Gripe está internando mais gente — e o inverno nem começou

Gripe está internando mais gente — e o inverno nem começou

Fiocruz aponta alta de hospitalizações por Influenza A em todos os estados. O Ministério da Saúde respondeu com Dia D de vacinação e 15,7 milhões de doses. Mas a adesão histórica do brasileiro à vacina da gripe é constrangedora

SaúdeCidade ·

Março ainda não acabou e a gripe já decidiu que não vai esperar o inverno. O boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgado nesta quinta-feira, trouxe um dado que deveria fazer qualquer pessoa acima de 60 anos — ou mãe de criança pequena — levantar da cadeira e ir ao posto de saúde: as hospitalizações por Influenza A estão em alta em todos os estados brasileiros. Não em alguns. Em todos.

Ao mesmo tempo, o rinovírus está atacando crianças e adolescentes e o vírus sincicial respiratório (VSR) continua enchendo UTIs neonatais. É o combo respiratório que antecede o inverno — e que, este ano, parece ter chegado com pressa.

A resposta do governo veio no sábado: Dia D de vacinação nacional contra gripe, com 15,7 milhões de doses distribuídas. A campanha vai até 30 de maio. A vacina é gratuita. O posto de saúde está aberto. E ainda assim, se os anos anteriores servirem de referência, a maioria dos brasileiros que deveria se vacinar simplesmente não vai.

Os números que a Fiocruz mostrou

O boletim do InfoGripe analisa os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) — a gripe que não é "só uma gripe", que interna e que mata. Os dados são claros: nas últimas seis semanas, todos os estados apresentam sinal de alta no número de casos. A tendência é de crescimento acelerado.

Panorama respiratório — março de 2026:

14,3 mil casos de SRAG notificados até 14 de março
~840 óbitos registrados
28,1% das infecções graves identificadas são Influenza A
Todos os estados com sinal de alta nas últimas 6 semanas
Grupos mais afetados: crianças até 4 anos e idosos acima de 60
VSR: principal causa de SRAG em bebês e crianças pequenas
Rinovírus: crescimento entre crianças de 2 a 14 anos

A pesquisadora Tatiana Portella, do InfoGripe, não rodeou: "É essencial que as pessoas de maior risco tomem a vacina da influenza nos postos de saúde." Essencial. Não "recomendável". Não "ideal". Essencial — a palavra que cientista usa quando quer dizer "pelo amor de Deus, vá se vacinar".

840 mortes e a temporada nem começou

Oitocentas e quarenta pessoas morreram de doença respiratória grave no Brasil até meados de março. O inverno — quando a gripe realmente se espalha — começa em junho. Se este é o aquecimento, o jogo promete ser brutal.

A maior mortalidade está nos extremos etários: crianças pequenas (principalmente por VSR e rinovírus) e idosos (principalmente por Influenza A e Covid-19, que continua circulando). Os idosos morrem mais por um motivo fisiológico simples: o sistema imunológico envelhece. A resposta inflamatória que em um adulto de 30 anos resolve a gripe em uma semana, em um idoso de 75 pode desencadear pneumonia, insuficiência respiratória e sepse.

E as crianças? O VSR é particularmente cruel com bebês. Ele inflama os bronquíolos — as menores vias aéreas do pulmão — causando bronquiolite, que pode levar à insuficiência respiratória em horas. Não existe vacina amplamente disponível contra VSR no Brasil (a vacina da Pfizer, Abrysvo, foi aprovada pela Anvisa, mas ainda não está no SUS). O tratamento é suporte: oxigênio, hidratação, esperar o vírus passar. Em UTI, de preferência.

A vacina da gripe e o brasileiro

A campanha de vacinação contra gripe de 2026 segue o roteiro habitual: vacina trivalente gratuita nos postos de saúde, foco em crianças de 6 meses a 5 anos, gestantes, idosos e pessoas com comorbidades. A região Norte será vacinada no segundo semestre, respeitando a sazonalidade diferente da região.

O problema não é a vacina. É a adesão. Em 2025, a cobertura vacinal contra gripe em idosos foi de 62% — abaixo da meta de 90%. Em crianças, 48%. Em gestantes, 39%. Números que fariam qualquer epidemiologista arrancar os cabelos.

As razões são as de sempre: "gripe não mata" (mata, 840 pessoas até março), "a vacina dá gripe" (não dá, é vírus inativado), "eu nunca peguei gripe forte" (viés de sobrevivência), "vou depois" (não vai). O resultado é previsível: lotam-se UTIs com idosos com pneumonia por Influenza que poderiam estar em casa assistindo novela se tivessem ido ao posto de saúde em março.

Máscara: a ferramenta que ninguém quer usar

Tatiana Portella, da Fiocruz, fez uma recomendação que soa como eco de um passado recente: usar máscara em locais fechados com aglomeração, especialmente para grupos de risco. Isolar-se em casa quando tiver sintomas de gripe. Se não puder se isolar, sair com máscara.

A Covid-19 nos ensinou que máscaras funcionam. Também nos ensinou que a maioria das pessoas prefere se arriscar a voltar a usar uma. Não é uma questão de eficácia — é de fadiga. Três anos de pandemia esgotaram a tolerância coletiva para medidas de proteção individual. O vírus não se importa com a sua fadiga.

O que fazer (sem drama)

Se você está no grupo de risco — idoso, criança, gestante, pessoa com doença crônica —, a lista é curta e objetiva. Primeiro: vá se vacinar. A campanha está aberta, o posto de saúde mais perto da sua casa tem a dose. Segundo: se tiver sintomas respiratórios (febre, tosse, dor no corpo), fique em casa. Terceiro: se a febre não ceder em 48 horas ou se sentir falta de ar, procure atendimento. Quarto: lave as mãos. É banal, é óbvio, e continua sendo a medida mais eficaz contra transmissão respiratória depois da vacina.

O inverno vem aí. As UTIs sabem. Os pneumologistas sabem. A Fiocruz está avisando. A vacina está disponível. O que falta é o brasileiro decidir que "ir ao posto de saúde" não é algo que se faz "depois". Porque "depois", no calendário da gripe, costuma ser tarde demais.

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