Diagnósticos de autismo cresceram 50% em quatro anos — e o adulto chegou ao consultório
Levantamento da Memed com a NeuroSteps mostra densidade diagnóstica subindo de 9,08 para 13,61 por médico entre 2022 e 2025. A maior surpresa não está nas crianças: o número de adultos diagnosticados a partir dos 40 anos dobrou — e mulheres entre 20 e 39 já superam os homens.
Você conhece pelo menos um. Talvez seja o colega de trabalho que se incomoda com luz fluorescente. Talvez seja a vizinha de quarenta e tantos anos que descobriu, depois que o filho foi diagnosticado, que sempre foi parecida com ele. Talvez seja você mesmo, suspeitando há um tempo que aquele cansaço social no fim de cada reunião não é frescura. O autismo, que durante décadas foi tratado como questão de criança e de menino, está deixando de ser as duas coisas — e os números do último levantamento brasileiro confirmam.
O estudo da plataforma Memed em parceria com a NeuroSteps, divulgado nesta semana, mapeou prescrições e diagnósticos relacionados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre 2022 e 2025. A densidade diagnóstica — média de pacientes com TEA por médico — subiu de 9,08 para 13,61, um avanço de quase 50% em quatro anos. As prescrições de medicação relacionada cresceram mais de 70% só entre 2024 e 2025. Atomoxetina, em particular, subiu mais de 170%. O autismo, no Brasil, passou a ser tema clínico de massa.
O que mudou: a chegada dos adultos
O dado que mais surpreende não é o crescimento total. É a redistribuição. Em 2022, a faixa de 0 a 5 anos concentrava 42% dos diagnósticos. Em 2025, caiu para 30%. Quem tomou o lugar foi a faixa entre 6 e 12 anos (35%), os adultos jovens entre 20 e 39 (quase 18%) e — esse é o número que merece destaque — pessoas acima de 40 anos, que dobraram a fatia para quase 7%. Adultos pedindo avaliação a partir dos quarenta era exceção até pouco tempo. Hoje é uma fila crescente.
O fenômeno não é exclusividade brasileira. Estudos americanos publicados em 2024 mostraram que diagnósticos de autismo em adultos cresceram 450% em uma década nos EUA. A explicação mais aceita não é nova epidemia. É reconhecimento. O DSM-5, manual diagnóstico atualizado em 2013, ampliou a definição de espectro autista para incluir apresentações sutis — sensibilidade sensorial sem prejuízo motor, dificuldade social mascarada por inteligência alta, traços rotineiros sem comportamento estereotipado evidente. Muita gente que era chamada de "esquisita", "nerd", "antissocial" ou "obsessiva" passou a ter um nome técnico — e, com o nome, acesso a tratamento.
As mulheres que ninguém via
Outro dado relevante: na faixa de 20 a 39 anos, mulheres agora superam homens em diagnósticos. Isso é uma virada histórica. O autismo foi descrito em 1943 a partir de meninos. Os critérios diagnósticos foram desenhados em torno de comportamentos típicos de meninos — bater objetos, alinhar carrinhos, desinteresse manifesto por contato social. Meninas autistas, em geral, mascaram. Imitam colegas, decoram regras sociais como quem decora vocabulário, se esforçam para passar despercebidas. Resultado: ficaram décadas fora do diagnóstico.
Quando crescem, essas mulheres frequentemente chegam ao consultório com queixas de ansiedade, depressão, esgotamento por sobrecarga social. O diagnóstico de autismo aparece, muitas vezes, no meio de um tratamento para outra coisa — ou, mais comum ainda, depois que um filho ou sobrinho é diagnosticado e a mulher começa a se reconhecer nos sintomas. O efeito cascata é real: o estudo da Memed registra famílias inteiras descobrindo TEA em três gerações ao mesmo tempo, depois que uma criança abre a porta.
Por que a medicação cresceu mais que o diagnóstico
O salto de 70% nas prescrições em apenas um ano (2024-2025) supera de longe o crescimento do número de pacientes. Isso significa que cada paciente, em média, está recebendo mais medicação. O autismo em si não tem remédio que trate o transtorno — mas tem, com frequência, comorbidades que precisam de tratamento: ansiedade, depressão, TDAH, transtorno obsessivo-compulsivo, distúrbios do sono. Adultos diagnosticados tarde costumam chegar com várias dessas comorbidades acumuladas, o que explica a média de prescrição quase dobrada quando comparada à de crianças.
A atomoxetina, que liderou o crescimento (170%), é usada principalmente para TDAH — e ilustra um outro ponto: a sobreposição entre TEA e TDAH no adulto é alta, e profissionais brasileiros estão finalmente se equipando para tratar ambos. Há quinze anos, a maioria dos psiquiatras brasileiros não atendia adulto com TEA. Hoje, plataformas de telemedicina e cursos de especialização para profissionais formaram um exército que, ainda insuficiente, ao menos existe.
• Densidade diagnóstica: 9,08 → 13,61 pacientes por médico (+50%)
• Prescrições TEA-relacionadas: +70% entre 2024 e 2025
• Atomoxetina: +170% de crescimento
• Faixa 0-5 anos: de 42% para 30% dos diagnósticos
• Faixa 6-12 anos: 35% em 2025 (nova liderança)
• Faixa 20-39 anos: 18% — mulheres superam homens
• Faixa 40+ anos: dobrou, chegou a 7%
• Adultos demandam o dobro de prescrições que crianças
O que o sistema de saúde precisa entender
O SUS ainda trata o autismo como questão prioritariamente pediátrica. A maioria dos serviços especializados — CAPSi, centros de reabilitação, equipes multidisciplinares — está dimensionada para crianças e adolescentes. O adulto diagnosticado tarde encontra, com frequência, um vácuo: não cabe no CAPSi, não é exatamente público dos CAPS adultos (focados em transtornos graves e persistentes), e na atenção primária raramente há profissional capacitado em TEA adulto. O sistema está dois passos atrás da demanda.
O setor privado vive realidade parecida. Convênios cobrem terapia ABA para criança com laudo, mas oferecem pouco para adulto que precisa de psicoterapia especializada, terapia ocupacional adaptada ou orientação ocupacional. A consequência prática é que quem se diagnostica hoje, aos 38 anos, frequentemente paga do próprio bolso por uma rede de profissionais que descobriu por conta. O autismo finalmente saiu do armário diagnóstico no Brasil. Resta agora o sistema de saúde sair também — antes que a fila de adultos com laudo e sem cuidado vire o próximo problema crônico do SUS.
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