O grupo que mais fuma no Brasil hoje tem entre 16 e 24 anos — e 63% deles se acham saudáveis

O grupo que mais fuma no Brasil hoje tem entre 16 e 24 anos — e 63% deles se acham saudáveis

Pesquisa do A.C. Camargo com 2 mil pessoas encontrou 19% de fumantes na faixa mais jovem, acima da média nacional de 17%. Trinta anos de política antitabaco derrubaram o cigarro entre os mais velhos e a indústria simplesmente trocou de embalagem.

SaúdeCidade ·

Se eu pedisse para você desenhar um fumante brasileiro, provavelmente sairia um senhor de sessenta e poucos anos, maço amassado no bolso da camisa, tosse de trinta anos de estrada. É a imagem que o país construiu — e é a imagem errada.

Uma pesquisa do Instituto A.C. Camargo Câncer Center em parceria com a Nexus, com mais de 2 mil entrevistados em todo o país, mostra que a faixa etária que mais fuma no Brasil hoje é a de 16 a 24 anos. São 19% de fumantes ativos, contra uma média nacional de 17%.

O senhor de sessenta anos, aliás, é justamente quem mais parou: 32% dos maiores de 60 se declaram ex-fumantes. É a única faixa em que os que largaram superam com folga os que continuam.

A conta que a política pública fez — e a que a indústria fez

O Brasil é, sem exagero, um caso de sucesso mundial no combate ao tabaco. Proibiu propaganda, encheu o maço de imagens desagradáveis, baniu o cigarro de bares e restaurantes, taxou pesado. A prevalência despencou.

O que esses números mostram é que essa vitória foi construída onde o cigarro já estava — nos adultos que fumavam — e que a reposição de clientes nunca foi interrompida. Enquanto a saúde pública ensinava a geração dos avós a parar, alguém estava recrutando a geração dos netos.

E há um detalhe metodológico que explica bastante: o estudo conta como fumante ativo quem usa cigarros comuns ou eletrônicos. O vape, proibido no Brasil desde sempre e vendido em qualquer esquina, entra na conta. A nicotina não mudou. Mudou o design, o sabor, o marketing e a idade do alvo.

Quem fuma no Brasil, por faixa etária:

16 a 24 anos: 19% fumantes ativos — apenas 8% ex-fumantes
• 25 a 40 anos: 15% fumantes — 10% ex-fumantes
• 41 a 59 anos: 17% fumantes — 15% ex-fumantes
• 60 anos ou mais: 16% fumantes — 32% ex-fumantes
• Média nacional: 17%

Por região: Sul 22% · Sudeste 19% · Nordeste 13% · Norte e Centro-Oeste 13%

Pesquisa A.C. Camargo Câncer Center e Nexus, mais de 2 mil entrevistados, agosto de 2026.

Aos 16 anos, o primeiro cigarro

"O primeiro contato com o cigarro ocorre, em média, aos 16 anos", afirma Helano Freitas, líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C. Camargo.

Dezesseis anos. É a idade em que a pessoa não pode dirigir, não pode comprar bebida legalmente e ainda está no ensino médio. É também a idade em que o cérebro está no auge da plasticidade — o que, no vocabulário da dependência química, significa que ele aprende a precisar de nicotina com uma eficiência assustadora.

Comece aos 16 e, se nada mudar, você chega aos 50 com três décadas e meia de exposição acumulada. O câncer de pulmão não é uma doença que aparece: é uma doença que se constrói, tijolo por tijolo, e cujo prazo de entrega costuma ser justamente a meia-idade.

O dado mais desconfortável da pesquisa

Entre os fumantes ouvidos, 63% classificam a própria saúde como "ótima" ou "boa". E 84% mantêm até quatro outros comportamentos de risco simultaneamente — sedentarismo, má alimentação, álcool, sono ruim.

Não é hipocrisia. É como a percepção de risco funciona no corpo humano: enquanto não dói, não existe. O cigarro tem a característica cruel de cobrar tarde e cobrar tudo de uma vez. Aos 20 anos, quem fuma sente basicamente nada. Aos 55, sente o resultado de 35 anos.

A soma dos hábitos é o que mais preocupa o oncologista. Fumar já é o principal fator de risco evitável para câncer no mundo. Fumar somado a sedentarismo, álcool e alimentação ruim não é uma soma — é uma multiplicação.

Fumaça alheia: um terço do país

A pesquisa também encontrou que 33% da população compartilha frequentemente ambientes com fumantes. Um terço dos brasileiros fuma sem fumar.

Isso importa porque o tabagismo passivo não é uma versão diluída e inofensiva do ativo. Ele aumenta risco de câncer de pulmão, doença cardiovascular e infecção respiratória em criança. E o vape, vendido com a fantasia de "vapor de água", também expõe quem está do lado.

Onde o cigarro mais pega

Os números por renda e escolaridade seguem o padrão de sempre: 19% entre quem ganha até um salário mínimo e 21% entre quem tem apenas o ensino fundamental completo. Regionalmente, o Sul lidera com 22%.

É a desigualdade fazendo o que ela sempre faz em saúde: escolhendo quem vai adoecer primeiro. Quem tem menos acesso a informação, a tratamento para parar de fumar e a diagnóstico precoce é exatamente quem mais fuma — e quem chega ao oncologista com o tumor mais avançado.

O que fazer com isso

Parar de fumar é a intervenção isolada com melhor retorno em saúde que existe para um adulto. Não é força de vontade: é tratamento. O SUS oferece o Programa Nacional de Controle do Tabagismo gratuitamente nas unidades básicas de saúde, com abordagem em grupo, adesivo e goma de nicotina e, quando indicado, bupropiona. Procure a UBS mais próxima e pergunte pelo grupo de tabagismo.

Para quem tem um adolescente em casa, a conversa é outra e é mais urgente. O vape não é "menos pior" — é a mesma dependência com embalagem nova, vendida ilegalmente e desenhada para parecer inofensiva. O primeiro cigarro chega aos 16, e a janela de conversar antes disso é curta.

O Brasil ganhou a guerra contra o cigarro na geração que já fumava. Está perdendo, silenciosamente, na geração que ainda nem começou a tossir.

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