Anvisa aprova mais 5 canetas de semaglutida e liraglutida — e já são 20 só em 2026
Os novos registros, publicados no Diário Oficial, são de dois fabricantes indianos e incluem a Embeltah, da Dr. Reddy's, que tinha sido barrada em abril. Três canetas são para diabetes tipo 2 e duas para obesidade. Com a patente vencida, a prateleira enche; a conta do SUS ainda espera a Conitec.
Até março deste ano, se você quisesse uma caneta de semaglutida no Brasil, a escolha era simples: Ozempic ou Wegovy, ambas da Novo Nordisk, e o preço que ela quisesse cobrar. Oito meses depois, decorar os nomes das canetas aprovadas virou exercício de memória. Neste domingo (1º), veio a notícia de mais cinco: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu os registros, publicados no Diário Oficial da União.
Com elas, segundo a Agência Brasil, a Anvisa chega a 20 canetas de agonistas de GLP-1 aprovadas em 2026. Para comparar: no fim de setembro, o próprio Ministério da Saúde contava 14 registros no ano. Em pouco mais de um mês, foram mais seis. Não é mais uma fila andando — é uma esteira.
Quem são as cinco novatas
Todas vêm de dois fabricantes indianos, a Biocon e a OneSource Specialty, e chegam ao mercado brasileiro pelas mãos de três empresas registrantes: a Farma Vision, o Aché e a Dr. Reddy's Farmacêutica do Brasil. Três são indicadas para diabetes tipo 2; duas, para obesidade, sempre associadas a dieta e exercício físico.
• Aribet (liraglutida) — diabetes tipo 2 — fabricante Biocon, registrante Farma Vision
• Embeltah (semaglutida) — diabetes tipo 2 — fabricante OneSource, registrante Dr. Reddy's
• Sevema (semaglutida) — diabetes tipo 2 — fabricante OneSource, registrante Aché
• Lyrza (liraglutida) — obesidade — fabricante Biocon, registrante Farma Vision
• Wylovol (liraglutida) — obesidade — fabricante Biocon, registrante Farma Vision
• Canetas de GLP-1 aprovadas em 2026: 20 (eram 14 no fim de setembro)
• Patente da semaglutida: extinta em março de 2026
(Fontes: Agência Brasil, Diário Oficial da União, Ministério da Saúde)
Repare que a Farma Vision ficou com três dos cinco registros, todos de liraglutida da Biocon, e com nomes diferentes para indicações diferentes. É a mesma lógica que a Novo Nordisk usou por anos com Victoza e Saxenda, ou com Ozempic e Wegovy: a mesma molécula, uma caixa para o endocrinologista do diabetes e outra para o da obesidade. A indústria indiana aprendeu rápido o manual da casa.
A Embeltah e o "não" de abril
O nome mais curioso da lista é a Embeltah. Em 13 de abril, a Anvisa publicou o indeferimento de três pedidos de canetas: duas liraglutidas da Cipla e justamente uma semaglutida da Dr. Reddy's com esse nome. Na época, a agência disse apenas que os processos não cumpriam todos os requisitos técnicos para comprovar eficácia, segurança e qualidade. A empresa disse que ia analisar os motivos.
Agora, uma Embeltah da mesma registrante aparece aprovada, fabricada pela OneSource. Traduzindo: o "não" de abril não era "nunca", era "volte com a lição de casa feita". E isso diz algo importante sobre o mercado que está se formando. A Anvisa está aprovando muito, mas não está carimbando qualquer coisa. Semaglutida é um peptídeo, e reproduzir um peptídeo de forma consistente, com a pureza e a estabilidade do original, é bem mais difícil do que copiar um comprimido de paracetamol.
Por que a prateleira encheu tão rápido
A resposta tem data: 20 de março de 2026, quando caiu a exclusividade da Novo Nordisk sobre a semaglutida no Brasil. A liraglutida já estava livre antes disso. Desde então, a Anvisa trabalha com o que o governo chama de estratégia para atrair fabricantes, e o presidente da agência, Leandro Safatle, chegou a dizer em agosto que o Brasil poderia ter o mercado de GLP-1 mais competitivo do mundo no segundo semestre.
Em julho, foram cinco semaglutidas de uma vez (Orsema, Owozy, Seemasun, Semavy e Zempneo). Em setembro, vieram as primeiras liraglutidas genéricas. Agora, mais cinco. Em agosto, a Anvisa estimava ainda ter quatro processos de liraglutida e quatro de semaglutida em análise, com outros cinco programados para 2027.
O efeito no bolso já apareceu. Segundo o Ministério da Saúde, a semaglutida que custava R$ 1,7 mil a R$ 2 mil por mês pode ser encontrada hoje por R$ 300 a R$ 400 na farmácia, uma queda de cerca de 70% em menos de um ano. Concorrência faz com preço o que nenhum discurso sobre acesso conseguiu fazer em uma década.
E o SUS nessa história?
Aqui é bom separar duas coisas que costumam vir misturadas na manchete. Registro na Anvisa significa que o produto pode ser vendido. Não significa que vai estar no posto de saúde. Quem decide isso é a Conitec, a comissão que avalia o que entra no SUS.
Em 2025, a Conitec recusou a semaglutida para obesidade por causa de um impacto estimado em R$ 8 bilhões por ano. Em 24 de setembro de 2026, o Ministério da Saúde protocolou um novo pedido para avaliar semaglutida e liraglutida contra a obesidade, apostando justamente na queda de preço. O prazo da comissão é de 180 dias, prorrogáveis por mais 90. Cada caneta nova que entra no mercado é, na prática, mais um argumento na mesa de negociação de preço do governo.
Mesmo que a resposta seja sim, o ministério já avisou que haverá critérios clínicos de acesso. Não vai ser caneta para todo mundo que quer perder cinco quilos antes do verão. Vai ser para quem tem obesidade com risco relevante à saúde.
O que fazer com tanta opção
Primeiro: caneta registrada continua sendo remédio de prescrição. A semaglutida e a liraglutida imitam o GLP-1, hormônio que o intestino libera depois das refeições e que avisa o cérebro de que você está satisfeito. Funcionam, e por isso mesmo exigem acompanhamento: náusea, vômito, perda de massa muscular e casos raros de complicações sérias estão na bula de todas elas, não só das caras.
Segundo: com mais de vinte opções legais, preço caindo mês a mês e farmácia vendendo com receita, não existe mais nenhuma desculpa para comprar caneta em perfil de rede social, "importada do Paraguai" ou manipulada em fundo de quintal. A Anvisa continua apreendendo produto falso, e as apreensões em Foz do Iguaçu cresceram cerca de 1.000% em um ano. Se o preço do anúncio parece bom demais, é porque o que vem dentro não é o que diz a etiqueta.
Terceiro: se você usa uma caneta e o médico sugerir trocar por outra marca da mesma molécula, pergunte sobre dose e equivalência. A substância é a mesma, mas o dispositivo, a graduação e o esquema de aumento de dose podem mudar.
Em março, a semaglutida era um produto de luxo com dono. Em novembro, é uma prateleira com vinte nomes e preço em queda. Só falta o último degrau, que não depende da Anvisa: transformar a prateleira em direito para quem não pode pagar nem R$ 300.
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