Perguntaram a 135 especialistas o que mais ameaça a saúde no Brasil — e a resposta não foi vírus
Uma pesquisa da FIA com a ABIMED ouviu 135 especialistas do setor. Para 55% deles, o maior risco da saúde brasileira é a falta de dinheiro. Para 49%, é a gestão frágil. Nenhuma epidemia entrou no pódio — os dois maiores inimigos do SUS são a planilha e a caneta.
Quando se pergunta ao brasileiro o que ameaça a saúde do país, a imaginação corre para o dramático: uma nova pandemia, um vírus exótico saindo da floresta, um surto que colapsa hospitais. É uma resposta compreensível — e, segundo quem entende do assunto, quase completamente errada. Os maiores perigos do sistema de saúde não usam jaleco de laboratório de contenção. Eles moram no orçamento e na gestão.
Uma pesquisa conduzida pela Fundação Instituto de Administração (FIA) em parceria com a ABIMED, a associação da indústria de dispositivos médicos, ouviu 135 especialistas do setor em maio de 2026, por meio de um observatório permanente. A pergunta era simples: o que mais ameaça a saúde no Brasil? As respostas desenham um retrato incômodo, porque apontam para problemas que não têm vacina.
O pódio dos verdadeiros riscos
Os números falam mais alto que qualquer manchete alarmista.
• 55% — subfinanciamento (falta de dinheiro)
• 49% — fragilidade de gestão e governança
• 40% — desigualdades regionais
• 36% — envelhecimento da população
Pesquisa FIA/ABIMED, maio de 2026, com 135 respondentes.
Repare que os dois primeiros lugares — o dinheiro que falta e a gestão que não funciona — são problemas humanos, não biológicos. Ninguém morre de "governança frágil" no atestado de óbito, mas é ela que decide se o remédio chega, se a fila anda, se o hospital do interior tem o mesmo aparelho do hospital da capital. O terceiro colocado, a desigualdade regional, é praticamente uma consequência dos dois primeiros: quando falta verba e falta gestão, quem paga a conta primeiro é sempre o Brasil que está longe do centro de decisão.
Quando os próprios fornecedores admitem o problema
Há uma ironia saborosa em quem financiou a pesquisa. A ABIMED representa a indústria que vende equipamentos e insumos para a saúde. É o tipo de setor que, teoricamente, teria interesse em falar de inovação, de tecnologia de ponta, do futuro brilhante da medicina. Em vez disso, entre os próprios associados, 77% cravaram o subfinanciamento como principal problema. Quando quem vende a máquina moderna diz que o problema não é a máquina, mas o cofre vazio para comprá-la, vale prestar atenção.
E o diagnóstico coletivo é ainda mais consensual quando se pergunta pela solução. 89% dos especialistas apontaram a melhoria da gestão como prioridade. 74% pediram mais recursos e infraestrutura no SUS. A conta fecha: falta dinheiro, e o pouco que existe é mal administrado. Não dá para consertar um sem o outro — jogar verba num sistema mal gerido é encher de água um balde furado; apertar a gestão sem financiar é pedir milagre a quem já faz o impossível.
O que Fernando Silveira colocou na mesa
Fernando Silveira, presidente-executivo da ABIMED, resumiu o recado sem rodeios: "Os resultados reforçam que os desafios estruturais exigem agenda de longo prazo, urgência de fortalecer gestão, garantir financiamento sustentável e acelerar transformação digital." A palavra que importa ali é estrutural. Não são problemas de um governo ou de uma crise pontual. São falhas de fundação, do tipo que atravessa mandatos e sobrevive a promessas de campanha.
A pesquisa aponta caminhos: financiamento previsível, governança mais competente, interoperabilidade de dados, inteligência artificial, fortalecimento da atenção primária. Nada disso vira manchete de plantão. Nenhum desses temas assusta como um vírus novo. E talvez seja exatamente esse o problema — o que ameaça de verdade a saúde brasileira é chato, lento e invisível. Vírus dá medo e mobiliza. Orçamento mal feito só mata devagar, sem que ninguém filme.
Enquanto o país gasta energia se preparando para o próximo surto imaginário, os dois inimigos que os especialistas realmente temem seguem trabalhando em silêncio: a verba que não vem e a gestão que não anda.
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