Creatina em gominha de uva e cápsula 'milagrosa' para articulação — a Anvisa suspendeu as duas

Creatina em gominha de uva e cápsula 'milagrosa' para articulação — a Anvisa suspendeu as duas

A creatina virou hábito de milhões de brasileiros — e agora ela aparece em formato de bala de gelatina, fácil de tomar e fácil de errar a dose. A Anvisa suspendeu três lotes de uma marca em gomas por teor fora do padrão, e proibiu de vez uma cápsula que prometia "curar" inflamação nas juntas.

SaúdeCidade ·

A creatina deixou de ser coisa de marombeiro. Hoje ela está no copo do executivo, da avó que quer preservar massa muscular e do adolescente que viu um vídeo no celular. E, como todo produto que vira febre, ela ganhou versões "convenientes" — entre elas a gominha mastigável, sabor uva, que parece bala e some do pote como bala. O problema é que bala não costuma ter dose terapêutica. Suplemento tem.

Em 25 de junho, a Anvisa publicou duas medidas no mesmo fôlego. Suspendeu três lotes de uma creatina em gomas por teor irregular, e proibiu totalmente um suplemento em cápsulas chamado Artro100, que vendia promessas que nenhum alimento pode legalmente fazer. São casos diferentes, mas contam a mesma história: a indústria do suplemento corre na frente da fiscalização, e quem paga a aposta é o seu corpo.

O caso da gominha de uva

O produto suspenso é uma creatina em gomas mastigáveis sabor uva verde, fabricada pela Idn Labs. A Anvisa barrou três lotes específicos — guarde os números se você tem um pote em casa:

Creatina em gomas — lotes suspensos (Idn Labs):

• Lote 0061.02.2026
• Lote 0367.11.2025
• Lote 0012.01.2026

Irregularidades apontadas: teor de creatina fora dos limites, problemas de rotulagem, alegações não autorizadas e divergências sobre quem realmente fabrica o produto.

Fonte: Anvisa, Resolução RE nº 2.509, de 24 de junho de 2026.

O detalhe mais importante dessa lista é o primeiro: teor fora dos limites. Em creatina, a dose faz o efeito — e fora do alvo, em qualquer direção, o problema é real. Se vem menos do que diz o rótulo, você está pagando por algo que não age. Se vem mais, você ingere uma sobrecarga sem saber, num formato que convida a comer "só mais uma" como se fosse jujuba. E quando até "quem é o fabricante" está em dúvida, a pergunta seguinte é inevitável: o que mais nesse pote não confere?

O caso da cápsula 'milagrosa'

O segundo alvo é mais grave porque mente com todas as letras. O suplemento Artro100, de origem e composição indeterminadas — a Anvisa nem conseguiu identificar com clareza quem o produz — foi proibido de ser vendido, distribuído, fabricado, divulgado e usado. O motivo está na propaganda.

O produto se anunciava prometendo combater inflamações, fortalecer articulações, aliviar desconfortos e melhorar a mobilidade. Soa inofensivo, quase simpático. Só que, aos olhos da lei, é uma fronteira que não se cruza: alimento e suplemento não podem fazer alegação terapêutica. "Combater inflamação" é promessa de remédio, não de cápsula de vitamina.

Essa regra não é frescura burocrática. Quando um pote de origem desconhecida promete tratar dor nas juntas, ele faz duas coisas perigosas ao mesmo tempo: convence a pessoa a substituir um tratamento médico de verdade por uma cápsula sem comprovação, e abre a porta para que qualquer coisa esteja lá dentro — já que ninguém sabe quem fabricou nem com o quê.

Como não cair na cápsula do "cura tudo":

• Suplemento que promete "combater inflamação" ou "tratar" algo está fazendo alegação ilegal
• Desconfie de produto sem fabricante claro e sem registro/notificação na Anvisa
• Dor articular persistente é caso de médico, não de cápsula comprada por anúncio
• Consulte a lista de produtos irregulares no site da Anvisa antes de comprar

Por que isso vira notícia toda semana

Se você tem a sensação de que a Anvisa proíbe um suplemento a cada poucos dias, não é impressão. O mercado de suplementos no Brasil cresceu numa velocidade que a fiscalização não acompanha — e o modelo de venda online, com fábricas obscuras e marketing agressivo nas redes, criou um terreno fértil para produto irregular. A agência age depois que o problema já está na prateleira (ou no carrinho de compras).

Isso não significa que todo suplemento é golpe — creatina, por exemplo, é um dos suplementos mais estudados e seguros que existem, quando tem procedência. A questão nunca é a substância. É a embalagem sem dono, a dose que não confere, a promessa que extrapola a lei. O selo "natural" e o sabor de uva não dizem nada sobre o que está dentro do pote.

A regra prática é velha e continua valendo: se um suplemento promete o que só remédio entrega, desconfie. Milagre em cápsula tem um preço, e ele raramente aparece na etiqueta.

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