A vacina da gripe pode salvar quem já teve AVC — e 40% de risco é coisa séria

A vacina da gripe pode salvar quem já teve AVC — e 40% de risco é coisa séria

Estudo brasileiro com 1.801 pacientes mostra que dose dupla da vacina contra influenza durante internação reduz em 20% os eventos cardiovasculares em quem já sofreu derrame cerebral

SaúdeCidade ·

Você já teve AVC — ou conhece alguém que teve. Sabe que é um evento que divide a vida em antes e depois. O que talvez você não saiba é que, depois de um AVC, a probabilidade de ter outro evento cardiovascular grave — um segundo derrame, um infarto, uma pneumonia que vira sepse — é de cerca de 40% nos doze meses seguintes. Quarenta por cento. Não é uma estatística para ficar confortável.

É nesse contexto que um estudo brasileiro publicado no International Journal of Stroke — um dos principais periódicos mundiais de neurologia vascular — apresenta um resultado que vai além da vacinação convencional: dar dose dupla da vacina da gripe durante a internação hospitalar pode reduzir em 20% esses eventos cardiovasculares em pacientes que já tiveram AVC. Parece simples demais para ser verdade. Mas é exatamente o que os dados mostram.

O estudo VIP-ACS: metodologia e o que ele mediu

O estudo chama-se VIP-ACS e foi coordenado pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Conduzido entre 2019 e 2022 — antes e durante a pandemia, o que por si só já é uma prova de robustez logística —, envolveu 1.801 participantes internados em 30 centros de pesquisa distribuídos pelo Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste. Noventa por cento dos participantes eram pacientes do SUS.

A metodologia foi simples e elegante: metade recebeu dose dupla da vacina influenza durante a própria internação. A outra metade recebeu a dose padrão cerca de 30 dias após a alta. Todos foram acompanhados por 12 meses.

Resultados do estudo VIP-ACS (Einstein Hospital, publicado no International Journal of Stroke):

1.801 participantes em 30 centros de pesquisa brasileiros (2019-2022)
90% eram pacientes do SUS
• Pacientes com histórico de AVC que receberam dose dupla: 20% menos eventos cardiovasculares
• Pacientes sem histórico de AVC prévio: sem diferença significativa entre estratégias
• Vacinação durante internação: segura, factível e com maior taxa de adesão
• Risco de base para quem já teve AVC: ~40% de chance de novo evento cardiovascular em 12 meses

Por que a gripe e o coração estão mais conectados do que parecem

A ligação entre influenza e eventos cardiovasculares não é nova, mas ainda surpreende muita gente. O vírus da gripe desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica intensa — e inflamação é exatamente o ambiente que instabiliza placas de aterosclerose nas artérias, aumenta a viscosidade do sangue e favorece a formação de coágulos.

Para quem já tem um sistema cardiovascular comprometido — como acontece em quem sobreviveu a um AVC —, essa inflamação adicional pode ser o empurrão que falta para que uma placa instável se rompa e entupa uma artéria coronária ou cerebral. É o mesmo mecanismo pelo qual estudos históricos mostram que internações por infarto aumentam significativamente nas semanas seguintes a epidemias de gripe.

A vacina reduz a carga viral, reduz a inflamação sistêmica, e — como o VIP-ACS mostra — parece ter um efeito cardiovascular que vai além da simples prevenção da pneumonia.

A lógica de vacinar durante a internação

Um dos achados secundários mais interessantes do estudo é a estratégia em si: vacinar durante a internação. Para pacientes vulneráveis que muitas vezes não voltam ao posto de saúde com a regularidade que deveriam, a internação hospitalar é uma janela de oportunidade. O paciente já está lá, já está sendo monitorado, e receber a vacina em ambiente controlado é tanto seguro quanto eficiente.

É o tipo de intervenção que parece óbvia depois que você ouve, mas que raramente está incorporada nos protocolos dos pronto-socorros e enfermarias brasileiras. Quantas pessoas saem de uma internação por AVC sem ter recebido uma vacina que poderia reduzir em 20% o risco de voltar para a mesma enfermaria?

O que isso significa na prática para pacientes e familiares

Se você ou alguém da sua família teve AVC, há uma conversa concreta que vale ter com o médico neurologista ou cardiologista: a vacinação para influenza está em dia? Deveria ser feita em dose dupla? A campanha nacional de vacinação contra gripe acontece todo ano em abril — que é exatamente agora.

O SUS oferece a vacina gratuitamente para grupos de risco, e pessoas com sequelas de AVC ou doenças cardiovasculares crônicas se enquadram nessa categoria. Não tem justificativa logística para não estar vacinado.

Vinte por cento pode parecer um número modesto. Mas quando você tem 40% de chance de base de ter um evento grave nos próximos doze meses, reduzir esse risco em um quinto é a diferença entre um AVC e uma tarde em casa. E essa é a conta que vale fazer.

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