SP confirma 5 mortes por febre amarela em 2026 — e nenhuma das vítimas estava vacinada

SP confirma 5 mortes por febre amarela em 2026 — e nenhuma das vítimas estava vacinada

Mais dois homens acima dos 50 anos morreram em Lagoinha, no Vale do Paraíba. O estado já contabiliza nove casos e cinco óbitos no ano. Em todos, o padrão se repete: ninguém havia tomado a vacina, que é gratuita e está em qualquer UBS.

SaúdeCidade ·

Você provavelmente já tomou. Ou pelo menos pensou em tomar antes de uma viagem para o Pantanal, para Foz do Iguaçu, para uma fazenda em Goiás. A vacina contra febre amarela é uma das mais antigas e eficazes do mundo — uma única dose protege por toda a vida, é gratuita no SUS e está disponível em qualquer UBS. Mesmo assim, na semana passada, mais dois homens morreram em São Paulo de uma doença que poderia ter sido evitada com 0,5 ml de imunizante aplicado dez dias antes da exposição.

A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo confirmou nesta quarta-feira (14) duas novas mortes por febre amarela na cidade de Lagoinha, no Vale do Paraíba. As vítimas eram homens de 64 e 54 anos. Com isso, o estado fecha 2026 — até agora — com nove casos confirmados e cinco óbitos. O detalhe que aparece em todos os boletins, com a constância de uma frase carimbada, é este: nenhuma das pessoas que morreu havia se vacinado contra a doença.

Por que a febre amarela mata tão rápido

A febre amarela tem duas fases. A primeira parece uma virose qualquer — febre, dor no corpo, dor de cabeça, calafrio. Em três a quatro dias, a maioria dos infectados melhora. Cerca de 15%, porém, entram na segunda fase: a doença reaparece com mais força, atinge o fígado (daí o nome amarela, pela icterícia), causa hemorragia, falência renal e, em metade dos casos graves, morte. Não há tratamento específico. O que existe é suporte intensivo em UTI — e mesmo assim a letalidade na forma grave passa de 50%.

A vacina, em contraste, tem eficácia de praticamente 100% em quem a recebe corretamente. Foi desenvolvida em 1937 pelo médico sul-africano Max Theiler, que ganhou o Nobel por isso em 1951. Quase 90 anos depois, ainda é uma das melhores vacinas já fabricadas pela humanidade. O Brasil produz a sua, em Bio-Manguinhos (Fiocruz), em quantidade suficiente para todo o calendário do SUS. Não falta vacina. Falta ir até a UBS.

O Vale do Paraíba virou rota silenciosa do vírus

Lagoinha tem menos de cinco mil habitantes. Está cercada de mata atlântica, na região serrana do Vale do Paraíba, no caminho entre São Paulo e o sul de Minas. É exatamente o tipo de cenário em que a febre amarela silvestre circula — a transmissão acontece por mosquitos do gênero Haemagogus e Sabethes, que vivem na copa das árvores e picam macacos. Quando um humano não vacinado entra na mata, vira candidato a hospedeiro alternativo.

O sinal de que o vírus está circulando aparece antes nos macacos: epizootia, na linguagem técnica, é a morte de primatas silvestres em série. A Secretaria de Saúde monitora isso. Quando vê macacos mortos numa região, intensifica a vacinação no entorno. O problema é que, em cidades pequenas e com cobertura vacinal abaixo do recomendado, sempre haverá alguém que não foi até o posto. E nesse intervalo, o mosquito não pergunta autorização.

Quem precisa tomar — e quem precisa de reforço

A regra atual do Ministério da Saúde é simples: toda pessoa de 9 meses até 59 anos deve ter pelo menos uma dose ao longo da vida. Crianças tomam aos 9 meses e fazem reforço aos 4 anos. Quem nunca tomou e está nessa faixa pode ir à UBS sem agendamento prévio — basta levar caderneta de vacinação e documento. Acima dos 60 anos, a indicação é discutida com o médico, porque o risco de eventos adversos da vacina aumenta um pouco — mas, em regiões com surto ativo, o benefício costuma superar o risco.

Há ainda o caso particular de quem recebeu, em 2018, a chamada dose fracionada — um quinto da dose normal, aplicada em campanhas de emergência para esticar o estoque vacinal durante o surto que matou centenas no Sudeste. Naquele momento, a OMS validou a estratégia como medida de proteção temporária. Hoje, recomenda-se que essas pessoas verifiquem na caderneta e, se for o caso, tomem uma dose padrão para garantir proteção ao longo da vida.

Febre amarela em São Paulo, 2026:

9 casos confirmados no estado
5 óbitos — letalidade de mais de 55% nos casos graves
0 vacinados entre as vítimas
• Região mais atingida: Vale do Paraíba (Lagoinha)
• Vacina: gratuita no SUS, em qualquer UBS
• Esquema: dose única (9 meses a 59 anos), com reforço aos 4 anos
• Tempo de proteção após aplicação: 10 dias

O ponto que falta a campanha publicitária

Há uma desconexão entre o que a saúde pública sabe e o que o cidadão lembra. Quem mora em capital e nunca entrou numa mata acredita que febre amarela é problema de quem viaja para o Norte. Não é. O vírus está circulando agora a duas horas de carro de São Paulo. O homem de 64 anos que morreu em Lagoinha provavelmente não acordou pensando em febre amarela. Pegou uma virose, achou que ia passar. Quando entendeu o que era, já estava em UTI, com o fígado parando.

A campanha de vacinação contra febre amarela compete com dezenas de outras pautas — covid, gripe, dengue, sarampo, HPV. Cada uma com seu calendário, seu público, seu posto. O brasileiro médio, que vai à UBS uma vez por ano para renovar receita ou tirar pressão, raramente sai de lá com a caderneta atualizada. E o vírus, do outro lado, não precisa de campanha. Precisa só de mosquito, mata e gente sem proteção. Esses três ele encontra em qualquer fim de semana de feriado prolongado. A vacina está esperando há 89 anos. O Vale do Paraíba acaba de relembrar — pela quinta vez no ano — o custo de não tomá-la.

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