Seu próximo remédio pode vir junto com o arroz e o feijão: supermercados agora vendem medicamentos
O presidente Lula sancionou a Lei 15.357, que autoriza farmácias dentro de supermercados. A mudança promete conveniência, mas levanta debates sobre automedicação e o futuro das drogarias de bairro
Imagine a cena: você está no corredor do supermercado, debatendo internamente se leva a versão orgânica ou convencional do molho de tomate, quando percebe que está com aquela dor de cabeça chata que aparece sempre às quintas-feiras. No mundo de antes, você terminaria as compras, pegaria o carro, enfrentaria o trânsito até a farmácia mais próxima, estacionaria de novo, entraria, ouviria a sugestão de três suplementos que você não pediu, compraria seu analgésico e voltaria para casa com a dor agora acompanhada de irritação. No mundo de agora, você vira à esquerda no corredor 7 e resolve tudo ali.
Desde 24 de março de 2026, supermercados brasileiros podem abrigar farmácias dentro de suas instalações. O presidente Lula sancionou a Lei 15.357, e o que parecia um daqueles projetos de lei destinados a envelhecer eternamente nas gavetas do Congresso finalmente virou realidade. A mudança não é exatamente uma revolução — em países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e até na vizinha Argentina, comprar remédio no supermercado é tão natural quanto comprar pão. Mas no Brasil, onde a farmácia de bairro é quase uma instituição cultural, a novidade mexe com muita coisa.
E mexe, principalmente, com dinheiro.
O que diz a lei — e o que ela não diz
A Lei 15.357 não transformou o supermercado numa farmácia a céu aberto. O texto é bastante específico: os estabelecimentos que quiserem vender medicamentos precisam instalar uma farmácia fisicamente separada dentro do espaço, com área delimitada, acesso independente, e — detalhe crucial — um farmacêutico presente durante todo o horário de funcionamento.
Isso significa que não, você não vai encontrar cartelas de dipirona entre as prateleiras de biscoitos. A farmácia do supermercado precisa cumprir exatamente as mesmas exigências regulatórias de qualquer drogaria convencional: alvará sanitário, controle de temperatura, escrituração de medicamentos controlados, tudo fiscalizado pela Anvisa e pelas vigilâncias sanitárias municipais e estaduais.
O que a lei faz, na prática, é remover a proibição que existia desde os anos 1970 de que farmácias operassem dentro de estabelecimentos comerciais de outra natureza. Uma barreira regulatória que muitos especialistas consideravam anacrônica, mas que o lobby das redes farmacêuticas lutou durante décadas para manter.
Medicamentos controlados — como ansiolíticos, antidepressivos e antibióticos — seguem exigindo receita médica. A diferença é apenas o local onde você os retira.
Quem ganha e quem perde
O consumidor, em tese, ganha. A lógica é simples: mais concorrência tende a baixar preços. Hoje, o Brasil tem cerca de 90 mil farmácias para 203 milhões de habitantes — uma das maiores densidades do mundo. Mesmo assim, em muitas cidades pequenas e periferias de grandes centros, o acesso é limitado. Supermercados, que já existem em praticamente todo canto, poderiam preencher essa lacuna.
Estudos internacionais sustentam a tese. Nos Estados Unidos, onde Walmart, Costco e Target operam farmácias há décadas, os preços de medicamentos genéricos nessas lojas são, em média, 30% a 50% menores do que em farmácias independentes. O programa "$4 generics" do Walmart — que vende genéricos por quatro dólares o frasco — é creditado por ter forçado uma redução generalizada de preços no mercado americano.
Quem perde, ao menos no curto prazo, são as redes de farmácias que dominam o mercado brasileiro. RaiaDrogasil, DPSP (Drogarias Pacheco e São Paulo) e Pague Menos — que juntas representam quase 40% do faturamento do setor — viram suas ações cair entre 3% e 7% no dia seguinte à sanção da lei. A Abrafarma, que representa as grandes redes, divulgou nota afirmando que a lei "fragiliza o modelo farmacêutico brasileiro" e prometeu questionar aspectos da regulamentação.
As farmácias de bairro, aquelas independentes operadas por famílias há gerações, estão numa posição mais vulnerável ainda. Sem o poder de negociação das grandes redes e sem a escala dos supermercados, elas podem se ver espremidas dos dois lados. A Associação Brasileira de Farmácias (ABF) estima que até 15% das farmácias independentes podem fechar nos próximos cinco anos em decorrência da nova concorrência.
O fantasma da automedicação
O maior receio de médicos e farmacêuticos não é comercial — é sanitário. O Brasil já tem um problema sério de automedicação: segundo pesquisa do Conselho Federal de Farmácia de 2025, 77% dos brasileiros se automedicam regularmente, e intoxicações por medicamentos são a principal causa de envenenamento registrada pelo Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas.
A preocupação é que colocar medicamentos num ambiente de consumo — onde tudo é projetado para fazer você comprar mais do que planejava — possa agravar esse cenário. É a diferença entre ir a uma farmácia com a intenção específica de comprar um remédio e tropeçar numa farmácia enquanto empurra o carrinho. O impulso de "já que estou aqui, vou levar" funciona muito bem para chocolates. Para medicamentos, pode ser perigoso.
"O risco não está na lei em si, mas na fiscalização", avalia a farmacêutica Cristiane Mello, professora da Faculdade de Farmácia da UFRGS. "Se o farmacêutico de fato estiver presente e atuante, orientando sobre interações medicamentosas e contraindicações, o modelo pode funcionar. Mas se virar uma prateleira glorificada com um profissional de fachada, vamos ter problemas."
Como funciona lá fora
A experiência internacional oferece tanto exemplos positivos quanto cautelas. No Reino Unido, as farmácias dentro de supermercados Tesco e Sainsbury's são consideradas referência: oferecem serviços como aplicação de vacinas, testes de pressão arterial e consultas farmacêuticas rápidas — expandindo o acesso a cuidados básicos de saúde para populações que não conseguem agendar consultas no sobrecarregado NHS.
Nos Estados Unidos, o modelo é mais voltado para volume e preço baixo, com menos ênfase no atendimento farmacêutico personalizado. Não por acaso, os americanos também têm taxas de automedicação e uso inadequado de medicamentos significativamente mais altas que a média dos países desenvolvidos.
O modelo que parece funcionar melhor é o da Austrália, onde farmácias em supermercados existem, mas com regulações rígidas: o farmacêutico tem autonomia para recusar vendas, há limites na quantidade de medicamentos que podem ser comprados por vez, e propagandas de medicamentos dentro do supermercado são proibidas.
O que muda para você
Na prática, a mudança não será instantânea. A lei foi sancionada, mas a regulamentação detalhada — que definirá exatamente como as farmácias de supermercado devem operar — ainda precisa ser elaborada pela Anvisa, com prazo de 180 dias. Grandes redes de supermercados como Carrefour, Assaí e Pão de Açúcar já manifestaram interesse, mas a implementação exige reformas, contratação de farmacêuticos e obtenção de alvarás.
A estimativa do setor é que as primeiras farmácias em supermercados comecem a operar no segundo semestre de 2026, inicialmente em grandes centros. A expansão para cidades menores deve levar de dois a três anos.
Enquanto isso, o debate continua. De um lado, a promessa de conveniência e preços menores. Do outro, o receio de que a saúde se torne mais um item na lista de compras — tratada com a mesma displicência com que escolhemos entre marcas de detergente. A verdade, como quase sempre, provavelmente está em algum lugar no corredor do meio.
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