Goiás decreta emergência — e 42% dos casos graves de vírus respiratório são bebês

Goiás decreta emergência — e 42% dos casos graves de vírus respiratório são bebês

Estado registra 2.671 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, com 1.139 em crianças até dois anos. Fiocruz confirma que a alta de internações por VSR já atinge quatro das cinco regiões do Brasil.

SaúdeCidade ·

Se você tem um filho de menos de dois anos e ele passou por uma noite de chiado no peito, respiração rápida e febre que não cede com paracetamol, você não está sozinho. Provavelmente não está nem pouco acompanhado: em Goiás, quatro em cada dez casos graves o suficiente para serem notificados como Síndrome Respiratória Aguda Grave são bebês dessa faixa etária.

O número saiu do decreto que o governo de Goiás assinou na quinta-feira passada, 16 de abril, oficializando a situação de emergência em saúde pública por 180 dias. Até a publicação dos últimos dados consolidados, o estado contabilizava 2.671 casos de SRAG — desses, 1.139 em crianças até dois anos e 482 em pessoas acima de 60. Ao todo, 115 mortes.

Quem está enchendo as UTIs pediátricas

O que chega às emergências não é um vírus, são três. Dos casos em que o laboratório conseguiu identificar o agente, 148 foram influenza — a gripe de sempre. Mais de 1.080 foram outros vírus, e aí a maior parte é VSR, o vírus sincicial respiratório. Para um adulto saudável, VSR é um resfriado. Para um bebê de seis meses, é a razão de estar respirando com oxigênio num leito de UTI pediátrica a 400 quilômetros de casa.

A variante K da influenza também aparece com destaque no radar epidemiológico. É a mesma que a Fiocruz vinha monitorando no início do ano no Hemisfério Norte — e que agora chegou ao Centro-Oeste brasileiro com o outono.

Os números de Goiás:

2.671 casos de SRAG notificados em 2026
42% são crianças até 2 anos (1.139 casos)
18% são pessoas acima de 60 (482 casos)
115 mortes confirmadas
148 casos causados por Influenza
1.080 casos por outros vírus — em sua maioria, VSR

Decreto de emergência: 180 dias, assinado em 16 de abril.

Não é só Goiás — é quase o Brasil inteiro

A Fiocruz já sinalizou que o aumento de SRAG em crianças menores de 2 anos foi identificado em quatro das cinco regiões do país: Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. O que explica isso é menos misterioso do que parece. O VSR tem sazonalidade bem marcada — circula com mais força nos meses frios e úmidos — e, em 2026, voltou a circular de forma intensa depois de alguns anos de padrão desregulado pela pandemia.

O problema é que a pediatria brasileira nunca foi dimensionada para o VSR na escala em que ele aparece. Um bebê com bronquiolite grave precisa de oxigênio contínuo, monitoração, por vezes ventilação. Um leito de UTI pediátrica bloqueado por cinco dias com um bebê de VSR é um leito indisponível para qualquer outra emergência infantil. E leito de UTI pediátrica, no Brasil, não é exatamente abundante.

A vacina que existe — e quase ninguém toma

Aqui vale uma informação que não circula o suficiente: desde 2024, o SUS incluiu no calendário a vacina contra VSR para gestantes. Uma dose aplicada entre a 28ª e a 36ª semana de gestação transfere anticorpos para o bebê e reduz drasticamente o risco de internação por bronquiolite nos primeiros seis meses de vida — que é exatamente o período mais perigoso.

A cobertura, no entanto, anda muito aquém do necessário. Boa parte das gestantes atendidas na atenção primária nem sabe que a vacina existe — e quando sabe, encontra um agente de saúde que também não sabe se o posto tem doses disponíveis naquele dia. Enquanto isso, a influenza e o VSR chegam juntos todo outono, como sempre chegaram, e as UTIs pediátricas enchem, como sempre enchem.

O que fazer se o seu filho tem sintomas

Criança menor de dois anos com respiração acelerada (mais de 50 incursões por minuto), retração intercostal — aquela pele que afunda entre as costelas a cada inspiração —, recusa alimentar persistente ou lábios azulados é emergência imediata, não caso de observar em casa até segunda-feira. A diferença entre uma bronquiolite tratada cedo e uma bronquiolite que vira insuficiência respiratória é, muitas vezes, de algumas horas.

Gripe, febre e tosse num bebê não são "só uma viroseizinha" quando o bebê é muito pequeno. Em Goiás, 1.139 famílias descobriram isso do jeito difícil este ano. O decreto de emergência serve para liberar dinheiro e contratação rápida — mas a conta que não fecha, no fim, é de leito. E leito a gente só consegue construir antes, nunca durante.

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