28% dos acidentes em rodovias têm origem na saúde do motorista — e o sono lidera
Levantamento da Abramet com dados de dez anos analisou 4,3 milhões de sinistros nas estradas federais. Mais de 1,2 milhão tiveram causa relacionada à saúde — fadiga, sono, mal súbito, transtornos mentais. Combinado com fator humano, esse conjunto explica 80% das ocorrências.
Você dirige no fim do dia depois de uma reunião pesada, sente o cansaço chegar, abre a janela, liga o som mais alto. Conhece o truque? Pois saiba que ele tem nome em medicina ocupacional — comportamento de compensação ineficaz para sonolência ao volante — e está entre as causas mais subestimadas de acidente grave no país. O dado que confirma sai esta semana: a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) revisou dez anos de sinistros em rodovias federais brasileiras e chegou a um número desconfortável.
Entre 2014 e 2024, o Brasil registrou 4.339.762 sinistros em rodovias federais. Desses, 1.206.491 tiveram causa direta na saúde do motorista. É 27,8% do total — quase um em cada quatro acidentes. Some isso ao chamado "fator humano" (49% dos sinistros, que inclui ultrapassagem proibida, excesso de velocidade, desrespeito à sinalização) e você chega ao número que melhor resume o trânsito brasileiro: 80% das ocorrências em estradas federais nasce dentro do motorista, não fora dele.
O que entra em "saúde" segundo a Abramet
Quando a Abramet diz "saúde", não está falando só de cardiopata que infartou ao volante. O grupo concentra um leque amplo de condições: ausência de reação por sono, falta de atenção, transtornos mentais, mal súbito (infarto, AVC, crise hipertensiva, hipoglicemia), uso de substâncias (álcool e drogas, lícitas e ilícitas), problemas oculares não corrigidos, problemas neurológicos, distúrbios motores. É a soma de tudo que o motorista carrega para dentro do veículo e que, num dado momento, falha.
A grande surpresa do levantamento — e o ponto que merece atenção da medicina ocupacional brasileira — é o peso dos distúrbios do sono. Apneia do sono não tratada, privação crônica de descanso, jornadas mal planejadas em transporte de carga e passageiros. Estima-se que 30% dos brasileiros tenham algum grau de apneia obstrutiva do sono, e a maioria não sabe. O motorista profissional, em particular, opera muitas vezes em quadro clínico que, num exame ocupacional bem-feito, exigiria afastamento ou tratamento — e que, na prática, segue não diagnosticado.
O mapa do problema
Roraima lidera o ranking estadual com 35,1% dos acidentes ligados à saúde — sete pontos acima da média nacional. Em seguida vêm Mato Grosso do Sul (32,1%), Pará (30,3%), Rio Grande do Sul (30,1%) e Piauí (30%). São estados com características distintas: alguns concentram transporte agrícola pesado em longas distâncias, outros têm rodovias em má conservação que exigem mais atenção do motorista, alguns têm clima que castiga (calor extremo, frio noturno) e amplia fadiga. A geografia da fadiga ao volante reflete a geografia do trabalho rodoviário brasileiro.
Nos volumes absolutos, Minas Gerais lidera o ranking — 154.648 sinistros associados à saúde em dez anos. Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo completam o top 5. Não por coincidência, são os estados com maior densidade de rodovias federais e maior fluxo de transporte de longa distância. Quanto mais quilômetros rodados, mais oportunidades para a fadiga, o sono e o mal súbito cobrarem sua fatura.
O que a regulamentação atual não resolve
O motorista profissional brasileiro precisa renovar exame médico periódico. Esse exame inclui aferição de pressão, avaliação visual, anamnese rápida sobre uso de medicamentos. Não inclui, na maioria dos consultórios credenciados, polissonografia para apneia do sono, teste cognitivo aprofundado, avaliação psiquiátrica estruturada. O resultado é um sistema que detecta o cardiopata grave, mas deixa passar o motorista com 28 episódios de apneia por hora — exatamente o perfil que tem chance dobrada de capotar na BR-101 às três da manhã.
A Lei do Motorista (13.103/2015) estabeleceu jornadas máximas e pausas obrigatórias para profissionais de transporte de carga. Foi avanço importante na época. Uma década depois, a fiscalização do cumprimento da lei segue irregular. Caminhoneiro pago por entrega, em pressão de prazo apertado, dorme menos do que deveria, dirige mais do que pode, ignora o intervalo de quinze minutos a cada quatro horas. A multa, quando vem, é menor do que o frete a mais. A conta fecha pelo lado errado.
• 4.339.762 sinistros totais
• 1.206.491 com causa relacionada à saúde — 27,8% do total
• 49% têm origem no fator humano (comportamento)
• 80%: combinação saúde + comportamento
• Estados acima da média: RR (35%), MS (32%), PA, RS, PI
• Maior volume absoluto: Minas Gerais (154 mil)
• Principais condições: sono, fadiga, mal súbito, transtornos mentais
O que cada motorista pode fazer já
Existe uma checklist clínica resumida para quem pega estrada com frequência: dormir pelo menos sete horas na noite anterior; não dirigir nas duas primeiras horas após as refeições principais (sonolência pós-prandial é real e bem documentada); fazer pausa de 15 minutos a cada duas horas em viagem longa; não confiar em truques de "ar gelado e música alta" — eles não revertem privação de sono, apenas mascaram por minutos; investigar ronco persistente com médico, porque pode ser apneia; revisar com cuidado bula de qualquer remédio antes de pegar o volante, especialmente anti-histamínicos, ansiolíticos e antidepressivos.
Em saúde pública, o número de hoje serve como espelho. Trinta por cento dos sinistros em rodovias federais com causa na saúde do condutor é estatística que países com regulação séria de medicina de tráfego — Alemanha, Reino Unido, Austrália — não toleram. A combinação de exame ocupacional rigoroso, fiscalização efetiva da jornada e investigação obrigatória de apneia em motoristas profissionais reduziria, segundo a própria Abramet, parcela significativa do total. O que separa o Brasil dessa redução não é tecnologia. É vontade. E sono — ironia das ironias — sobra.
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