Pressão alta em 28% das crianças — o número assusta, e o manguito também
A pesquisa Brasil Coração Saudável, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, mediu 6.092 alunos de 38 escolas e encontrou hipertensão em 28,3% deles, e em quase metade dos obesos. O alerta sobre peso e tela é sério. Mas a amostra é quase toda de Minas e do Rio Grande do Sul, e o número fica três vezes acima do maior estudo nacional já feito com adolescentes.
Quando foi a última vez que alguém mediu a pressão do seu filho? Se você precisou pensar, está na média. Pressão de criança é aquela coisa que o pediatra mede quando lembra, o posto mede quando tem o manguito pequeno, e a escola não mede nunca. Pressão alta, na cabeça de quase todo mundo, é problema de avô.
Nesta terça-feira (20), a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) divulgou um número feito para desmontar essa ideia: na pesquisa Brasil Coração Saudável, 28,3% das crianças e adolescentes de até 18 anos tinham hipertensão, e outros 11,6% estavam na faixa de pré-hipertensão. Somando, quatro em cada dez alunos com a pressão fora do lugar.
O que a SBC encontrou
Entre 3 de junho e 7 de outubro, equipes do projeto mediram 6.092 estudantes de 38 escolas. O pior grupo foi o dos meninos de 15 a 18 anos, com 40,7% de hipertensão, seguido, surpreendentemente, pelos meninos com menos de 7 anos, com 39,1%.
O peso explica muito. Um em cada três alunos estava acima do peso: 19,5% com sobrepeso e 13,6% com obesidade. Entre os obesos, 48,4% tinham hipertensão, e entre os obesos de 15 a 18 anos, 60,5%. Quanto mais peso, mais pressão, numa escada que não pula degrau.
Os hábitos completam o retrato: 59% passam mais de três horas por dia diante de telas, com o celular (86%) à frente da TV (80%), e 66% fazem só uma a duas horas de atividade física por semana. Detalhe revelador: 93% dizem se exercitar na escola. Ou seja, para a maioria, a educação física é o exercício todo. Duas aulas por semana contra 21 horas de tela. Não é uma disputa, é um atropelamento.
• Amostra: 6.092 alunos de 38 escolas, de 3/6 a 7/10/2026
• Por estado: Rio Grande do Sul 3.059, Minas Gerais 2.973, São Paulo 60
• Hipertensão: 28,3%; pré-hipertensão: 11,6%
• Meninos de 15 a 18 anos: 40,7%; meninos com menos de 7 anos: 39,1%
• Excesso de peso: 33,1% (19,5% sobrepeso + 13,6% obesidade)
• Hipertensão entre obesos: 48,4%; obesos de 15 a 18 anos: 60,5%
• Mais de 3 horas de tela por dia: 59%
• Para comparar: o ERICA (2013–2014), com cerca de 73 mil adolescentes de 12 a 17 anos de todo o país, achou 9,6%
(Fontes: Sociedade Brasileira de Cardiologia, Agência Brasil, Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes)
"No Brasil" é uma palavra grande
Aqui entra a parte que o título das manchetes atropelou. A pesquisa foi divulgada como retrato do país, mas 99% dos alunos são de dois estados: 3.059 gaúchos e 2.973 mineiros. São Paulo, o estado mais populoso, entrou com 60 estudantes, menos do que uma turma e meia. Norte, Nordeste e Centro-Oeste não aparecem. E 38 escolas escolhidas por um projeto não são um sorteio do país.
O único estudo de base nacional com adolescentes brasileiros, o ERICA, mediu cerca de 73 mil alunos de 12 a 17 anos em todas as regiões, com protocolo padronizado, e encontrou 9,6% de hipertensão. Dá para a pressão das crianças ter triplicado em uma década? A obesidade infantil subiu e a pandemia deixou um rastro de sedentarismo, então piorar é plausível. Triplicar é outra conversa, e quem afirma isso precisa mostrar a régua.
A régua da pressão de criança é traiçoeira
Medir pressão de adulto é simples: passou de 14 por 9 no consultório, acende a luz. Em criança, não existe número fixo. O valor normal muda com idade, sexo e altura, e o diagnóstico usa tabelas de percentil: hipertensão é ficar no percentil 95 ou acima. E as diretrizes, da Sociedade Brasileira de Pediatria à Academia Americana de Pediatria, exigem que o valor alto se repita em três ocasiões diferentes antes de alguém dizer "hipertensão".
Por quê? Porque pressão de criança sobe com tudo: correria no recreio, nervoso de ser medida por um estranho, braço mexendo. E, principalmente, com o manguito errado. Um manguito estreito demais para o braço superestima a pressão, e um de adulto num braço de seis anos não fica no lugar. Medir milhares de alunos numa ida à escola, com uma ou duas leituras, tende a capturar a pressão do susto junto com a pressão de verdade.
O que foi divulgado até agora não detalha quantas medidas cada aluno fez, com que aparelho nem em quantas visitas. Sem isso, os 39,1% dos meninos com menos de 7 anos, um grupo em que a hipertensão costuma ser rara e, quando aparece, muitas vezes vem de doença renal, soam mais como pergunta do que como resposta. Traduzindo: o 28,3% é um rastreamento, não um diagnóstico.
Por que vale levar a sério mesmo assim
Nada disso torna o alerta exagerado. O que é robusto na pesquisa é a relação que todo estudo encontra: a pressão sobe junto com o peso. No próprio ERICA, a hipertensão entre adolescentes obesos foi de cerca de 28%, contra 6% entre os de peso normal. A obesidade é a fábrica, e a pressão alta é um dos produtos.
E criança hipertensa não "cresce e passa". A pressão tende a seguir a mesma trilha na vida adulta, e a sobrecarga já engrossa o coração e endurece as artérias antes dos 18 anos. O infarto aos 50 começa a ser construído na lancheira e no celular dos 10.
O que fazer com o seu filho
Peça a medida da pressão na consulta de rotina a partir dos 3 anos, uma vez por ano, e antes disso se houver prematuridade, doença renal ou cardíaca. É recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria e parte da consulta, não favor.
Repare no manguito. Ele deve cobrir cerca de dois terços do braço e envolver o braço inteiro. Se o profissional usar o de adulto num braço fino, pergunte se há um infantil. A UBS deveria ter.
Um número alto não é sentença. Peça para repetir no fim da consulta, com a criança calma, e marque nova medida. Se continuar alto em três ocasiões, aí sim cabe investigar, inclusive rins e tireoide, sobretudo nos pequenos.
Ataque o que está ao seu alcance: tela fora do quarto, uma hora de brincadeira que faça suar todo dia e menos ultraprocessado na mesa, porque ele vem carregado de sal.
A SBC fez barulho, e barulho sobre pressão de criança é bem-vindo num país que só mede pressão de adulto. Mas número de alarme precisa de régua conhecida. A pressão dos nossos filhos merece ser medida direito: com o manguito certo, mais de uma vez e no Brasil inteiro.
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