Passaram um cotonete no corrimão do metrô de 102 cidades e acharam 55 mil vírus — 77% deles inéditos
Um estudo publicado na Nature Communications, com participação da USP e apoio da FAPESP, catalogou 54.945 espécies de vírus de RNA em ambientes urbanos de 31 países, São Paulo incluída. A curva de descobertas não parou de subir — e o esgoto se revelou o melhor sensor de saúde pública que existe.
Entre março e julho de 2020 — enquanto o mundo se trancava em casa por causa de um vírus —, pesquisadores saíram às ruas de 102 cidades esfregando cotonetes em corrimão de escada rolante, banco de estação e máquina de bilhete.
Cinco anos depois, o resultado saiu na Nature Communications: 54.945 espécies de vírus de RNA catalogadas. Cerca de 77% delas nunca haviam sido descritas pela ciência.
Antes que você comece a olhar torto para o corrimão do metrô: não, a cidade não está infestada de novos vírus prontos para te matar. A história aqui é outra, e é bem mais interessante.
O viés que a pandemia expôs
Tudo o que sabemos sobre vírus foi aprendido de trás para frente. Alguém adoece, a ciência procura o culpado, encontra o vírus, dá nome a ele. Dengue, zika, gripe, febre amarela, covid-19 — todos entraram no catálogo pela porta da doença.
O problema desse método é que ele só enxerga vírus que fazem mal. Todo o resto — a esmagadora maioria — permanece invisível.
"Nós conhecíamos vários vírus causadores de doenças, mas subestimávamos muito a diversidade viral na natureza", diz Antônio Pedro Camargo, professor do Instituto de Química da USP e um dos autores do estudo. "Quando você procura um vírus a partir de uma doença, já existe um viés, porque todos os vírus que não causam doenças acabam sendo ignorados."
O UPVAtlas — Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos — inverte a pergunta. Em vez de "qual vírus causou isso?", pergunta "o que está aqui?".
Como se procura um vírus que ninguém sabe que existe
Foram 2.922 amostras, de 102 cidades em 31 países, São Paulo entre elas. A maior parte — 1.862 — veio do consórcio MetaSUB, que investiga o microbioma dos ambientes urbanos com protocolo padronizado de swab em superfícies de contato frequente. O restante foi recuperado de bancos públicos de sequenciamento e cobre o entorno das cidades: solo, sedimento, água doce, esgoto, estufas.
A técnica se chama metatranscriptômica e é o oposto do laboratório clássico. Em vez de isolar um organismo por vez, você sequencia tudo de uma vez.
"Imagine que você pega um punhado de terra", explica Camargo. "Ali tem bactéria, vírus de bactéria, outros microrganismos, insetos, tudo o que você possa imaginar."
O que sai disso é um caos: milhões de fragmentos genéticos sem etiqueta. "São só sequências de letras. O desafio é saber: cada pedacinho de genoma na amostra corresponde a quê? É uma bactéria? É um vírus? Se é um vírus, qual tipo?"
A triagem foi feita com o geNomad, ferramenta de bioinformática desenvolvida pelo próprio Camargo, capaz de processar milhões de sequências e separar o que é genoma viral. Depois, os pesquisadores compararam a RdRP — a enzima que todo vírus de RNA usa para se replicar — e reconstruíram as relações de parentesco entre eles.
Alguns eram tão diferentes de tudo o que já se conhecia que os autores propuseram criar categorias novas para acomodá-los: dois filos, uma classe nova e vários agrupamentos que continuam sem classificação. É uma proposta preliminar — "isso é tudo computacional", pondera o pesquisador.
• 2.922 amostras de 102 cidades em 31 países (incluindo São Paulo)
• 54.945 espécies virais catalogadas — ~77% inéditas
• Coleta principal entre março e julho de 2020, pelo consórcio MetaSUB
• Apenas 1/3 das sequências teve hospedeiro provável identificado
• Desses, mais da metade infecta bactérias, não pessoas
• 60 vírus com alta probabilidade de infectar humanos; 47, outros mamíferos
• 166 bacteriófagos com histórico de atacar bactérias do grupo ESKAPE
• As curvas de acumulação não estabilizaram em praticamente nenhum tipo de amostra
Estudo publicado na Nature Communications em julho de 2026. Apoio: FAPESP (CEPID B3).
