O câncer de pulmão custou R$ 885 milhões em internações — e quase metade delas não era pelo tumor

O câncer de pulmão custou R$ 885 milhões em internações — e quase metade delas não era pelo tumor

Levantamento da plataforma DRG Brasil mapeou mais de 50 mil internações ligadas à doença entre 2021 e 2025. A mortalidade hospitalar com metástase chega a 37,9% — mais que o dobro dos casos sem. No SUS, a projeção da carga passa de R$ 2,25 bilhões, e a Região Norte tem a maior letalidade do país.

SaúdeCidade ·

Quando se fala no custo do câncer de pulmão, a imagem que se forma é a do tratamento: a cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia. Só que um levantamento da plataforma DRG Brasil, do Grupo IAG Saúde, acaba de mostrar que essa imagem cobre só metade da conta.

Entre 2021 e 2025, a plataforma registrou 26.309 internações em que o câncer de pulmão foi o motivo principal. E outras 24.028 em que o paciente tinha a doença, mas foi hospitalizado por outra razão — uma pneumonia, uma trombose, uma complicação do próprio tratamento.

Agora o detalhe que inverte a intuição: a internação "por outro motivo" custou mais caro. R$ 19,8 mil em média, contra R$ 16 mil da internação diretamente pelo câncer. No total, R$ 467,9 milhões de um lado, R$ 417,3 milhões do outro — R$ 885 milhões em cinco anos, com a fatia maior vindo justamente de onde ninguém olha.

A doença não interna só pelo tumor

Faz sentido quando se abre a caixa. Das 24 mil internações em que o câncer não era o diagnóstico principal, 44,5% ainda estavam relacionadas a ele — doença metastática, efeito do tratamento, estado oncológico. Depois vêm infecções (22,5%), condições respiratórias (8,4%) e eventos tromboembólicos (2,7%).

É o retrato de uma doença que fragiliza o corpo inteiro. O paciente oncológico interna mais, interna pior e interna mais caro — mesmo quando a papeleta de entrada não menciona a palavra câncer. Qualquer conta de saúde pública que olhe só para o CID do tumor está subestimando a carga real da doença. Sistematicamente.

Câncer de pulmão em internações (2021–2025, DRG Brasil):

50,3 mil internações no total — R$ 885 milhões em custos assistenciais
26.309 pelo câncer como motivo principal (média de R$ 16 mil cada)
24.028 por outros motivos, em pacientes com a doença (média de R$ 19,8 mil)
• Mortalidade hospitalar geral: 20,8% — com metástase, 37,9%; sem, 17,1%
28,2% das internações passaram por CTI; 12,8% precisaram de ventilação mecânica
• No SUS (2021–2025): 140.616 internações, mortalidade de 25,1%, carga estimada em R$ 2,25 bilhões

Fontes: plataforma DRG Brasil (Grupo IAG Saúde) e DataSUS/SIH-SUS. CID-10 C34.

O número que separa vida e morte: 37,9% contra 17,1%

De cada cinco pacientes internados pelo câncer de pulmão, um morre no hospital — mortalidade geral de 20,8%. Mas essa média esconde o dado mais importante do estudo: quando há metástase registrada, a mortalidade sobe para 37,9%. Sem metástase, fica em 17,1%.

Mais que o dobro. E metástase estava presente em 17,7% das hospitalizações.

Paula Daibert, diretora de Inovação do Grupo IAG Saúde, aponta que essa diferença é o argumento central para diagnóstico oportuno e acompanhamento contínuo. O câncer de pulmão é notoriamente silencioso: quando dá sintoma — tosse persistente, falta de ar, dor torácica, emagrecimento —, frequentemente já saiu do lugar. A diferença entre descobrir antes e descobrir depois não é sutileza estatística. É a distância entre 17% e 38% de chance de não sair do hospital.

No SUS, a mesma doença é ainda mais letal

O levantamento cruzou a base da plataforma DRG — majoritariamente hospitais privados e filantrópicos — com o DataSUS. E a comparação é desconfortável.

No SIH-SUS, foram 140.616 internações por câncer de pulmão entre 2021 e 2025 (261.662 desde 2016), com mortalidade hospitalar de 25,1% — contra 20,8% na base DRG. Aplicando o custo médio da plataforma sobre o volume do SUS, a carga estimada passa de R$ 2,25 bilhões no período.

E dentro do SUS, a geografia decide de novo: a Região Sul tem a maior incidência do país — 23 casos por 100 mil habitantes, herança do tabagismo historicamente mais alto —, mas é a Região Norte que registra a maior mortalidade hospitalar (32,7%) e a maior permanência média (9,3 dias). Onde há menos tomógrafo, menos broncoscopia e menos oncologista, o paciente chega mais tarde, fica mais tempo e morre mais. Um em cada três internados por câncer de pulmão no Norte não sai do hospital.

O elefante na sala continua sendo o cigarro

Nenhum desses números existe em abstrato: cerca de 85% dos cânceres de pulmão estão ligados ao tabagismo. O Brasil fez uma das políticas antitabaco mais bem-sucedidas do mundo — a prevalência de fumantes caiu de mais de 30% nos anos 1980 para cerca de 9% hoje —, e é por isso que a conta não é maior.

Mas o câncer de pulmão tem memória longa. Quem fumou 20 anos e parou continua no grupo de risco por décadas. É exatamente para essa população — grandes ex-fumantes e fumantes acima dos 50 — que faz sentido discutir rastreamento com tomografia de baixa dose, estratégia que já demonstrou reduzir mortalidade em 20% nos grandes estudos internacionais e que o Brasil ainda oferece de forma pontual, não como programa estruturado.

Se você fumou por muitos anos, mesmo tendo parado: converse com um pneumologista sobre rastreamento. Tosse que não passa em três semanas, escarro com sangue e falta de ar nova não são "coisa de idade" — são motivo de consulta agora, não no mês que vem.

A conta que chega de qualquer jeito

R$ 885 milhões numa base de hospitais, R$ 2,25 bilhões projetados no SUS, um quinto dos internados morrendo no hospital — e quase metade da conta vinda de internações que nem levam o nome da doença.

O estudo da DRG Brasil não descobriu um câncer novo. Descobriu o tamanho da sombra que ele projeta sobre o sistema de saúde. E sombra, no caso do câncer de pulmão, tem tratamento conhecido: menos cigarro ontem, mais diagnóstico precoce hoje.

Entre 17,1% e 37,9% de mortalidade, o que existe não é sorte. É tempo.

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