua, região metropolitana de Belém, no Pará. A inspeção foi em 5 de agosto. O Ministério da Saúde divulgou o resultado nesta quinta-feira, 3 de setembro, junto com o anúncio de que abriu uma auditoria formal — de caráter de conformidade, operacional e financeiro — para ir mais fundo.
As unidades vistoriadas foram o Hospital Municipal de Ananindeua e a Unidade de Pronto Atendimento 24h Icuí Daniel Berg. Os auditores foram verificar infraestrutura, biossegurança, controle de infecção, fluxo de pacientes e regulação de casos críticos. Encontraram problema em todos os itens da lista.
O que os auditores viram
O achado que dá título ao relatório é o dos leitos de UTI ociosos — unidades operacionais, mas vazias, enquanto pacientes graves aguardavam internação por mais de um mês em macas do pronto atendimento. Existe uma tentação de ler isso como negligência de alguém específico, e provavelmente não é. É pior: é falha de regulação, o mecanismo que decide quem entra em qual leito. Quando a regulação não funciona, o leito e o paciente ficam a vinte metros um do outro sem se encontrar, cada um esperando uma autorização que ninguém emitiu.
A segunda constatação é de outra ordem de grandeza — e por isso incomoda mais. Faltava sabonete e álcool 70%. Não faltava equipamento de alta complexidade, não faltava insumo importado com câmbio em alta. Faltava sabonete. Num pronto-socorro. Onde entra gente com ferimento aberto e sai gente com infecção hospitalar. Lavar as mãos é a intervenção mais barata e mais eficaz de controle de infecção que a medicina conhece desde o século XIX, e ela depende de um item que custa menos que o estacionamento de quem foi visitar o paciente.
O relatório aponta ainda estrutura física insuficiente no pronto-socorro e deficiências no fluxo de atendimento e na regulação dos pacientes críticos. As conclusões foram encaminhadas à Secretaria Municipal de Saúde em 31 de agosto, com pedido de providências imediatas. O comunicado do ministério não traz resposta da secretaria.
• 5 de agosto de 2026 — inspeção do Denasus no Hospital Municipal de Ananindeua e na UPA 24h Icuí Daniel Berg
• Achados: leitos de UTI ociosos com pacientes graves esperando vaga há mais de um mês em macas; falta de sabonete e álcool 70%; estrutura física insuficiente; falhas de fluxo e de regulação
• 31 de agosto — conclusões enviadas à Secretaria Municipal de Saúde
• 3 de setembro — Ministério da Saúde anuncia auditoria de conformidade, operacional e financeira, em três frentes
• Frente 1: uso dos recursos federais repassados diante da ociosidade constatada
• Frente 2: governança da regulação municipal de leitos
• Frente 3: responsabilidade pelas divergências entre o CNES e o que foi encontrado in loco
• Antecedente: em março de 2025, o vereador Flávio Nobre (MDB) denunciou o Pronto Socorro Municipal como "fantasma" — 75 leitos, sendo 10 de UTI, e apenas 4 pacientes internados em 26/03/2025, contra uma capacidade anunciada de 2.250 internações mensais
(Fontes: Ministério da Saúde/Denasus; Diário Online e Diário do Pará, março de 2025)
A denúncia já tinha um ano e meio
Aqui a história deixa de ser um flagrante e passa a ser um padrão. Em março de 2025 — dezessete meses antes de os auditores federais entrarem no prédio —, o vereador Flávio Nobre (MDB) denunciou publicamente aquilo que a imprensa paraense apelidou de "pronto-socorro fantasma".
Os números que ele apresentou, segundo o noticiário local da época, eram estes: a unidade tinha sido inaugurada em julho de 2024 com 75 leitos, dez deles de UTI, e uma capacidade anunciada pela prefeitura de 2.250 internações por mês. Em 26 de março de 2025, havia quatro pacientes internados. A média era de 79 internações mensais — menos de três por dia. "Estou abismado com a falta de respeito ao dinheiro público. Porque são mais de R$ 20 milhões investidos somente na aquisição e reforma desse prédio, fora os equipamentos", disse o vereador. As reportagens da época não registraram manifestação da prefeitura.
Ananindeua tem cerca de 500 mil habitantes e fica colada em Belém. Não é um distrito remoto onde o hospital ficou grande demais para a demanda — é uma cidade de porte médio-grande na região metropolitana da capital, com fila para tudo.
Ou seja: a denúncia estava pública, com nome, número e data, desde março de 2025. O que aconteceu entre aquele março e este agosto foi, aparentemente, nada. É a parte do caso que ninguém vai auditar, mas que talvez seja a mais importante: o intervalo entre a informação existir e alguém agir sobre ela.
A terceira frente é a que dói
Das três linhas da auditoria, duas são as que você espera — para onde foi o dinheiro federal e quem manda na regulação de leitos. A terceira é a que tem dente.
O Denasus vai apurar a responsabilidade por divergências entre o que está declarado no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde e o que foi encontrado in loco. O CNES é o cadastro em que cada município informa ao governo federal quantos leitos tem, de que tipo, com quais equipamentos e quantos profissionais. Parece burocracia de planilha. Não é: é a régua com que o dinheiro é distribuído. O repasse federal segue, em boa medida, a capacidade declarada.
Traduzindo do burocratês: se um município declara leitos de UTI que na prática não estão recebendo pacientes, ele pode estar sendo remunerado por uma capacidade que existe como registro e não como cuidado. E o cidadão que está na maca do corredor não é apenas vítima de desorganização — ele é a prova física de que o número informado e a realidade não batem.
É por isso que o Denasus classificou a auditoria como financeira, e não apenas operacional. Auditoria operacional aponta que o serviço funciona mal. Auditoria financeira pergunta quem pagou por ele e o que recebeu em troca.
Por que isso importa mesmo se você mora longe do Pará
Porque o mecanismo é nacional. Todo município brasileiro alimenta o CNES. Todo município brasileiro opera — ou deveria operar — uma central de regulação de leitos. E a queixa que você já ouviu em qualquer capital do país, a de que "não tem vaga na UTI", nem sempre significa que não existe leito: às vezes significa que existe leito e não existe quem o coloque em uso, por falta de equipe contratada, de escala, de contrato com fornecedor ou de alguém autorizado a apertar o botão.
O Denasus é justamente o órgão criado para checar isso, e o fato de ele ter ido a campo, fotografado o problema e aberto processo é a parte funcional desta notícia. O SUS tem um sistema de auditoria de verdade — que, quando usado, encontra coisas. O que costuma faltar não é o auditor. É a frequência e a consequência.
O que fazer se a cena é a sua
Se você ou alguém da sua família está numa maca de pronto-socorro esperando vaga, existem duas coisas concretas a fazer, e nenhuma delas é discutir com o funcionário do balcão — que quase sempre está tão sem poder quanto você.
Primeiro: peça, por escrito, o registro da solicitação de vaga na central de regulação, com data e hora. Esse documento é o que transforma "estamos tentando" em processo verificável, e é ele que serve depois para ouvidoria, Defensoria Pública ou Ministério Público.
Segundo: registre na Ouvidoria-Geral do SUS. O canal é o Disque Saúde 136, gratuito, funcionando 24 horas, com atendente humano de segunda a sexta das 8h às 20h e aos sábados das 8h às 18h. A ouvidoria aceita denúncia anônima — mas, se você se identificar, recebe retorno sobre o encaminhamento. Denúncia registrada é o insumo que alimenta o trabalho do Denasus. Foi assim, aliás, que o padrão de Ananindeua ficou visível.
O SUS brasileiro é um dos poucos sistemas universais de saúde do planeta e atende gente demais com dinheiro de menos. Isso é verdade e não é desculpa. Porque o que os auditores encontraram em Ananindeua não custa dinheiro para consertar: um leito de UTI vazio a vinte metros de um paciente grave não é falta de orçamento. É falta de alguém fazendo o próprio trabalho — e um vidro de álcool 70% custa menos que a papelada da auditoria que veio depois.
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