A gripe voltou a subir bem na hora em que todo mundo achou que tinha passado

A gripe voltou a subir bem na hora em que todo mundo achou que tinha passado

A positividade dos testes de influenza no Brasil saltou de 22,9% para 31,4% em uma semana — o maior pico do ano. A curva já vinha desacelerando, e a virada pegou no contrapé justamente quando as campanhas de vacinação caminham para o fim.

SaúdeCidade ·

Toda gripe segue o mesmo roteiro psicológico coletivo. Ela sobe, todo mundo se assusta, os postos enchem, ela começa a cair, todo mundo relaxa — e é exatamente aí que ela dá o bote. É o que os números acabam de mostrar: depois de semanas em queda, a influenza voltou a acelerar no Brasil e cravou o maior pico de positividade do ano.

Os dados são da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), que reúne laboratórios responsáveis por mais de 85% dos exames da saúde suplementar no país, monitorados pela plataforma METRICARE. Na semana epidemiológica 20 (17 a 23 de maio), a positividade dos testes de influenza chegou a 31,4%. Na semana anterior, era 22,9%. Para dimensionar: no mesmo período de 2025, esse índice era de apenas 17%.

O que "positividade de 31,4%" quer dizer

Calma, não significa que 31% dos brasileiros estão com gripe. Positividade é a fração dos testes feitos que deram positivo. Em outras palavras: de cada dez pessoas que procuraram exame por sintoma respiratório, mais de três tinham mesmo influenza. É um termômetro de circulação do vírus — e ele está alto, subindo, e bem acima do ano passado.

O detalhe que chamou atenção dos especialistas foi a virada. Entre as semanas 13 e 19, a curva vinha caindo, sugerindo que o pior tinha passado. A semana 20 jogou essa leitura no lixo. "A retomada do crescimento e o novo pico agora quebram o ritmo de desaceleração", resumiu Carlos Eduardo Ferreira, patologista clínico e chefe do comitê técnico de análises clínicas da Abramed. Tradução: a gripe não leu o roteiro em que ela já estava indo embora.

Positividade da influenza no Brasil:

Semana 20 (17-23/mai): 31,4% — pico do ano
Semana anterior: 22,9%
Mesmo período em 2025: 17,0%
Média móvel de 5 semanas: 24,2%

Quem deve tomar a vacina com prioridade:
• Crianças de 6 meses a menores de 6 anos
• Idosos a partir de 60 anos
• Gestantes e puérperas
• Pessoas com doenças crônicas (diabetes, pulmão, coração)
• Profissionais de saúde

Fonte: Abramed / plataforma METRICARE

Por que a hora é agora (e não semana que vem)

A vacina da gripe não é instantânea. Ela leva cerca de duas semanas para o corpo construir a defesa. Isso significa que tomar a dose hoje só te protege lá pelo meio do mês. Com o vírus em alta e as campanhas de vacinação se encerrando em várias regiões, cada dia de adiamento é um dia a mais de exposição sem rede de proteção. É como comprar guarda-chuva depois que já está chovendo na sua cabeça — funciona, mas você se molhou à toa no caminho.

E não, a vacina deste ano não é a do ano passado. A composição é atualizada anualmente para acompanhar as cepas que estão circulando. Quem tomou em 2025 e acha que está coberto está com a proteção desatualizada — o equivalente a usar o antivírus do computador sem atualizar há doze meses.

A gripe que mata não é a que você imagina

O brasileiro tem o hábito de chamar qualquer resfriado de "gripe forte" e qualquer gripe de "virose". Essa banalização tem custo. A influenza de verdade pode evoluir para pneumonia, descompensar diabetes e doença cardíaca, e mata principalmente nos extremos da vida — bebês e idosos. É justamente para esses grupos, e para gestantes e pessoas com doenças crônicas, que a vacina existe como prioridade. Não é favor ao posto de saúde. É seguro de vida barato.

O que fazer com esse pico

Se você está nos grupos prioritários e ainda não se vacinou, pare de empurrar com a barriga — vá ao posto antes que a campanha feche. Se está com sintoma respiratório, evite circular: a positividade alta significa que a chance de ser influenza de verdade está maior que o normal, e você pode estar passando para alguém que não aguenta o tranco. Lave as mãos, mantenha ambientes ventilados, e procure atendimento se a febre não ceder, se faltar ar ou se a sensação for de que "essa não é uma gripe comum".

O vírus já mostrou que não respeita previsão. A curva podia estar caindo — e voltou a subir num pulo. A única parte da equação que está sob o seu controle é a agulha que você ainda não tomou.

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