A molécula descoberta "por acaso" numa geladeira da UFRJ que pode fazer paralisados voltarem a andar

A molécula descoberta "por acaso" numa geladeira da UFRJ que pode fazer paralisados voltarem a andar

A polilaminina, criada numa universidade pública brasileira a partir de placentas doadas, acaba de ser autorizada pela Anvisa para teste clínico. Nos estudos preliminares, três em cada quatro pacientes com lesão medular completa recuperaram movimentos.

SaúdeCidade ·

Toda grande descoberta científica tem uma versão romântica e uma versão real. A versão real desta começa com um frasco de proteína comprado para outro experimento, esquecido numa geladeira de laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A versão romântica é o que pode vir depois: pessoas com a medula rompida, condenadas a nunca mais mexer as pernas, voltando a se mover.

A molécula se chama polilaminina, e acaba de dar o passo mais importante da sua história: a Anvisa autorizou o início dos testes clínicos em humanos, a fase 1. É ciência 100% brasileira, feita em universidade pública, com matéria-prima que normalmente vai para o lixo hospitalar — placentas doadas por gestantes.

O que é e como funciona

A polilaminina é derivada da laminina, uma proteína que o próprio corpo humano fabrica, em especial na placenta. A pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ, se interessou pelo material quase por acaso — um colega tinha comprado laminina para outra coisa e não usou. Do "e se eu testar isso?" nasceu uma linha de pesquisa que já dura anos.

O mecanismo é engenhoso. Quando a medula espinhal se rompe, os axônios — os "fios" que conduzem os sinais nervosos — ficam interrompidos, e o corpo não consegue reconectá-los sozinho. A polilaminina funciona como um andaime: aplicada no local exato da lesão, durante uma cirurgia, ela forma uma espécie de rede que orienta e estimula os axônios a crescerem de novo, reconstruindo a ponte que o acidente destruiu.

Há um detalhe quase artesanal no processo: a laminina extraída das placentas só é convertida em polilaminina no centro cirúrgico, na hora da aplicação. É um remédio que se "monta" no momento do uso.

Os números que fazem a comunidade médica prestar atenção

O que separa a polilaminina de mais uma promessa de laboratório são os resultados preliminares. Num estudo ainda não revisado por pares, oito pacientes com lesão medular completa do tipo A — o grau mais severo, aquele em que não sobra função nenhuma abaixo da lesão — receberam a substância.

Entre os seis que sobreviveram ao acompanhamento, 75% recuperaram algum controle de movimentos. Para dar dimensão: com os tratamentos convencionais, a taxa histórica de melhora nesses casos gira em torno de 15%. Um dos pacientes teve uma recuperação que os pesquisadores descreveram como "extraordinária".

Polilaminina — a molécula da UFRJ em números:

• Descoberta na Universidade Federal do Rio de Janeiro (pesquisa pública)
• Matéria-prima: placentas doadas por gestantes
• Fase 1 autorizada pela Anvisa: 5 pacientes, foco em segurança
• Realizada no HC-USP e na Santa Casa de São Paulo
• Estudo preliminar: 75% dos sobreviventes recuperaram movimentos (vs. ~15% do convencional)
• Conclusão da fase 1 prevista para o fim de 2026
• Registro definitivo estimado para 2028
• Produção em parceria com a farmacêutica Cristália

Calma: ainda é o começo

Antes que alguém saia comemorando a cura da paralisia, vale a dose de realismo que a própria cientista faz questão de dar. A fase 1 que começa agora vai acompanhar apenas cinco pacientes com lesões completas, e seu objetivo não é provar que funciona — é provar que é seguro e tolerável. Só depois vêm a fase 2 (para medir eficácia) e a fase 3 (a validação rigorosa). O registro definitivo, na melhor das hipóteses, sai em 2028.

E há uma reabilitação intensiva no meio do caminho: reconstruir o axônio é metade do trabalho. A outra metade é reensinar o corpo a usá-lo — sem fisioterapia pesada, o fio novo não vira movimento.

A tentação do atalho — e o alerta ético

Enquanto o protocolo oficial avança devagar, alguns pacientes têm conseguido acesso à polilaminina por liminares na Justiça. Um caso recente virou notícia: uma nutricionista recuperou movimento do braço direito após aplicação em janeiro, meses depois de um acidente de mergulho.

Histórias assim mexem com quem está numa cadeira de rodas, e é humano querer o atalho. Mas Sampaio é direta sobre o risco: usar um tratamento experimental fora do protocolo, sem os resultados consolidados, é "errado do ponto de vista ético" — porque ninguém ainda sabe, com segurança científica, o tamanho do benefício nem dos riscos.

É um lembrete de como a ciência de verdade funciona: devagar, em etapas, com desconfiança metódica até dos próprios acertos. A polilaminina pode ser uma revolução saída de uma universidade pública brasileira. Ou pode não ser. A diferença entre as duas coisas se chama fase 3 — e, por enquanto, a promessa mais honesta é a da própria pesquisadora: "o esperado é que funcione".

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