A parte que interessa à saúde: o esgoto ganhou
Um dos achados mais contraintuitivos é que superfícies urbanas — ruas, bancos, estações, lojas — têm menos diversidade viral do que solo e sedimento. A atividade humana, sugerem os autores, tende a homogeneizar essas comunidades. A cidade é um ambiente pobre em diversidade, inclusive microscópica.
Com uma exceção espetacular: o esgoto, que exibiu uma das maiores diversidades de todo o levantamento.
Isso não é curiosidade — é política de saúde pública. Um único ponto de coleta de esgoto agrega, sem pedir autorização a ninguém e sem que ninguém precise procurar um posto, o que circula em milhares de corpos ao mesmo tempo. A vigilância por esgoto já provou o valor dela detectando poliovírus e antecipando ondas de covid. Este estudo reforça a evidência: o cano é o melhor sensor epidemiológico barato que uma cidade tem.
Sobre o Brasil especificamente, houve um dado que pede cautela: entre as amostras hospitalares, São Paulo e Islamabad apresentaram maior abundância de vírus de famílias patogênicas para vertebrados do que Baltimore e Seul. Camargo é o primeiro a frear a interpretação: "É muito difícil inferir qualquer explicação biológica a partir disso. Pode ser só amostragem." O próprio estudo admite que há países representados por um único tipo de ambiente, o que impede separar o efeito do local do efeito do país.
Sessenta vírus, e por que isso não é motivo de pânico
Foi possível propor um hospedeiro provável para apenas cerca de um terço das sequências. Nesse conjunto, mais da metade corresponde a vírus que infectam bactérias, não gente.
Uma parcela pequena tem potencial de infectar vertebrados. Cruzando os dados com o VIRION — base que reúne associações documentadas entre vírus e vertebrados —, os autores identificaram 60 vírus com alta probabilidade de infectar humanos e 47 de acometer outros mamíferos. Dos 60, 19 vieram de ambientes urbanos e 34 de amostras de origem animal.
Sessenta, em quase 55 mil. É o equivalente a abrir uma biblioteca desconhecida e descobrir que uma prateleira em novecentas tem material inflamável — o que justifica saber onde ela fica, não incendiar o prédio de medo.
E há um achado que joga para o outro lado: 166 bacteriófagos com histórico de infectar quatro linhagens do grupo ESKAPE, o conjunto de bactérias multirresistentes que assombra as UTIs — Staphylococcus aureus incluído. Vírus que matam superbactérias são a matéria-prima da fagoterapia, a aposta mais concreta que existe para quando os antibióticos acabarem de falhar. Cento e sessenta e seis candidatos novos, encontrados de graça, no meio de um censo.
A curva que não parou de subir
O detalhe mais desconcertante do estudo é estatístico. As chamadas curvas de acumulação — que medem quantos vírus inéditos aparecem a cada nova coleta analisada — não estabilizaram em praticamente nenhum tipo de amostra.
Quando uma curva dessas achata, você sabe que chegou perto do total. Quando ela continua subindo, significa que cada amostra nova ainda traz coisa nova. Os quase 55 mil vírus catalogados são, portanto, uma fração do que existe.
"Há uma diversidade viral muito grande, maior do que a gente já conhecia. Acho que esse é o ponto principal do artigo", resume Camargo.
O valor real do UPVAtlas não é o número. É o marco zero: daqui em diante, dá para comparar o que existe numa cidade hoje com o que existirá em dez anos, e entender como as comunidades virais mudam conforme o ambiente muda.
A covid-19 nos ensinou que o custo de descobrir um vírus depois que ele já está circulando é medido em milhões de vidas e trilhões de dólares. Passar cotonete em corrimão é ridiculamente barato perto disso.
Não estávamos cercados de vírus desconhecidos porque a cidade ficou perigosa. Estávamos porque nunca tínhamos olhado.
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