84% dos ginecologistas são o primeiro contato de vítimas de violência — e poucos estão preparados
Pesquisa da Febrasgo revela que 70% dos ginecologistas atendem vítimas de violência regularmente, mas a maioria não teve formação adequada para identificar sinais e oferecer acolhimento
O consultório do ginecologista é, para milhões de mulheres brasileiras, o único espaço de saúde onde elas se sentem minimamente seguras para falar. É o lugar onde tiram a roupa, onde expõem partes do corpo que não mostram a ninguém, onde — às vezes pela primeira vez — alguém pergunta "está tudo bem?" e realmente espera a resposta. Não é surpresa, portanto, que o ginecologista seja frequentemente a primeira pessoa a quem uma mulher vítima de violência revela o que está acontecendo.
Uma pesquisa da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), divulgada pelo dr. Drauzio Varella, entrevistou 2.800 ginecologistas em todo o Brasil. Os números são ao mesmo tempo previsíveis e perturbadores: 84% acreditam ser o primeiro profissional de saúde a ter contato com mulheres em situação de violência. 70% atendem pacientes vítimas de violência pelo menos uma vez por mês. E apenas 35% dizem ter recebido treinamento adequado para lidar com essas situações.
O que os consultórios veem
Violência contra mulher não é só olho roxo. Na verdade, as marcas físicas evidentes são minoria. O que o ginecologista vê com mais frequência são sinais indiretos — que exigem sensibilidade para interpretar:
- Lesões genitais recorrentes sem explicação clara
- ISTs de repetição (parceiro se recusa a usar preservativo)
- Gravidezes não planejadas em série (sabotagem contraceptiva)
- Dor pélvica crônica sem causa orgânica identificável
- Marcas no corpo que a paciente atribui a "quedas" ou "acidentes"
- Acompanhante controlador que não deixa a paciente falar sozinha
- Medo desproporcional durante exame físico (pode indicar trauma sexual)
A pesquisa revelou que 62% dos ginecologistas já identificaram violência sexual em pacientes que não haviam relatado espontaneamente. Muitas vezes, a revelação acontece indiretamente — um comentário durante o exame, uma reação de medo, um choro inesperado.
A lacuna na formação
Das 340 faculdades de medicina no Brasil, menos de 20% incluem conteúdo estruturado sobre violência de gênero na grade curricular. A maioria dos ginecologistas aprende a lidar com o tema "na prática" — ou seja, improvisa quando se depara com uma situação para a qual não foi preparado.
O resultado é uma cadeia de falhas: o médico não pergunta porque não sabe como perguntar. Quando a paciente fala, ele não sabe o que fazer além de "denuncie". E "denuncie" — embora necessário — é simplista para uma mulher que pode ter filhos com o agressor, depender financeiramente dele e temer por sua vida se fizer uma denúncia.
O que deveria acontecer
A Febrasgo publicou, junto com a pesquisa, um protocolo de atendimento que inclui:
- Triagem universal: perguntar sobre violência em TODA consulta ginecológica, não apenas quando há sinais evidentes. Perguntas como "Você se sente segura em casa?" ou "Alguém já te machucou fisicamente ou te forçou a ter relação sexual?" devem ser rotina
- Atendimento individual: a consulta ginecológica deve ser feita SEM acompanhante por pelo menos parte do tempo — mesmo que o acompanhante insista em ficar
- Documentação: registrar lesões no prontuário com descrição detalhada e, se possível, fotografias (com consentimento). Esse registro pode ser usado como prova se a paciente decidir denunciar
- Encaminhamento: não é papel do médico resolver a situação sozinho. É papel do médico identificar, acolher e encaminhar para a rede de proteção (CRAS, CREAS, Delegacia da Mulher, Centro de Referência)
Onde buscar ajuda
Canais de denúncia e apoio:
- Central de Atendimento à Mulher: 180 (24h, gratuito, sigilo garantido)
- Polícia: 190 (emergência)
- Delegacia da Mulher: presencial, em todas as capitais e na maioria das cidades com >100 mil habitantes
- CREAS: Centro de Referência Especializado de Assistência Social — atendimento psicossocial gratuito
- Casa da Mulher Brasileira: unidades integradas com delegacia, Ministério Público, Defensoria e abrigo em 10 capitais
O consultório ginecológico não é delegacia, não é tribunal e não é abrigo. Mas para 84% dos ginecologistas, é o lugar onde a violência aparece primeiro. E se a medicina quer ser parte da solução — e não parte do silêncio —, precisa treinar seus profissionais para o que encontram todos os dias nos consultórios. Não é conteúdo de especialização. É conteúdo de graduação. É o mínimo.
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