Grávida, anti-TPO positivo e tireoide normal? A nova diretriz diz para não medicar
SBEM e Febrasgo atualizaram as recomendações brasileiras sobre tireoide na gestação. Três grandes estudos derrubaram o hormônio "preventivo", a idade e a obesidade saíram da lista de fatores de risco — e o Brasil decidiu discordar dos americanos justamente onde a discordância protege mais mulher.
Existe uma cena que se repete em milhares de consultas de pré-natal no Brasil. A gestante faz os exames de rotina, aparece um anticorpo positivo chamado anti-TPO, e sai da consulta com uma receita de levotiroxina e uma frase tranquilizadora: "é só uma precaução".
A partir desta semana, essa cena mudou de status. De precaução razoável, passou a tratamento que a evidência não sustenta.
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia apresentaram nesta sexta-feira, no 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, no Rio de Janeiro, a adaptação brasileira da nova diretriz da Associação Americana da Tireoide, publicada em junho.
E a mudança mais importante é uma subtração.
O que caiu: hormônio para quem tem só o anticorpo
Primeiro, o vocabulário. O anti-TPO é um anticorpo que o corpo produz contra a própria tireoide. Ter anti-TPO positivo significa que existe autoimunidade na glândula — mas não significa, por si só, que ela esteja funcionando mal.
A prática consagrada por anos era tratar essas mulheres mesmo com função tireoidiana normal, na esperança de reduzir abortamento e parto prematuro. A lógica era boa. O resultado, não.
Três grandes estudos recentes mostraram que o tratamento preventivo, nesses casos, não reduz risco de abortamento nem de parto prematuro. A nova diretriz, portanto, recomenda não iniciar levotiroxina em gestante com anti-TPO positivo e função normal.
Atenção ao que isso não quer dizer: não quer dizer que o anticorpo seja irrelevante. Essas mulheres têm risco aumentado de desenvolver hipotireoidismo ao longo da gestação e continuam sob monitoramento. O que mudou é que a vigilância substituiu o comprimido preventivo.
E, um aviso que precisa ser dito em letras grandes: quem já está tomando levotiroxina não deve interromper por conta própria depois de ler esta notícia. A decisão é de quem acompanha o pré-natal, caso a caso, com exame na mão.
O que ficou: os números do TSH, agora com trimestre
A segunda mudança é mais técnica e mais útil. O hipotireoidismo subclínico — TSH elevado com hormônio tireoidiano ainda normal — passou a ter conduta diferente conforme o momento da gravidez.
• 1º trimestre (até a 12ª semana): iniciar tratamento com TSH entre 4,0 e 10 mUI/L
• 2º e 3º trimestres: apenas acompanhar, exceto se TSH acima de 10 mUI/L
• Já tinha hipotireoidismo antes de engravidar: aumentar a dose habitual em cerca de 30% assim que a gravidez for confirmada
• Anti-TPO positivo com função normal: não iniciar levotiroxina — apenas monitorar
• Iodo: suplementação individualizada, 100 a 150 µg/dia, não para todas
SBEM e Febrasgo, 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, agosto de 2026.
A lógica por trás do corte no primeiro trimestre é embriológica, não estatística. A tireoide do feto só começa a produzir hormônio por conta própria por volta da 12ª semana. Antes disso, todo o hormônio tireoidiano que constrói o sistema nervoso do bebê vem da mãe.
Traduzindo: o primeiro trimestre é a única janela em que a tireoide materna é, literalmente, a tireoide de duas pessoas. Depois dela, um TSH discretamente alto deixa de ser urgência e passa a ser acompanhamento.
O aumento de 30% que muita gente esquece
Se você já tratava hipotireoidismo antes de engravidar, esta é a linha mais prática do texto todo: a dose precisa subir cerca de 30% assim que a gravidez for confirmada.
Isso acontece porque a gestação aumenta o volume de sangue, eleva as proteínas que transportam o hormônio e ainda joga sobre a glândula a demanda de um segundo organismo em formação. A dose que bastava em janeiro não basta em março.
A recomendação clássica é ajustar já no teste positivo — não esperar a primeira consulta de pré-natal, que às vezes leva semanas para acontecer.
Onde o Brasil discordou dos Estados Unidos (e fez bem)
A diretriz americana recomenda rastreamento seletivo: dosar TSH apenas em gestantes com fatores de risco. O Brasil manteve o rastreamento universal — todas as gestantes.
"O rastreamento seletivo pode deixar de identificar algumas mulheres que apresentam alteração da tireoide, mas não possuem os fatores de risco considerados na triagem", explica Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM.
Há uma segunda discordância, ainda mais reveladora do país real. A diretriz americana sugere aguardar de uma a três semanas antes de repetir um TSH alterado. O Brasil recomenda não esperar.
O motivo é puro realismo: numa rede em que o retorno de consulta demora, esperar três semanas para repetir um exame pode significar perder a janela inteira do primeiro trimestre. A recomendação foi ajustada não por divergência científica, mas por respeito ao tempo de fila brasileiro. É raro ver uma diretriz assumir isso com tanta clareza.
Idade e obesidade saem da lista de risco
A atualização também enxugou a lista de fatores de risco. Saíram: idade materna, obesidade e número de gestações anteriores.
O argumento não é que essas características sejam inofensivas — é que são frequentes demais para servirem de filtro. Quando um critério de triagem seleciona metade da população, ele deixou de selecionar.
Continuam valendo como fatores de risco: histórico de hipo ou hipertireoidismo, cirurgia ou tratamento prévio de tireoide, doenças autoimunes como o diabetes tipo 1, histórico familiar de doença tireoidiana, infertilidade, dois ou mais abortamentos e uso de medicamentos que interferem na glândula.
Iodo: nem para todas, nem para ninguém
Por fim, o iodo. O Brasil não recomenda suplementação universal na gestação — e aqui a razão é uma política pública de 1953 que deu certo: a iodação obrigatória do sal de cozinha.
A suplementação fica reservada a quem tem dieta restritiva, dieta vegana, baixo consumo de sal iodado ou problemas de absorção, na faixa de 100 a 150 µg por dia.
Vale notar a ironia contemporânea: o movimento de reduzir sal por causa da pressão arterial, somado à moda dos sais "naturais" não iodados, recriou em alguns grupos um risco que o país tinha resolvido há setenta anos.
Menos remédio, mais exame
Se há um resumo desta diretriz, é este: ela tira comprimido de quem não precisava e mantém exame para todo mundo.
É o tipo de atualização que não vende manchete — ninguém comemora um tratamento que deixa de existir. Mas medicina boa também é a que sabe desfazer o que fazia por hábito.
Leve o exame para a consulta e pergunte em que trimestre você está. A resposta, agora, muda a conduta.
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