Seus pés formigam? Pode não ser posição — e ignorar pode custar caro
A neuropatia periférica afeta 3% dos brasileiros e é a complicação mais comum do diabetes. O diagnóstico precoce evita danos irreversíveis, mas a maioria das pessoas demora anos para procurar ajuda.
Todo mundo já sentiu aquele formigamento no pé depois de ficar sentado de perna cruzada por tempo demais. Você levanta, o pé parece ter virado um bloco de estática de televisão antiga, você dá uns passos desajeitados que fariam qualquer observador pensar que você bebeu às 10 da manhã, e em dois minutos tudo volta ao normal. Fim da história.
Agora imagine que o formigamento não passa. Que ele está lá quando você acorda, quando caminha, quando tenta dormir. Imagine que ele vem acompanhado de dor — uma dor tipo queimação, como se alguém tivesse colocado seus pés numa torradeira em temperatura baixa. E imagine que, com o tempo, o formigamento vira dormência. Você não sente mais a temperatura da água do banho. Pisa em algo pontiagudo e não percebe. Seus dedos parecem pertencer a outra pessoa.
Isso é neuropatia periférica. E ela afeta cerca de 6 milhões de brasileiros — a maioria sem saber.
O que acontece nos seus nervos
O sistema nervoso periférico é a rede de cabos que conecta seu cérebro e medula espinhal ao resto do corpo. São nervos que levam comandos motores (mexa o dedo), trazem informações sensoriais (isso está quente) e controlam funções automáticas (mantenha meu coração batendo). Quando esses nervos são danificados, a comunicação falha — e os sintomas dependem de quais nervos foram afetados.
Nervos sensoriais danificados: formigamento, dormência, dor tipo queimação, sensação de agulhadas. Geralmente começa nos pés e mãos (as extremidades dos "cabos" mais longos). Nervos motores danificados: fraqueza muscular, câimbras, dificuldade de equilíbrio, quedas frequentes. Nervos autonômicos danificados: tontura ao levantar, problemas digestivos, suor excessivo ou insuficiente, arritmia cardíaca.
A neuropatia pode afetar um nervo só (mononeuropatia), vários nervos de forma assimétrica (mononeuropatia múltipla) ou, mais comumente, muitos nervos de forma simétrica começando pelas extremidades (polineuropatia). Esta última é a forma clássica: começa nos pés, sobe para as pernas, depois atinge as mãos — o padrão que os neurologistas chamam de "luva e meia".
A culpa é (quase sempre) do açúcar
Se a neuropatia periférica tivesse um patrocinador, seria o diabetes. Mais da metade dos casos — entre 50% e 60% — são causados por diabetes mal controlado. O excesso crônico de glicose no sangue danifica os vasos sanguíneos que alimentam os nervos, causando uma morte lenta e progressiva das fibras nervosas.
O Brasil tem 20 milhões de diabéticos diagnosticados e estima-se que outros 8 milhões tenham a doença sem saber. Entre os diagnosticados, apenas 30% mantêm a glicemia adequadamente controlada. Faça as contas: são potencialmente milhões de pessoas caminhando para uma neuropatia que poderia ser prevenida.
• Diabetes — 50-60% dos casos
• Alcoolismo crônico — 10-15%
• Deficiência de vitamina B12 — 5-10%
• Doenças autoimunes (Guillain-Barré, lúpus) — 5%
• Medicamentos (quimioterapia, alguns antibióticos) — 5%
• Causa não identificada (idiopática) — 15-20%
Mas o diabetes não está sozinho. O alcoolismo crônico é a segunda causa mais comum — o álcool é diretamente tóxico para os nervos periféricos. Deficiência de vitamina B12, frequente em vegetarianos estritos e idosos, é outra causa tratável e muitas vezes negligenciada. Quimioterapia, HIV, doenças autoimunes e até o hipotireoidismo completam a lista.
Por que as pessoas demoram para buscar ajuda
A neuropatia periférica é a rainha da negação. Os sintomas iniciais são tão brandos e tão parecidos com coisas "normais" que a maioria das pessoas inventa explicações perfeitamente razoáveis: "é porque eu fico muito tempo em pé", "é o sapato apertado", "é estresse", "é frio".
Um estudo brasileiro publicado no Brazilian Journal of Neurology em 2025 mostrou que o tempo médio entre o início dos sintomas e a primeira consulta neurológica é de 3,2 anos. Três anos e dois meses de formigamento, queimação e dormência antes de alguém decidir que talvez, só talvez, isso não seja normal.
O problema é que nervos danificados não se regeneram facilmente. A janela de tratamento eficaz é limitada. Quanto mais cedo o diagnóstico, maior a chance de estabilizar a condição e evitar progressão. Quando a dormência se instala de forma completa, o dano geralmente é irreversível.
"O diagnóstico precoce muda tudo. Se a causa é diabetes, controlar a glicemia pode parar a progressão. Se é deficiência de B12, a reposição resolve em semanas. Mas você precisa investigar — e investigar cedo."
— Dr. Drauzio Varella
Como saber se você deve se preocupar
Formigamento eventual, que aparece e desaparece com mudança de posição? Normal. Formigamento persistente, que está lá todo dia, que piora à noite, que vem acompanhado de dor ou fraqueza? Hora de procurar um neurologista.
O diagnóstico é feito com eletroneuromiografia (ENMG) — um exame que mede a velocidade de condução dos nervos e a atividade elétrica dos músculos. Não é o exame mais agradável do mundo (envolve pequenos choques elétricos e agulhas finas), mas é rápido, seguro e definitivo.
Exames de sangue complementam: glicemia, hemoglobina glicada, vitamina B12, função tireoidiana, provas inflamatórias. Na maioria dos casos, a causa é identificada na primeira bateria de exames.
Seus pés estão tentando te dizer algo. Pode ser que estejam reclamando do sapato novo. Pode ser que estejam avisando que algo está errado nos seus nervos, no seu açúcar no sangue, na sua alimentação. A diferença entre uma coisa e outra pode ser um exame simples — e alguns anos de qualidade de vida.
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