O painel de qualidade hospitalar da ANS repousa sobre 57 hospitais — de 209 que assinaram o compromisso de enviar

O painel de qualidade hospitalar da ANS repousa sobre 57 hospitais — de 209 que assinaram o compromisso de enviar

Análise do SaúdeCidade cruzando dois documentos públicos da própria ANS: a relação de hospitais com completude de dados no ano-base 2024 e a lista de participantes do PM-QUALISS. A taxa de completude entre os elegíveis é de 27,3%. O join por CNES fecha sem órfãos, e o resultado sobrevive a todos os cortes de elegibilidade testados.

SaúdeCidade ·

Em fevereiro deste ano a ANS deu um passo relevante: tornou públicos, pela primeira vez, os resultados do Programa de Monitoramento da Qualidade Hospitalar (PM-QUALISS), ano-base 2024. Mortalidade institucional, infecção relacionada à internação, quedas com dano, eventos sentinela — indicadores que o setor privado brasileiro tratava como informação interna passaram a ter painel público.

A leitura corrente desde então, reforçada nesta quarta-feira (19) pelo anúncio de que 52 hospitais privados passariam a abrir dez indicadores assistenciais, é a de um movimento consolidado de transparência.

Faltava uma pergunta de rotina, do tipo que se faz antes de usar qualquer base: quantos hospitais efetivamente entregaram o dado?

A própria ANS publica a resposta — em outro arquivo, num PDF discreto, sem manchete. Cruzamos os dois documentos.

O que foi cruzado

Dois insumos públicos, ambos hospedados no portal da ANS:

(1) Relação de Hospitais com Completude de Dados Ano-Base 2024 — tabela com CNES, CNPJ, nome fantasia, razão social, UF e município. 57 registros, 57 CNES únicos.

(2) Relação de Hospitais que Ingressaram no Programa de Monitoramento da Qualidade Hospitalar, atualizada em 16/07/2026 — nome, razão social, município, UF, tipo de unidade, CNES e, decisivamente, ano de entrada no programa. 304 registros.

A chave de junção é o CNES. O join é limpo: os 57 hospitais com completude estão todos na lista de participantes — zero órfãos. Não há registro na relação de completude sem correspondência do outro lado, o que descarta a hipótese de as duas listas descreverem universos diferentes.

A coluna de ano de entrada permite a única correção metodológica que importa aqui: não é razoável cobrar completude de 2024 de quem entrou em 2025 ou 2026. Por isso o denominador não são os 304, e sim os elegíveis.

Taxa de completude no PM-QUALISS, ano-base 2024, por corte de elegibilidade:

• Entraram até 2022: 47 de 12537,6%
• Entraram até 2023: 51 de 17329,5%
• Entraram até 2024: 57 de 20927,3%

Universo total de participantes (16/07/2026): 304 hospitais
Entradas por ano: 2022 (125) · 2023 (48) · 2024 (36) · 2025 (54) · 2026 (41)
Registros com completude: 57 · órfãos no join por CNES: 0

O achado não depende do corte escolhido. No cenário mais generoso possível para o programa — considerar elegível apenas quem já estava dentro desde 2022, com três anos de rodagem —, a completude é de 37,6%. No corte mais natural, 27,3%.

Por que "completude" não é uma métrica nossa

Este ponto merece precisão, porque é o que separa uma crítica editorial de um dado.

O Edital PM-QUALISS lista o que o hospital participante se compromete a fazer ao ingressar. O item 5 é explícito: "Enviar os dados referentes aos indicadores do painel geral, de acordo com os critérios dispostos nas fichas técnicas, para todas as competências de cada ano-base (janeiro a dezembro)". O item 6 acrescenta o compromisso de autorizar a divulgação anual dos resultados.

Ou seja: a régua de completude é a do próprio programa, aceita formalmente por cada participante via Termo de Compromisso. Os indicadores do painel geral são obrigatórios no ciclo; opcionais são apenas os de cinco linhas de cuidado (AVC, síndrome coronariana aguda, sepse e choque séptico, artropatia de quadril, câncer de próstata e câncer de mama).

Vale registrar ainda a barreira de entrada: pelo edital, só participa quem tem certificado de acreditação ou certificação de qualidade emitido por acreditadora do QUALISS reconhecida pela ISQua. Não é uma amostra de hospitais brasileiros — é um subconjunto já selecionado por acreditação, e mesmo nele a taxa de entrega fica abaixo de um terço.

A distribuição geográfica agrava o problema

Se a completude fosse uma perda aleatória, o viés seria de precisão, não de representatividade. Não é o caso.

Os 304 participantes estão em 24 unidades da federação. Os 57 com completude, em 16. Existem 8 UFs com hospital participante e nenhum hospital com dado completo: AM, GO, MA, PA, PB, PI, SE e TO.

Além disso, 44 dos 57 — 77% — estão no Sudeste ou no Sul.

