Pular para o conteúdo
Quatro em cada dez tomaram remédio que não funciona contra a Covid — e quem foi ao médico tomou mais

Quatro em cada dez tomaram remédio que não funciona contra a Covid — e quem foi ao médico tomou mais

Um estudo com 9.591 brasileiros em 133 municípios mostra que 39% usaram medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença: azitromicina (27,2%), ivermectina (23,6%), cloroquina (12,1%). O dado mais incômodo não é o do negacionismo. É que o consumo foi de 70,5% entre quem procurou atendimento médico e de 46,1% entre quem ficou em casa.

SaúdeCidade ·

Já dá para olhar o kit covid como história, e não como briga. Passou tempo suficiente para alguém sentar, perguntar a 9.591 pessoas o que elas de fato tomaram e contar.

Foi o que fizeram pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas e da University of Illinois Urbana-Champaign, em pesquisa feita em 2024 e publicada em julho na Revista de Saúde Pública, da USP. A conta final: 39% dos brasileiros que tiveram Covid usaram algum medicamento sem eficácia comprovada contra a doença.

O que o país tomou. 63% usaram algum medicamento. Os mais frequentes foram antitérmico (53,7%) e antibiótico (36,2%). Entre os sem eficácia comprovada: azitromicina 27,2%, ivermectina 23,6% e cloroquina 12,1%. A amostra tem 9.591 pessoas que relataram ao menos uma infecção, ouvidas em 133 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal.

O que cada um desses remédios faz de verdade

Vale soletrar, porque a confusão sobrevive.

A azitromicina é antibiótico: age contra bactéria. Covid é vírus. Antibiótico não tem o que fazer contra vírus — a não ser que exista, junto, uma infecção bacteriana diagnosticada, o que é outra conversa e exige alguém para diagnosticar.

A ivermectina é antiparasitário: serve para verme e outros parasitas. A cloroquina é usada sobretudo na prevenção e no tratamento da malária, e em doenças autoimunes como artrite reumatoide e lúpus.

São três remédios bons naquilo para que foram feitos. Nenhum dos três foi feito para isso.

O dado que muda a conversa

Aqui está a parte que quase não circulou.

O uso de qualquer medicamento foi maior entre quem procurou serviço médico durante a doença: 70,5%, contra 46,1% entre quem não buscou atendimento.

Os próprios autores dizem o que isso sugere: parte relevante desse consumo pode ter vindo de prescrição ou orientação médica inadequada — embora o estudo não permita separar o que foi indicado por profissional do que a pessoa comprou por conta.

Ou seja: a história do kit covid não é só a de gente se automedicando com o que leu no grupo da família. É também, em alguma medida que ninguém mediu direito, a de gente que fez tudo "certo" — sentiu sintoma, procurou médico, seguiu a receita — e saiu do consultório com azitromicina.

A desconfiança na ciência aparece, mas explica só uma parte

O recorte que todo mundo espera está lá e é real. Entre quem disse desconfiar de cientistas, 20,6% tomaram cloroquina; entre quem disse confiar, 10,1%. O dobro. A combinação de cloroquina com ivermectina segue o mesmo caminho: 34% contra 26,2%.

Mas repare no tamanho dos números. Mesmo entre quem confia nos cientistas, um em cada dez tomou cloroquina. Desconfiança da ciência é um fator; não é o fator. O resto veio de prescrição, de farmácia, de vizinho e de medo.

O mapa também não é uniforme: o uso de qualquer medicamento foi maior no Norte (74,1%), Nordeste (67,6%) e Centro-Oeste (65,2%) do que no Sudeste (59,2%) e no Sul (58,7%), e cloroquina e ivermectina se concentraram sobretudo no Norte e no Centro-Oeste. Mulheres usaram mais medicamento em geral (67,4% contra 58%); cloroquina foi um pouco mais usada por homens (13,5% contra 10,7%).

Por que isso ainda importa em 2026

Porque nada disso é sobre Covid. É sobre o hábito.

Antibiótico tomado à toa não é neutro. Cada ciclo desnecessário empurra a resistência bacteriana, que é o problema silencioso que vai cobrar a conta na próxima infecção — sua ou de alguém. Trinta e seis por cento de uso de antibiótico numa doença viral é um número de saúde pública, não uma anedota da pandemia.

E o mecanismo continua ligado. Ele aparece toda vez que surge uma doença nova, um surto, um viral no WhatsApp: alguém precisa fazer alguma coisa. Tomar um comprimido é fazer alguma coisa. Esperar não parece ser.

O que fazer da próxima vez

Pergunte o alvo. Diante de qualquer receita, uma pergunta resolve quase tudo: "isso age contra o quê?". Se a resposta for bactéria e o seu problema for vírus, peça para o médico explicar por quê. Médico bom não se ofende com essa pergunta.

Desconfie da receita rápida demais. Consulta de três minutos que termina com quatro medicamentos é um sinal, não um serviço.

Guarde a caixa e o nome. Se você tomou antibiótico este ano, isso é informação clínica que o próximo médico precisa ter.

E aceite a resposta chata. Em boa parte das viroses, o tratamento é sintomático: hidratação, antitérmico se houver febre, repouso e critérios claros para voltar ao serviço de saúde se piorar. É pouco satisfatório e é o que funciona.

Trinta e nove por cento é um retrato de quanto o país estava disposto a tomar qualquer coisa para não ficar parado. O retrato é de 2024. O reflexo continua aqui.

Compartilhar: