O ursinho que escuta, lembra e diz que te ama — pediatras pedem cautela
A Sociedade Brasileira de Pediatria publicou nota de alerta sobre brinquedos com inteligência artificial: microfone, câmera, internet, coleta de dados e uma amizade simulada que a criança pode levar a sério. O conselho é direto: se o fabricante não explica o que faz com os dados do seu filho, não compre.
Lembra do seu brinquedo favorito de infância? Ele não sabia o seu nome, não lembrava do que você contou ontem e, com certeza, não mandava nada disso para um servidor do outro lado do mundo. Era você quem fazia a voz dele. Essa divisão de trabalho, em que a criança imagina e o brinquedo obedece, está acabando, e os pediatras brasileiros resolveram avisar.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou uma nota de alerta sobre brinquedos com inteligência artificial, assinada pelo Grupo de Trabalho de Saúde Digital e lançada durante o 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Belo Horizonte (13 a 17 de outubro). O documento não proíbe nada e não demoniza a tecnologia. Faz algo mais útil: ensina os pais a fazer as perguntas que o fabricante preferia que ninguém fizesse.
Não é um brinquedo, é um computador de pelúcia
O ponto de partida da SBP é técnico. Os brinquedos com IA generativa, a mesma família de tecnologia dos chatbots, reconhecem voz e imagem, guardam informações, adaptam as respostas e mantêm conversas que não são inteiramente pré-programadas. Traduzindo: nem o fabricante sabe exatamente o que o ursinho vai dizer ao seu filho às nove da noite.
E, uma vez conectado, esse brinquedo pode ter microfone, câmera e acesso integral à internet, além de coletar dados e usar mecanismos de personalização e engajamento. O termo "engajamento" deveria acender a mesma luz amarela que acende quando aparece em rede social: é o nome técnico para "fazer a criança voltar sempre".
Não é preocupação teórica. Em agosto, um estudo da Secretaria Nacional de Direitos Digitais, do Ministério da Justiça, com a UFRPE, analisou seis brinquedos com IA vendidos em marketplaces nacionais e apontou risco de manipulação emocional, coleta intensiva de dados e possível desacordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Lá fora, no fim de 2025, um ursinho conversador vendido nos Estados Unidos saiu das prateleiras depois que pesquisadores de uma entidade de defesa do consumidor mostraram que ele topava falar de facas, fósforos e temas sexuais com quem perguntasse.
• 1. O que essa tecnologia acrescenta à brincadeira?
• 2. A criança participa ativamente ou o brinquedo faz quase tudo por ela?
• 3. Usa IA generativa? Tem câmera, microfone ou conexão com a internet?
• 4. A indicação etária e a supervisão parental estão claras?
• 5. O que acontece com os dados da criança?
• 6. Expõe a criança a perfilamento, publicidade, compras ou assinaturas?
• 7. O produto simula amizade, afeto, cuidado ou apoio emocional?
• 8. A criança entende, conforme a idade, que fala com uma IA e não com uma pessoa?
• 9. Que lugar isso ocupa na rotina, frente a sono, movimento, brincadeira livre, leitura e convivência?
(Fonte: Nota de Alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria, outubro de 2026)
O amigo que nunca discorda
A parte mais delicada do alerta não é sobre dados, é sobre afeto. A SBP lembra que a IA pode usar linguagem carinhosa e empática, mas não é uma pessoa. Cita uma revisão publicada na revista Pediatrics que aponta o risco de crianças desenvolverem a percepção equivocada da IA como amiga ou cuidadora. O Unicef vai na mesma linha ao alertar para os chamados AI companions, produtos que estimulam conversas de relacionamento e podem causar dependência.
Pense no que um amigo de verdade ensina a uma criança de cinco anos: esperar a vez, perder no jogo, lidar com o colega que não quer brincar hoje. Agora pense num amigo que está sempre disponível, sempre de bom humor, sempre concorda e nunca vai embora. Parece ótimo. É exatamente o problema. Relação sem atrito é treino para nada.
Os pediatras admitem que os efeitos de longo prazo sobre saúde mental e comportamento ainda não estão mapeados, e fazem questão de dizer que isso não é motivo para relaxar: "a incerteza científica não significa ausência de riscos". A frase merecia estar impressa na caixa de cada um desses produtos.
Seus direitos, que a caixa não conta
O alerta também lembra que a lei já está do lado das famílias. O ECA Digital obriga fornecedores a informar pais, crianças e adolescentes sobre riscos e medidas de segurança, inclusive privacidade, independentemente de a compra ter sido feita. A LGPD garante o direito de pedir acesso, correção e eliminação dos dados do seu filho. E o Código de Defesa do Consumidor permite desistir, em até sete dias, de compras feitas fora da loja física, o que inclui a encomenda pelo aplicativo.
Se houver coleta de dados não informada, conteúdo inadequado ou falha de segurança, a orientação é acionar primeiro o fornecedor e, se não resolver, registrar reclamação no Procon, no consumidor.gov.br ou na Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
O que fazer na prática
A regra mais valiosa do documento cabe numa linha: se o fabricante não deixa claro se o produto tem câmera ou microfone, se precisa de internet, quais dados registra, onde guarda, com quem compartilha, se dá para apagar e o que já vem ligado de fábrica, não compre. Escolha outro brinquedo.
E, entre dois produtos parecidos, a SBP recomenda priorizar o que não tem IA generativa, conversa aberta e simulação de vínculo emocional, sobretudo quando esses recursos não trazem benefício claro. Para os pediatras, o recado é incluir a pergunta "com o que seu filho brinca?" na consulta, ao lado da pergunta sobre tempo de tela.
A coordenadora do grupo, a pediatra Evelyn Eisenstein, resumiu o documento numa frase que serve de régua para qualquer compra de Natal: "O brinquedo é o instrumento e o brincar é a experiência." Se o brinquedo faz a experiência toda, quem está brincando não é mais o seu filho.
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