Cinquenta e dois hospitais decidiram contar quanta gente morre neles — e isso deveria ser banal

Cinquenta e dois hospitais decidiram contar quanta gente morre neles — e isso deveria ser banal

A partir desta quarta, um grupo de 52 hospitais privados de excelência passa a tornar públicos dez indicadores assistenciais, entre eles taxas de infecção e mortalidade hospitalar. Até agora, esses números eram tratados como confidenciais pela maioria das instituições — o que diz mais sobre o setor do que sobre os números.

SaúdeCidade ·

Você compara três orçamentos antes de trocar o para-brisa do carro. Lê quarenta avaliações antes de escolher um hotel de duas diárias. E, quando precisa internar um pai de 78 anos para uma cirurgia de fêmur, escolhe o hospital por qual deles o plano cobre e qual fica mais perto de casa.

Não é falta de critério sua. É falta de dado.

A partir desta quarta-feira (19), um grupo de 52 hospitais privados de excelência passou a tornar públicos dez indicadores assistenciais — entre eles taxa de infecção e mortalidade hospitalar, informações até então tratadas como sensíveis ou simplesmente confidenciais pela maioria das instituições brasileiras, segundo apurou a Folha de S.Paulo.

Vale registrar o tamanho da estranheza: estamos noticiando como avanço o fato de hospitais contarem quantos pacientes pegam infecção dentro deles. É um avanço real. E é também um retrato de quão baixo estava o piso.

Por que esses números eram segredo

A justificativa oficial do setor, quando o assunto vem à tona, é sempre a mesma — e não é totalmente desonesta: número solto engana.

Um hospital que só faz cirurgia eletiva de paciente jovem e saudável terá mortalidade baixíssima. Um hospital que recebe transplante, oncologia complexa e politrauma terá mortalidade mais alta — porque recebe gente mais grave, não porque cuida pior. Comparar os dois crus é como comparar a taxa de reprovação de um cursinho que só aceita aluno nota 900 com a de uma escola pública de periferia.

Isso é verdade. E é exatamente por isso que a metodologia importa tanto quanto a divulgação: indicadores hospitalares sérios são ajustados por complexidade do paciente. Sem esse ajuste, publicar a taxa crua não produz transparência — produz um incentivo perverso, o de recusar caso difícil para proteger a estatística.

Mas há também a razão que ninguém coloca em release: número de infecção hospitalar é péssimo material de marketing. E hospital de excelência, no Brasil, vende excelência.

O movimento já vinha se formando

A divulgação desta quarta não nasceu no vácuo. Ela é o terceiro ato de uma mudança que vem se acumulando desde o começo do ano.

Em fevereiro de 2026, a ANS tornou públicos, pela primeira vez no país, os resultados do Programa de Monitoramento da Qualidade Hospitalar (PM-QUALISS), com dados de 2024. Pelo painel dá para consultar taxa de mortalidade institucional, infecções relacionadas à internação, quedas com dano ao paciente, eventos sentinela — as ocorrências graves que simplesmente nunca deveriam acontecer —, além de dados sobre partos, espera na emergência e reinternações. O programa reúne cerca de 270 hospitais, todos com certificação ou acreditação de qualidade.

Em março, o Grupo IAG Saúde lançou um portal de transparência com curadoria da ONA e do ICHOM, comparando desempenho hospitalar com ajuste de complexidade clínica.

E, no pano de fundo, o Sistema de Indicadores Hospitalares da Anahp — 265 indicadores, 176 hospitais associados em 25 estados — deixou de ser um clube fechado: passou a receber instituições públicas e filantrópicas, e o Ministério da Saúde firmou acordo para usá-lo.

O que já dá para consultar sobre hospitais no Brasil:

52 hospitais privados passam a publicar 10 indicadores assistenciais (a partir de 19/8/2026)
Painel PM-QUALISS da ANS — cerca de 270 hospitais, dados de 2024, público desde fevereiro
• Indicadores disponíveis: mortalidade institucional, infecção relacionada à internação, quedas com dano, eventos sentinela, partos, reinternação, espera na emergência
Sistema Anahp — 265 indicadores, 176 hospitais associados em 25 estados
• Entre os hospitais de excelência, adesão desigual: alguns enviaram dados integrais, outros só parte

O calcanhar de aquiles: quem não manda o dado

Aqui está a parte incômoda da história. Transparência voluntária tem um problema estrutural embutido: quem tem o pior número é quem tem o maior incentivo para não participar.

Isso já apareceu nos dados da ANS. Entre os hospitais de excelência, a adesão foi desigual — alguns enviaram as informações completas, outros fizeram envio parcial. E envio parcial é uma categoria fascinante: significa que a instituição decidiu, item por item, o que o público pode saber sobre ela.

Enquanto a divulgação depender de boa vontade, o ranking que emerge não mede qualidade assistencial. Mede disposição a ser medido. São coisas correlacionadas — hospital que investe em segurança do paciente costuma ter orgulho de mostrar —, mas não são a mesma coisa.

E o SUS, onde entra nisso?

Nesta altura você já deve ter notado o buraco: tudo o que foi descrito acima é sobre o setor privado. Hospitais de excelência, saúde suplementar, beneficiários de plano.

Cerca de três em cada quatro brasileiros dependem exclusivamente do SUS. Para eles, "escolher hospital" raramente é uma decisão — é uma regulação: você vai para onde a vaga aparece. Publicar indicador de hospital privado é útil para quem tem plano; para o resto, é informação sobre um mercado ao qual não se tem acesso.

Não é motivo para desmerecer o movimento. É motivo para cobrar o passo seguinte — que, aliás, já começou a existir: a entrada de hospitais públicos e filantrópicos no sistema de indicadores da Anahp e o acordo com o Ministério da Saúde apontam para um cenário em que dá para comparar rede pública e privada com a mesma régua. Esse é o dado que muda política pública, não só decisão de consumidor.

Como usar isso sem se enganar

Se você vai comparar hospitais, três avisos práticos:

Não escolha pelo número isolado. Mortalidade sozinha não diz nada. Olhe o conjunto: infecção, reinternação em 30 dias, eventos sentinela, tempo de permanência. Um hospital com mortalidade baixa e reinternação altíssima pode estar apenas dando alta cedo demais.

Procure o ajuste de complexidade. Se a plataforma não explica como corrige o perfil de gravidade dos pacientes, o número vale pouco.

Cheque quem não está na lista. Num sistema de adesão voluntária, a ausência é informação.

Durante décadas, o paciente brasileiro escolheu hospital pelo tamanho do saguão, pelo estacionamento e pela fachada. Dez indicadores públicos não resolvem isso sozinhos, mas são a primeira vez que existe algo melhor para olhar.

A pergunta que fica de pé é simples e desconfortável: se cinquenta e dois hospitais conseguem publicar esses números, o que impede os outros?

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