Anabolizantes inflam músculo — e também inflam o coração até ele parar

Anabolizantes inflam músculo — e também inflam o coração até ele parar

A morte do fisiculturista Gabriel Ganley aos 22 anos por cardiomiopatia hipertrófica jogou luz outra vez no fenômeno crescente do uso de esteroides na academia. Não foi o primeiro. Não vai ser o último. E o coração, ao contrário do bíceps, não te avisa quando passa do ponto.

SaúdeCidade ·

Gabriel Ganley tinha 22 anos, 1,7 milhão de seguidores no Instagram e uma estatística pessoal que ele compartilhava sem rodeios — usava hormônios anabolizantes na preparação. Era influenciador fitness, ostentava físico de fisiculturista, vendia consultoria de treino. Morreu em maio, e a causa registrada no atestado foi cardiomiopatia hipertrófica. Quando a notícia bateu, todo mundo do mundo da musculação fez a mesma cara: a de quem já viu esse filme.

Esteroides anabolizantes são versões sintéticas da testosterona. Existem, na medicina, para situações específicas — reposição em homens com hipogonadismo, alguns quadros oncológicos, certas anemias. Existem também, no mercado paralelo, para qualquer um que queira músculo rápido. O Brasil proíbe esse uso, mas a proibição funciona com a mesma eficácia da proibição de cigarro na escola: existe, vira piada, e o produto está na mão de qualquer um que pergunte.

Por que o coração também cresce

A explicação é tão simples quanto inquietante. "O coração cresce acima do normal porque ele também é um músculo", resumiu o cardiologista Herbert Lima Mendes. Os anabolizantes não escolhem qual músculo aumentar. Eles estimulam crescimento celular onde houver receptor — bíceps, peitoral, quadríceps, e dentro do peito, na parede do ventrículo esquerdo, que é o músculo mais importante da história natural humana.

Esse crescimento anormal do coração se chama cardiomiopatia hipertrófica. A parede vai engrossando, o ventrículo vai ficando rígido, o sangue tem cada vez menos espaço para entrar e ser bombeado. O coração começa a trabalhar mais para conseguir menos. Em algum momento — pode demorar anos, pode acontecer numa quarta-feira aleatória durante a série de agachamento — ele falha. Frequentemente o primeiro sintoma é também o último: morte súbita.

Sinais de alerta para checar o coração:

• Falta de ar em esforços que antes faziam fácil
• Dor no peito, especialmente durante atividade física
• Tontura ou pré-síncope (sensação de quase desmaiar)
• Desmaios, especialmente em atletas jovens
• Palpitações persistentes

Quem deve fazer avaliação cardiológica preventiva:
• Praticantes de fisiculturismo
• Atletas de alta performance (triatlo, maratona, crossfit)
• Qualquer pessoa que use ou já usou anabolizantes
• Histórico familiar de morte súbita em jovens

Exames básicos de rastreamento:
• Eletrocardiograma
• Ecocardiograma
• Avaliação clínica anual com cardiologista

O fator genético que ninguém quer discutir

Marcely Bonatto, diretora da Sociedade Brasileira de Cardiologia, fez questão de pontuar uma parte da história que pode atrapalhar conclusões fáceis. A cardiomiopatia hipertrófica é uma condição genética relativamente comum — atinge cerca de 1 em cada 500 pessoas, frequentemente sem dar sintoma nenhum até um evento agudo. Ganley pode ter sido um desses casos. Pode ser que ele já carregasse a tendência, e que os anabolizantes tenham sido o gatilho, não a causa única.

Isso, em vez de aliviar o caso, complica. Porque ninguém sabe se carrega o gene até checar. E os anabolizantes, agindo sobre um coração que já vem com a tendência embutida, podem antecipar em décadas um evento que talvez nunca acontecesse na vida sedentária. A pergunta deixa de ser "anabolizante mata?" e vira: "anabolizante faz cardiomiopatia silenciosa virar cardiomiopatia mortal?" A resposta é sim, e em jovem, com frequência maior do que a estatística de academia gostaria de admitir.

A indústria paralela do "ciclo"

O outro lado do problema é estrutural. Marcely descreve no consultório um perfil cada vez mais comum: paciente entre 30 e 40 anos, físico de capa de revista, e coração condizente com um homem de 70. Geralmente o ciclo de anabolizante foi prescrito por "profissional de academia" — eufemismo para personal sem formação médica, para nutricionista que extrapolou o escopo, para o amigo do amigo da farmácia clandestina. Sem ecocardiograma prévio, sem dosagem hormonal, sem acompanhamento. Quando o sintoma aparece, o dano já está feito — e em alguns casos exige transplante cardíaco.

O ponto cego cultural é confortável: anabolizante é tabu, então não se conversa. Quem usa esconde, quem não usa julga, e quem deveria orientar (médico, profissional da educação física com curso real) não consegue chegar perto. O resultado é que a próxima morte vai aparecer no feed da mesma forma — pessoa jovem, físico inverossímil, atestado igual.

O que dá pra fazer (mesmo sabendo que ninguém quer)

"Nem sempre a gente deveria esperar sintomas", disse Bonatto. A frase é também a estratégia. Se você usa, já usou, ou está pensando em usar anabolizantes — independentemente do julgamento moral da decisão — faça eletrocardiograma e ecocardiograma. Os exames são baratos no convênio, disponíveis no SUS para indicação clínica, e detectam a hipertrofia muito antes do sintoma. Se houver histórico familiar de morte súbita em pessoa jovem, redobre.

Para quem não usa: vale entender que falta de ar nova durante exercício, dor no peito ao esforço, tontura inexplicada ou desmaio durante treino são sinais que merecem cardiologista, não "vou tomar mais água amanhã". Cardiomiopatia hipertrófica é a principal causa de morte súbita em atletas jovens. Não é doença velha de fumante. É a doença que se esconde no ventrículo de um corpo que, por fora, parece o de um superatleta.

O músculo que cresce na barra é o último a falhar. Aquele que pulsa atrás do esterno avisa pouco e cobra rápido. Vale checar o que está em silêncio antes que ele resolva gritar.

Compartilhar: