Câncer de próstata matou 50 homens por dia em 2025 — 20% mais que há dez anos
Na abertura do Novembro Azul, a Sociedade Brasileira de Urologia divulgou dados do Ministério da Saúde: 18,5 mil mortes no ano passado e mais de 77 mil casos novos previstos para 2026. A doença tem 90% de chance de cura no início, mas quase não dá sinais justamente nessa fase.
Pense em um ônibus urbano lotado, com uns 50 passageiros. Agora imagine que, todo dia de 2025, um ônibus desses saiu da garagem só com homens que morreriam de câncer de próstata. Foram cerca de 18,5 mil mortes no ano, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados neste domingo (1º) pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), que abre a campanha Novembro Azul.
O número não está parado. Há dez anos, eram 15,4 mil mortes por ano, o que significa um aumento de 20% em uma década. De 2017 até setembro de 2026, o país somou mais de 160 mil óbitos pela doença. Para 2026, a previsão é de mais de 77 mil casos novos, o que mantém o câncer de próstata como o tumor mais comum entre os homens brasileiros (fora o câncer de pele não melanoma, que entra em outra conta).
O câncer que não avisa
A próstata é uma glândula do tamanho de uma noz, abaixo da bexiga, que produz parte do líquido que nutre e protege os espermatozoides. O tumor costuma crescer devagar e, na fase em que seria mais fácil de curar, geralmente não causa sintoma nenhum.
Os sinais clássicos (sangue na urina ou no sêmen, vontade de urinar toda hora, jato fraco ou interrompido, disfunção erétil e dor nos ossos) costumam aparecer quando a doença já avançou. A dor óssea, em especial, muitas vezes é sinal de metástase. "Se o homem esperar os sintomas, pode perder a chance de cura", resume o presidente da SBU, Roni Carvalho Fernandes.
É uma perversidade biológica: na fase inicial, a chance de cura chega a 90%. Na fase em que o corpo finalmente reclama, o tratamento deixa de ser sobre curar e passa a ser sobre controlar.
• Mortes em 2025: cerca de 18,5 mil — 50 por dia
• Há dez anos: 15,4 mil por ano (alta de 20%)
• Mortes de 2017 a setembro de 2026: mais de 160 mil
• Casos novos previstos para 2026: mais de 77 mil
• Chance de cura na fase inicial: 90%
• Avaliação com urologista (SBU): a partir dos 50 anos; a partir dos 45 para quem tem histórico familiar, homens negros e homens com obesidade
(Fontes: Ministério da Saúde, Sociedade Brasileira de Urologia, Agência Brasil)
Por que as mortes sobem
Parte da explicação é boa notícia disfarçada: o brasileiro está vivendo mais, e o câncer de próstata é, acima de tudo, uma doença do envelhecimento. Mais homens chegando aos 70 e 80 anos significa mais homens chegando à idade em que esse tumor aparece. Mas envelhecimento não explica tudo.
A outra parte tem cara conhecida. Para a SBU, o homem brasileiro se cuida menos que a mulher, chega mais tarde ao consultório e, muitas vezes, só aparece quando o problema já é grande. A entidade reconhece que, nas últimas duas décadas, os homens passaram a buscar mais informação e a marcar urologista com mais naturalidade, mas diz que o desafio continua grande. Some a isso a fila para especialista no SUS em boa parte do país, e o diagnóstico tardio deixa de ser escolha individual para virar estatística.
PSA e toque: a briga que você precisa conhecer
Os exames de rotina são dois: a dosagem do PSA (antígeno prostático específico) no sangue e o toque retal, que avalia tamanho, forma e consistência da glândula. Se houver suspeita, o próximo passo é a biópsia. Até aqui, todo mundo concorda.
A divergência está em quem deve fazer esses exames sem ter sintoma nenhum. A SBU recomenda que todo homem procure um urologista a partir dos 50 anos para uma avaliação individualizada, e a partir dos 45 se tiver pai ou irmão com a doença, for negro ou tiver obesidade, grupos com risco maior. Já o Instituto Nacional de Câncer (INCA) não recomenda o rastreamento populacional de homens sem sintomas e defende que a decisão seja compartilhada entre médico e paciente.
Parece briga de especialista, mas tem lógica dos dois lados. O PSA é sensível e pouco específico: sobe com câncer, mas também com próstata aumentada, infecção e até depois de andar de bicicleta. Rastrear todo mundo encontra tumores que matariam e também muitos que nunca dariam problema, e parte desses homens acaba operada e convivendo com incontinência ou impotência por causa de um câncer que não precisava ser tratado. Não rastrear ninguém deixa passar os agressivos. A saída honesta é a que as duas instituições, no fundo, compartilham: conversar sobre o seu risco, e não fingir que o exame é neutro.
O que mudou no tratamento
Para quem é diagnosticado, o último ano trouxe novidades. A prostatectomia radical assistida por robô, incorporada ao SUS por portaria do Ministério da Saúde, é indicada para câncer localizado ou localmente avançado, e desde abril também faz parte da cobertura obrigatória dos planos de saúde. O Conselho Federal de Medicina aprovou o uso do HIFU, ultrassom focado de alta intensidade que destrói o tecido tumoral com ondas concentradas, e da crioablação, que congela as células do tumor com agulhas.
O detalhe que o Novembro Azul costuma esquecer: os robôs da rede pública estão concentrados no Sul e no Sudeste. Tecnologia incorporada no papel e tecnologia disponível na sua cidade são coisas diferentes. E nenhuma delas resolve o problema de quem chega com metástase nos ossos.
O que fazer (de verdade)
Se você tem 50 anos ou mais, ou 45 com algum fator de risco, marque uma consulta, no urologista ou na sua unidade básica de saúde, e leve a pergunta certa: "qual é o meu risco e o que faz sentido investigar?". Conte se seu pai ou irmão teve a doença. Peça para entender o que um PSA alterado significaria antes de fazer o exame, não depois.
E se você tem qualquer um daqueles sintomas urinários, não espere novembro, não espere a campanha e não espere passar. Sintoma não é para rastreamento: é para investigação, agora.
Cinquenta homens por dia. O exame leva minutos, a conversa leva meia hora. O que mais mata nessa história não é o tumor — é o tempo que a gente gasta fingindo que ele não existe.
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