Ter diabetes no Nordeste é mais perigoso que ter diabetes no Sul — e o número prova
Um levantamento da Sociedade Brasileira de Diabetes mostra que a mortalidade prematura de diabéticos nordestinos é 68% maior que a dos sulistas. Em algumas amputações, o crescimento em uma década passou de 170%. O SUS é universal no papel — no mapa, nem tanto.
Diabetes é diabetes em qualquer lugar do Brasil — o corpo não sabe em que estado nasceu. Mas o risco de morrer por causa dela, ou de perder um pé, muda dependendo do CEP. É o que mostra um levantamento inédito da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD): apesar de o país ter um sistema de saúde constitucionalmente universal, a chance de um diabético sobreviver bem depende de onde ele mora.
Os números não deixam muita margem para dúvida. A taxa de mortalidade prematura por diabetes — mortes entre 30 e 69 anos, a faixa em que, em teoria, ninguém deveria estar morrendo pela doença se o tratamento funcionasse — é de 34,4 por 100 mil habitantes no Nordeste. No Sul, cai para 20,4. Uma diferença de 68%, o tipo de número que separa "doença controlada" de "sentença arrastada".
O corpo que se desmonta aos pedaços
A amputação é a complicação mais visível — e mais evitável — do diabetes mal cuidado. Acontece quando feridas nos pés, comuns em quem tem a doença por perder sensibilidade e circulação nas extremidades, não são tratadas a tempo e evoluem para infecção grave. Com acompanhamento regular, a esmagadora maioria dessas amputações nunca precisaria acontecer.
É aí que os dados regionais assustam mais. O Sudeste concentra 42% de todas as amputações relacionadas a diabetes no país — número puxado pelo volume populacional, mas o crescimento no interior conta outra história. Entre 2012 e 2021, Alagoas viu as amputações crescerem 173%. Roraima, 160%. Ceará, 146%. Não é epidemia nova de diabetes — é a mesma doença batendo com força diferente onde o cuidado chega tarde ou não chega.
• Mortalidade prematura (30-69 anos) no Nordeste: 34,4 por 100 mil hab.
• Mortalidade prematura no Sul: 20,4 por 100 mil hab. — 68% menor
• Sudeste concentra 42% das amputações por diabetes no país
• Crescimento de amputações (2012-2021): Alagoas +173%, Roraima +160%, Ceará +146%
Fonte: Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Por que a distância mata mais que o açúcar no sangue
"A desigualdade é marcante, de acordo com os números encontrados", resume Bianca Pitotto, coordenadora do Departamento de Saúde Pública da SBD. O diagnóstico da entidade aponta para os mesmos vilões de sempre fora dos grandes centros urbanos: longas distâncias até unidades de referência em endocrinologia, escassez de especialistas e diagnóstico tardio — quando a doença já avançou o suficiente para deixar sequelas.
Diabetes não é como uma fratura, que dói e leva direto ao pronto-socorro. É silenciosa por anos. Sem exame de rotina, sem posto de saúde por perto, sem endocrinologista disponível na cidade, ela avança discretamente até aparecer como pé diabético infeccionado, insuficiência renal ou AVC — já tarde demais para o tratamento simples e barato que teria evitado tudo isso.
Universal no papel, desigual na prática
O SUS garante, por lei, o mesmo direito de acesso a qualquer brasileiro, em qualquer município. Na prática, um sistema universal não significa um sistema homogêneo: a distribuição de médicos especialistas, laboratórios e centros de referência historicamente segue a lógica da renda e da densidade populacional, não da necessidade. É a mesma engrenagem que já produziu desigualdades documentadas em leitos de UTI, em rastreamento de câncer, em tempo de espera por cirurgia — agora com números específicos para o diabetes.
João Salles, presidente da SBD, resume o objetivo por trás do levantamento: "Queremos que todos tenham acesso tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento". Não é retórica vazia — é o oposto do que os números atuais mostram.
O que precisa mudar
A solução técnica para diabetes já existe e é relativamente barata: exame de glicemia de rotina, acompanhamento com equipe de atenção básica, orientação sobre cuidados com os pés, e encaminhamento rápido para especialista quando necessário. O problema nunca foi a ciência — é a logística de fazer essa ciência chegar a quem mora a 200 km do endocrinologista mais próximo.
Enquanto isso não muda, o mapa do Brasil continua tendo duas versões para quem tem diabetes: uma em que a doença é gerenciável, e outra em que ela cobra o preço de um pé, de uma vista ou de uma década de vida. E nenhuma das duas está escrita na Constituição — está na distância até o posto de saúde mais próximo.
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