E a taxa varia de forma que não acompanha o volume de participantes:

Completude por UF (participantes → com completude):

SP: 93 → 16 (17,2%)
RJ: 35 → 4 (11,4%)
RS: 31 → 9 (29,0%)
MG: 27 → 4 (14,8%)
PR: 15 → 1 (6,7%)
SC: 14 → 8 (57,1%)
DF: 12 → 3 (25,0%) · ES: 12 → 2 (16,7%)

8 UFs com participante e zero completude: AM, GO, MA, PA, PB, PI, SE, TO

São Paulo concentra quase um terço dos participantes e entrega 17,2%. Santa Catarina, com 14 participantes, entrega 57,1% — a maior taxa entre os estados com volume relevante. A dispersão sugere que a variável explicativa não é porte da rede nem densidade assistencial, e sim algo mais prosaico: capacidade instalada de gestão da informação — equipe de qualidade, prontuário estruturado, alguém encarregado de alimentar o SIHOSP doze meses por ano.

Um detalhe do perfil reforça a leitura: entre os 57, 27 são hospitais de operadoras Unimed e 18 são santas casas, fundações ou entidades beneficentes. Entre os chamados hospitais de excelência, aparecem na relação de completude o Albert Einstein e o Oswaldo Cruz.

O que isso faz com o painel

Nada disso invalida os números publicados. O que muda é o que se pode concluir a partir deles.

Primeiro: o painel não descreve o setor. Descreve os 57 hospitais que entregaram — que são, por construção, os que tinham maturidade de informação suficiente para entregar. Qualquer estatística agregada extraída dali (mediana de infecção, distribuição de mortalidade, benchmark) é uma estatística desse grupo.

Segundo: a direção do viés é previsível. Instituição que consegue produzir doze competências consistentes de indicador assistencial não é uma instituição qualquer — é uma instituição com estrutura de qualidade funcionando. É razoável supor que os indicadores dos ausentes sejam, em média, piores que os dos presentes. Se for, o painel é otimista por seleção, não por manipulação.

Terceiro: comparações entre hospitais dentro do painel continuam válidas; comparações entre estados não. Dizer que a saúde suplementar do Paraná tem indicador X com base em um único hospital com completude é ruído com aparência de dado.

É o padrão clássico de programa voluntário: quem tem o pior número tem o maior incentivo para não aparecer. A adesão mede, entre outras coisas, disposição a ser medido — e disposição a ser medido correlaciona com qualidade, o que torna o viés difícil de separar do sinal.

Ressalvas honestas

Três, e nenhuma delas derruba o resultado — mas todas mudam a frase exata que se pode escrever.

1. "Completude" é um critério técnico da ANS, não um binário "enviou / não enviou". Parte dos 152 ausentes pode ter enviado dados que não atingiram o critério de completude do programa. A afirmação correta é "não atingiram completude", não "não enviaram nada". Para o efeito prático — o que sustenta o painel — dá no mesmo: são 57.

2. As duas listas têm datas de referência diferentes. A relação de participantes é de 16/07/2026; a de completude, do ano-base 2024. O corte por ano de entrada corrige a assimetria óbvia (os 95 que entraram em 2025 e 2026 saem do denominador), mas não corrige eventuais saídas do programa entre 2024 e 2026 — hospitais que estavam dentro em 2024 e depois deixaram o programa podem não constar mais da lista de julho de 2026. Isso, se existir, infla a taxa que calculamos, não a reduz.

3. Os valores dos indicadores em si não entram nesta análise. Eles vivem em um painel Power BI embarcado no site da ANS, sem CSV correspondente no Programa de Dados Abertos. Esta análise trata de cobertura, não de desempenho.

Reprodutibilidade

Os dois insumos são PDFs públicos no domínio gov.br/ans, na seção do QUALISS. Para quem quiser refazer o cálculo:

Insumos (extraídos em 19/08/2026):

Hospitais_Completude_PMQualiss_anobase_2024.pdf
  106.092 bytes · sha256 416255277157f4ac…a8d334e

Lista_de_Hospitais_Participantes_atualizada_16.07.2026.pdf
  276.523 bytes · sha256 71301dce9f447165…a2741331

Método: extração de texto com layout preservado; chave CNES normalizada (remoção de hífen e zeros à esquerda); denominador filtrado por ano de entrada ≤ ano-base.
Checagem de parse: 304 registros pelo padrão estrito = 304 linhas não-cabeçalho do PDF.

O que seria preciso para fechar a lacuna

A crítica útil aqui não é ao programa — é ao que falta nele para virar instrumento regulatório de fato.

Publicar a taxa de completude junto com o painel. O número existe, está calculado e é publicado em separado. Colocá-lo ao lado dos resultados transforma uma armadilha de interpretação em contexto.

Publicar os microdados no PDA. Painel em Power BI não é dado aberto — não permite auditoria independente, série histórica nem verificação de derivação. O IDSS das operadoras já vive no Programa de Dados Abertos com CSV histórico desde 2016; não há razão técnica para o hospitalar não seguir o mesmo caminho.

Tratar a não entrega como informação regulatória. Num programa em que a participação é voluntária mas o compromisso de envio é formal, a lista de quem assinou e não entregou é, em si, um indicador — e provavelmente um dos mais informativos do conjunto.

A ANS fez a parte difícil: montou o programa, definiu fichas técnicas, construiu o sistema de coleta e abriu o painel. O que falta é menor e mais incômodo — dizer, no mesmo lugar em que se mostram os resultados, sobre quantos hospitais eles repousam.

Cinquenta e sete. De duzentos e nove que se comprometeram a entregar.

Compartilhar: