A malária no Brasil caiu ao menor nível em 47 anos — e o motivo cabe num comprimido só

A malária no Brasil caiu ao menor nível em 47 anos — e o motivo cabe num comprimido só

Foram 118.037 casos em 2025, o menor número desde 1978, e as mortes caíram de 56 para 39. O Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporar a tafenoquina, um remédio de dose única que ataca justamente a parte da malária que ninguém via: o parasita escondido no fígado.

SaúdeCidade ·

Boa notícia em saúde pública brasileira é rara o suficiente para merecer parágrafo próprio, então aqui vai: o Brasil registrou em 2025 o menor número de casos de malária desde 1978. Foram 118.037 registros contraídos em território nacional, uma queda de 15% em relação a 2024. As mortes caíram de 56 para 39 — recuo de 30%. E os casos da forma mais grave da doença despencaram 30,7%.

"Chegamos à menor taxa de casos de malária dos últimos 47 anos na nossa história", disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nesta segunda-feira (17), depois de participar do 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, em Brasília.

Frase de ministro em congresso costuma ser fumaça. Esta, excepcionalmente, tem fogo embaixo — e o fogo se chama tafenoquina.

O problema que ninguém enxergava

Para entender por que um único medicamento mexeu tanto no ponteiro, é preciso entender uma coisa desconfortável sobre a malária brasileira: ela não é uma doença que você pega. É uma doença que você pega de novo. E de novo.

A maior parte da malária no Brasil é causada pelo Plasmodium vivax, um parasita com um truque desagradável. Depois que o mosquito injeta o parasita, uma parte dele se instala no fígado e simplesmente hiberna. Fica lá, quieta, invisível ao exame de sangue comum, indiferente ao tratamento que cura a crise aguda. Semanas ou meses depois, acorda. E a pessoa que já se considerava curada tem malária outra vez — sem ter sido picada de novo.

É como apagar o incêndio da sala e ir embora deixando a brasa acesa dentro da parede.

O tratamento clássico para essa brasa existe há décadas e se chama primaquina. Funciona. O problema não é a farmacologia, é o calendário: são 7 a 14 dias de comprimido todo dia, tomados por uma pessoa que já está se sentindo bem no terceiro dia. Em qualquer lugar do mundo, esse é o roteiro clássico do tratamento abandonado. Em uma comunidade ribeirinha a seis horas de barco do posto, com o paciente já de volta ao garimpo ou à roça, o roteiro fica ainda mais previsível.

Dose única muda tudo

A tafenoquina faz o mesmo serviço da primaquina — mata o parasita adormecido no fígado — mas em uma única dose, com ação prolongada. O paciente toma na frente do profissional de saúde e vai embora tratado. Não existe abandono possível quando não sobra tratamento para abandonar.

O Brasil incorporou o medicamento em 2023 para pessoas a partir de 16 anos e 35 quilos, e começou a ofertá-lo no SUS em 2024. Foi o primeiro país do mundo a fazer isso.

Os números da mudança são o tipo de dado que raramente aparece em nota oficial. Entre março e junho de 2026, as recaídas de malária caíram 61,9% em relação ao mesmo período de 2025. E de janeiro a julho, os casos da doença caíram 55% — de 17 mil para 7,6 mil.

A malária brasileira em números:

118.037 casos em 2025 — menor número desde 1978
-15% de casos em relação a 2024
39 mortes em 2025, contra 56 em 2024 (-30%)
-30,7% nos casos da forma grave
-61,9% nas recaídas entre março e junho de 2026
33,7 mil pessoas tratadas com tafenoquina até junho de 2026
1.446 crianças e adolescentes tratados com a formulação pediátrica
• Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporar o medicamento

Yanomami: onde o número deixa de ser número

Dos 33,7 mil tratamentos aplicados até junho de 2026, 3.920 aconteceram em Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Só no DSEI Yanomami foram 1.515 pessoas — e não foi por acaso: aquele território foi a primeira área indígena a receber o medicamento.

Quem acompanhou o noticiário de 2023 sabe o que estava acontecendo lá. A malária não era um problema de saúde entre outros; era o motor de uma catástrofe que combinava garimpo ilegal, desnutrição e um sistema de saúde indígena desmontado.

"Conseguimos felizmente interromper o verdadeiro genocídio que acontecia no povo Yanomami. Tivemos redução de mais de 50% nos casos de malária no território Yanomami e mais de 70% nos óbitos por malária", afirmou Padilha. Ele credita o resultado à combinação de ações contra a doença com a recuperação nutricional da população — e aqui vale sublinhar a palavra combinação. Comprimido nenhum funciona sozinho em quem está desnutrido.

Em terras indígenas em geral, a queda passou de 40% em 2025. Em áreas de assentamento rural na Amazônia — outra das regiões de maior incidência —, também.

Desde março, as crianças também

Até o começo deste ano, a tafenoquina só valia para quem tinha 16 anos ou mais e pesava pelo menos 35 quilos. Isso deixava de fora exatamente quem mais adoece: crianças amazônicas.

Em março de 2026, uma formulação pediátrica passou a ser ofertada para crianças a partir de 2 anos e 10 quilos. Até junho, 1.446 crianças e adolescentes já haviam sido tratados.

Vale registrar o que isso significa fora do jargão: uma criança com malária recorrente não é só uma criança que fica doente várias vezes. É uma criança anêmica, que falta à escola, que não ganha peso, que fica mais vulnerável a qualquer outra infecção que apareça. Interromper o ciclo de recaída é uma intervenção de desenvolvimento infantil disfarçada de tratamento antiparasitário.

O que não está resolvido

Antes que alguém pendure a faixa: 118 mil casos por ano continua sendo muita malária. E o recorde de 1978 é um recorde relativo — o Brasil chegou a registrar mais de meio milhão de casos anuais nas décadas seguintes, o que significa que estamos comemorando ter voltado ao patamar de antes de um desastre.

A tafenoquina também tem uma exigência que complica a logística: ela pode causar destruição de glóbulos vermelhos em pessoas com deficiência de G6PD, uma condição genética. Isso significa que a dose única depende de um teste prévio — e teste prévio, em território amazônico, é justamente o tipo de coisa que costuma faltar. A ampliação do diagnóstico citada pelo ministério não é detalhe burocrático: é a condição para o remédio existir na prática.

E há o elefante na sala do garimpo. Malária no Brasil tem endereço e tem economia. Enquanto houver dragas em rio de terra indígena, haverá gente vivendo dentro do criadouro do Anopheles — e nenhum comprimido resolve isso.

Por que essa história importa mesmo se você mora longe da Amazônia

Porque ela é um caso raro de política pública que fez a coisa difícil na ordem certa.

O Brasil não comprou uma tecnologia cara para uma doença rica. Comprou um medicamento que resolve um problema de adesão — o mais crônico e mais ignorado de todos os problemas do SUS. Todo mundo sabe que tratamento longo é abandonado. Quase ninguém desenha política pública assumindo isso como premissa em vez de reclamar do paciente.

A escolha, aqui, foi trocar catorze dias de disciplina individual por um dia de logística estatal. E, olhando para a queda de 61,9% nas recaídas, dá para dizer que o Estado é mais confiável nesse arranjo do que a força de vontade de quem já se sente curado.

Malária não se vence com heroísmo. Vence-se tirando do paciente a chance de errar.

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