A mortalidade materna voltou ao normal — e o normal brasileiro ainda mata demais
Em 2024, o Brasil registrou 56,4 mortes maternas por 100 mil nascidos vivos, recuperando o patamar de antes da Covid. Boa notícia? Em parte. O número esconde abismos regionais e uma verdade incômoda: a maioria dessas mortes era evitável.
Existe um tipo de manchete que parece comemoração e é, na verdade, um alívio envergonhado. "Mortalidade materna retorna aos níveis pré-pandemia" é uma delas. Traduzindo: paramos de morrer no ritmo da catástrofe e voltamos a morrer no ritmo de sempre. O problema é que o ritmo de sempre, no Brasil, nunca foi aceitável.
Os dados, baseados no DATASUS-SIM e organizados pelo Observatório de Saúde da Umane, mostram que em 2024 o país teve 1.347 mortes maternas, o equivalente a 56,4 óbitos por 100 mil nascidos vivos. Para entender o tamanho da queda, basta lembrar 2021, o ano mais brutal da pandemia para gestantes: a razão chegou a 114,2 por 100 mil — mais que o dobro. A Covid foi especialmente cruel com grávidas, e a recuperação para o patamar anterior é real.
O que significa "morte materna"
Morte materna não é qualquer morte de uma mulher grávida. É a morte causada por complicações da gestação, do parto ou do pós-parto — hemorragia, hipertensão grave (a tal pré-eclâmpsia), infecção, complicações de aborto. São, em sua imensa maioria, mortes que a medicina sabe evitar há décadas. Não estamos falando de doenças misteriosas. Estamos falando de mulheres morrendo de coisas que um pré-natal decente identifica e trata a tempo.
Como resume Evelyn Santos, da Umane, "a maioria das mortes maternas é evitável" — com pré-natal adequado e identificação precoce de risco. Quando uma mulher morre no parto no Brasil de 2024, raramente é porque faltou ciência. Quase sempre é porque faltou acesso, faltou consulta, faltou alguém olhando o exame na hora certa.
• 2024: 56,4 mortes por 100 mil nascidos vivos (1.347 óbitos)
• 2021 (pico da pandemia): 114,2 por 100 mil
• Meta da ONU para 2030: até 70 por 100 mil
Estados acima da meta da ONU:
• Roraima: 132,4 (o pior do país)
• Piauí: 88,2
• Goiás: 76,5
• Rio Grande do Norte: 76,5
Pré-natal (7+ consultas):
• Sul: ~86% das gestantes
• Norte: ~64% das gestantes
• 1 em cada 5 grávidas no país não faz o mínimo recomendado
O Brasil não é um país — são vários
A média nacional é uma armadilha estatística. Ela mistura realidades que não conversam. Quatro estados já estão, hoje, acima da meta que a ONU estabeleceu para o Brasil alcançar só em 2030: Roraima lidera com assustadores 132,4 mortes por 100 mil, seguido por Piauí (88,2), Goiás (76,5) e Rio Grande do Norte (76,5). Enquanto isso, estados do Sul e Sudeste operam em patamares de país desenvolvido.
O divisor de águas tem nome: pré-natal. Um estudo do Centro Internacional de Equidade em Saúde (CIES), da Universidade Federal de Pelotas, em parceria com a Umane, mostra que na região Sul cerca de 86% das gestantes fazem as sete ou mais consultas recomendadas. No Norte, esse número despenca para perto de 64%. E entre mulheres indígenas do Norte com menos de quatro anos de estudo, mais de 60% fazem menos de sete consultas. A geografia e a escolaridade decidem, na prática, quem chega viva ao puerpério.
Sete consultas não é frescura
Pode parecer burocracia — sete idas ao posto, exames, pressão medida, barriga apalpada. Mas é justamente nessas consultas que se pega a pré-eclâmpsia antes da convulsão, a diabetes gestacional antes da emergência, a infecção antes da sepse. Cada consulta é uma chance de transformar uma morte anunciada num susto que passou. Quando uma em cada cinco brasileiras não tem nem isso, o sistema está falhando antes mesmo de a complicação aparecer.
A desigualdade aqui não é abstrata. É uma mulher em Roraima que engravida e enfrenta distância, falta de médico e falta de exame, enquanto outra, em Santa Catarina, faz o pré-natal completo a dez minutos de casa. Mesma gestação, mesmo país, risco de morte radicalmente diferente.
O que fazer com essa notícia
Se você está grávida ou planeja engravidar, o recado prático é direto: faça o pré-natal completo, do começo ao fim, mesmo quando tudo parece bem. As sete consultas não são para gestação de risco — são para descobrir, a tempo, se a sua virou uma. Cobre os exames, anote a pressão, leve as queixas a sério. Inchaço súbito, dor de cabeça forte, visão embaçada no fim da gravidez não são "coisa de grávida": são sinais que pedem socorro no mesmo dia.
E, como sociedade, vale encarar o número de frente. Voltar ao patamar pré-pandemia não é vitória — é a linha de partida de onde nunca deveríamos ter saído tão atrás. O Brasil sabe como evitar essas mortes. O que falta não é conhecimento. É distribuí-lo igualmente por um mapa que insiste em tratar a vida de uma gestante do Norte como se valesse menos que a de uma do Sul.
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