A busca por tratamento contra o vício em bets cresceu 140% no SUS
Em cinco anos, mais que dobrou a procura por atendimento de saúde mental ligado às apostas online. Em 2025, foram 25 milhões de apostadores e R$ 38 bilhões em perdas. O cassino mudou de endereço: agora mora no seu bolso.
O cassino antigo tinha porta, tinha endereço, tinha hora de fechar. Você precisava sair de casa, atravessar a cidade, encarar o segurança. Havia atrito — e atrito, em vício, é proteção. O cassino de hoje cabe no bolso, abre 24 horas, aceita Pix e te chama pelo primeiro nome em uma notificação. O atrito sumiu. E a conta dele acabou de aparecer na porta do SUS.
A procura por atendimento de saúde mental relacionado ao vício em apostas online cresceu 140% no SUS em cinco anos. Não é um susto isolado: é a curva de um problema que saiu do nicho e virou demanda de sistema público, daquelas que enchem CAPS e ambulatório.
O tamanho do tabuleiro
Para entender a enchente, olhe a chuva. Em 2025, o Brasil tinha mais de 25 milhões de apostadores ativos — cerca de 18% da população adulta. Quase um em cada cinco adultos. As perdas somaram R$ 38 bilhões no ano, e o volume total apostado chegou a quase dez vezes esse valor. Não é dinheiro de mesada: é renda de família saindo pelo ralo digital.
E a distribuição da dor não é uniforme. Cerca de 20% dos apostadores jogaram em torno de R$ 1.000 por mês — gente fisgada de verdade. Outros 50% gastaram até R$ 50 em alguns meses, o suposto "joguinho controlado". O problema é que o controlado de hoje é, com frequência, o descontrolado de daqui a um ano.
• +140% na busca por tratamento no SUS em 5 anos
• 25+ milhões de apostadores ativos
• ~18% da população adulta aposta
• R$ 38 bilhões em perdas só em 2025
• 20% apostaram cerca de R$ 1.000/mês
• 500 mil+ pediram autoexclusão das plataformas em junho de 2026
Fonte: Ministério da Saúde
Por que o cérebro cai nessa
Vício em aposta não é falta de caráter — é sequestro de um circuito antigo. "Começa com a vitória, que estimula a continuar jogando. Quando as perdas se acumulam, ativa-se um mecanismo comum do transtorno do jogo: a tentativa de recuperar o que se perdeu", explica o Ministério da Saúde. É a famosa corrida atrás do prejuízo — e ela acelera quanto mais fundo o buraco.
O detalhe perverso é que os aplicativos são desenhados para isso. Reguladores identificaram padrões manipulativos como o "quase-ganho" — aquela tela em que você perdeu por pouco, mas a animação comemora como se tivesse ganhado. É o "ganho negativo": você sai com menos dinheiro e mais dopamina. Se um cassino físico fizesse isso com luzes e som a cada derrota, chamaríamos de fraude. No celular, chamamos de "experiência do usuário".
O atendimento que está chegando
Do lado de quem trata, houve movimento. O Ministério da Saúde lançou uma plataforma de avaliação online no Meu SUS Digital, em que a pessoa faz um autoteste de gravidade da dependência antes de ser encaminhada ao atendimento de saúde mental. É um filtro útil: tira o jogador da vergonha do balcão e o coloca na fila certa, com triagem.
E o desejo de parar existe. Mais de 500 mil pessoas pediram autoexclusão definitiva dos cadastros de apostas em junho de 2026, a maioria alegando perda de controle. Meio milhão de pessoas levantando a mão para dizer "me tirem daqui" não é fraqueza — é diagnóstico coletivo.
O que fazer se a ficha caiu (a sua, não a da aposta)
Os sinais são conhecidos: apostar valores crescentes para sentir a mesma emoção, mentir sobre quanto perdeu, pegar dinheiro emprestado para continuar, brigar em casa por causa de saldo. Se bateu, procure uma UBS e peça encaminhamento para o CAPS — o atendimento é gratuito. Use o autoteste do Meu SUS Digital. E ative a autoexclusão: ela bloqueia seu acesso às plataformas regulamentadas, transformando a vontade momentânea de parar em barreira concreta.
O Estado legalizou o jogo e arrecada com ele. O mínimo que se espera, agora, é que pague também a conta da saúde mental que ajudou a criar. Enquanto isso, vale lembrar de uma matemática que o aplicativo nunca te mostra na tela colorida: a casa sempre ganha — e, no fim, é o SUS que paga a fatura.
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