O CFM proibiu o PMMA — o preenchimento que prometia ser para sempre e cumpria

O CFM proibiu o PMMA — o preenchimento que prometia ser para sempre e cumpria

A Resolução 2.461/2026 do Conselho Federal de Medicina veta o uso do polimetilmetacrilato em procedimentos na pele. O motivo é justamente o que vendia o produto: ele é permanente. E quando dá errado, o "para sempre" vira mutilação.

SaúdeCidade ·

Existe um truque de marketing que funciona em estética: vender o permanente como vantagem. "Preenchimento que dura a vida toda" soa como economia — você paga uma vez e nunca mais. O problema é que, em medicina, "para sempre" também significa "sem volta". E é exatamente essa irreversibilidade que acabou de derrubar o PMMA.

O Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução nº 2.461/2026, em vigor desde 2 de junho, que proíbe os médicos de usar o polimetilmetacrilato — o PMMA — em procedimentos na pele. Não é uma recomendação. É uma vedação ética com peso de norma sobre toda a categoria médica do país.

O que é o PMMA, sem eufemismo

O PMMA é um plástico — o mesmo tipo de polímero do acrílico — em forma de microesferas suspensas num gel injetável. Era usado como preenchedor permanente para dar volume a rosto e corpo: maçã do rosto, queixo, glúteos, panturrilha. A microesfera não é absorvida pelo organismo. Ela fica ali, para sempre. E é esse "para sempre" que o corpo nem sempre aceita em paz.

O CFM cita reações inflamatórias crônicas que aparecem com o tempo: formação de granulomas (nódulos endurecidos), migração do material para onde não devia, hipercalcemia e até doença renal crônica. A relatora Graziela Bonin foi direta ao apontar que o produto pode provocar reações inflamatórias crônicas e granulomas ao longo dos anos. Em alguns casos, a única saída é cirurgia para remover o material — e, com ele, gordura e músculo saudáveis. O conselho documentou casos de mutilação.

Por que o CFM proibiu o PMMA:

• Reações inflamatórias crônicas e granulomas
• Migração do material para outras áreas
Hipercalcemia e doença renal crônica
• Casos que exigiram remoção cirúrgica de tecido saudável

Complicações documentadas:
• Alergias, inchaço, dor intensa, deformação
• Perda de tecido, queimaduras, sangramento, queloides
• Infecções, necrose e até morte

Única exceção permitida:
• Lipodistrofia em pacientes com HIV/aids (efeito de antirretrovirais), apenas em unidades de alta complexidade do SUS com protocolo

A única exceção que sobrou

A resolução não fechou todas as portas. Permanece um único uso autorizado: o tratamento da lipodistrofia — a perda e redistribuição de gordura — em pessoas que vivem com HIV/aids e desenvolvem essa alteração por causa dos medicamentos antirretrovirais. Mesmo assim, só pode ser feito em unidades de alta complexidade do SUS, seguindo protocolo clínico. É um uso médico, com indicação clara e benefício comprovado — o oposto da injeção estética vendida em clínica de shopping.

Vale uma nota técnica importante: a resolução do CFM regula os médicos, não o produto. A Anvisa ainda mantém o registro de dois PMMAs no Brasil — Linnea Safe e Biossimetric — alegando relação risco-benefício aceitável quando usados para correções de saúde, e não por puro fim estético. Ou seja, o produto não foi banido das prateleiras; foi tirado das mãos de quem o usava para fins cosméticos.

O contexto: o Brasil ama um procedimento

O país é potência mundial em estética injetável. Onde há demanda gigante e promessa de resultado permanente por um preço único, surge um exército de profissionais — alguns médicos, muitos nem isso — dispostos a injetar. O PMMA virou queridinho de quem queria volume barato e definitivo, sem saber que estava assinando um contrato vitalício com o próprio rosto. Quando o granuloma aparece anos depois, não há reembolso que resolva.

A decisão do CFM segue uma lógica que a medicina aprendeu na marra: preenchedor bom é preenchedor que o corpo reabsorve. O ácido hialurônico, padrão atual, some em meses a poucos anos — e se algo dá errado, existe até uma enzima que dissolve o produto na hora. O permanente não oferece esse botão de desfazer.

O que fazer se você já colocou (ou pensa em colocar)

Se você está pensando em preenchimento, a escolha agora é mais segura por exclusão: o permanente saiu de cena para fins estéticos. Procure dermatologista ou cirurgião plástico, pergunte qual produto será usado, exija que seja reabsorvível e registrado. Desconfie de promessa de "dura a vida toda" — em estética, isso é risco, não vantagem.

Se você já tem PMMA no corpo e está tudo bem, não entre em pânico: nem todo mundo desenvolve complicação. Mas conheça os sinais — nódulos endurecidos, inchaço que vai e volta, dor, vermelhidão tardia — e procure um médico ao primeiro deles. O preenchimento prometia ser para sempre. A parte que ninguém colocava no folheto é que o problema, quando vem, também tende a ser.

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