A paciente que sobreviveu ao transplante com HIV — mas não sobreviveu ao sistema
Em outubro de 2024, seis pessoas receberam órgãos contaminados com HIV no Rio de Janeiro por causa de laudos fraudulentos. Em março de 2026, uma delas morreu. O laboratório que assinou os exames falsos se chama PCS Saleme — e foi contratado pela Fundação Saúde.
Imagine que você está na fila de transplante. Meses, talvez anos de espera. O rim que vai salvar sua vida finalmente aparece. Os médicos checam os exames — tudo negativo. A cirurgia acontece. E semanas depois você descobre que tem HIV, que os laudos eram falsos e que o laboratório contratado para fazer os testes simplesmente não os fez direito. Isso não é roteiro de série. É o que aconteceu no Rio de Janeiro em outubro de 2024.
Na quarta-feira, o Ministério da Saúde confirmou que uma das seis vítimas morreu em 18 de março de 2026. Mulher de 64 anos. A causa da morte ainda está sendo investigada. O que não está em investigação é o que a matou antes da morte: um sistema de fiscalização com falhas graves o suficiente para deixar um laboratório fraudulento cuidar da triagem de órgãos humanos.
Como um laboratório falsificou laudos de HIV
O laboratório PCS Saleme foi contratado em dezembro de 2023 pela Fundação Saúde — entidade vinculada à Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro — para realizar testes sorológicos em doadores de órgãos. Entre esses testes, estava a detecção de HIV.
Os dois doadores cujos órgãos foram distribuídos em outubro de 2024 eram portadores do vírus. Os laudos do PCS Saleme diziam o contrário. Seis pessoas receberam esses órgãos. Seis vidas foram mudadas por um papel que não correspondia à realidade. O incidente foi classificado pelas autoridades como "sem precedentes e inadmissível" — o tipo de declaração que é verdadeira e inútil ao mesmo tempo, porque chega depois do estrago.
O que aconteceu com o laboratório
Quando o caso veio a público, a reação foi rápida — no mínimo mais rápida do que a fiscalização que deveria ter impedido o problema. O PCS Saleme foi interditado. O contrato com a Fundação Saúde foi rescindido. A direção da Fundação Saúde renunciou. Uma investigação foi aberta.
A cadeia de responsabilidades é longa e ainda não foi totalmente apurada: quem contratou o laboratório, quem o credenciou, quem assinou os laudos, quem deveria ter conferido os processos de qualidade. Em sistemas de transplante, existe precisamente para isso uma série de verificações cruzadas. Em algum ponto dessa cadeia, algo não funcionou. Ou alguém decidiu que não precisava funcionar.
• Dezembro de 2023: PCS Saleme é contratado pela Fundação Saúde (RJ)
• Outubro de 2024: Seis pacientes recebem órgãos contaminados com HIV
• Outubro de 2024: Caso vem a público; laboratório interditado, contrato rescindido, direção da Fundação renuncia
• Julho de 2025: Pacientes são indenizados pelo Governo do Estado
• 18 de março de 2026: Uma das seis vítimas morre; causa em investigação
• Classificação oficial: "sem precedentes e inadmissível"
Ela era monitorada todos os dias — e morreu assim mesmo
A Secretaria de Estado de Saúde informou que a paciente "vinha recebendo total assistência, era monitorada diariamente pela equipe multidisciplinar." Ela havia sido indenizada em julho de 2025 e recebia suporte psicológico contínuo para familiares. Isso é o mínimo que o Estado poderia oferecer — e foi o que ofereceu.
Mas "monitorada diariamente" não desfaz o que aconteceu. Uma mulher de 64 anos, que foi à fila de transplante em busca de mais vida, saiu com HIV porque um laboratório emitiu laudos que não correspondiam à realidade. O monitoramento diário é a tentativa de consertar com atenção o que foi quebrado com negligência. São categorias diferentes de problema.
O que esse caso revela sobre o sistema
O Brasil tem um dos maiores programas de transplante do mundo — mais de 20 mil procedimentos por ano. A infraestrutura existe. O conhecimento existe. A legislação existe. O que falta, ciclicamente, é a fiscalização que garante que os elos mais fracos da cadeia — como o laboratório que testa os órgãos dos doadores — não sejam também os mais negligenciados.
A terceirização de serviços críticos na saúde pública sempre foi uma faca de dois gumes: permite escala e reduz custos, mas dilui a responsabilidade. Quando dá errado, a pergunta "de quem é a culpa" tem respostas de todo mundo e de ninguém ao mesmo tempo. O laboratório erra, o contratante diz que confiava no laboratório, o órgão regulador diz que não tinha como prever. Enquanto isso, seis pessoas que estavam tentando viver mais ficaram com HIV.
O que fica
As outras cinco vítimas seguem vivas — e com HIV para o resto da vida. Receberam indenização e acompanhamento. A indenização compensa a dor? Não. O acompanhamento apaga o trauma? Também não. Mas é o que o Estado pode dar quando não consegue dar de volta o que tirou.
A paciente que morreu em março tinha 64 anos e havia passado por um transplante. Talvez estivesse mal antes mesmo do HIV. Talvez a doença tenha acelerado o que já estava frágil. A investigação vai apurar. O que a investigação não vai mudar é o fato de que ela entrou no sistema de saúde em busca de cura e saiu de lá com uma infecção que não deveria ter.
Sistemas de saúde são tão seguros quanto sua cadeia mais fraca. E quando essa cadeia é um laboratório contratado para conferir se um órgão tem HIV, não existe margem para descuido. Nenhuma.
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