400 mil mortes por doenças do coração em 2024 — e quem morre mais não é quem você imagina
O Brasil registrou 399 mil óbitos por doenças circulatórias no ano passado, segundo o DataSUS — o segundo maior número em 23 anos. Dois terços das vítimas tinham até sete anos de estudo. A doença do coração também é a doença da desigualdade.
Quando você pensa em quem morre de infarto ou derrame, o rosto que aparece provavelmente tem mais de sessenta anos, está acima do peso, é sedentário e talvez carregue uma herança genética ruim. Esse retrato não está errado — mas está incompleto. Falta a informação que os dados do DataSUS entregaram com clareza brutal: o coração também falha muito mais em quem tem menos estudo.
Em 2024, o Brasil registrou 399 mil mortes por doenças do aparelho circulatório — infarto, derrame, hipertensão descontrolada, insuficiência cardíaca, arritmias. Uma taxa de 187,5 óbitos por 100 mil habitantes, segundo análise do Observatório de Saúde Pública da Umane sobre dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade. É o segundo maior índice dos últimos 23 anos. Só ficou atrás de 2022, quando a pandemia de Covid empurrou o número para 189,8.
399 mil. Por ano. Quase mil por dia. E 62% delas em pessoas com no máximo sete anos de estudo.
O coração e a escolaridade
Dos 399 mil óbitos por doenças circulatórias em 2024, aproximadamente 247 mil — 62% do total — aconteceram entre pessoas com até sete anos de escolaridade. Esse grupo representa cerca de 35% da população brasileira. Ou seja: um terço do país concentrou dois terços das mortes cardiovasculares.
Evelyn Santos, gestora de investimentos sociais da Umane, descreve o mecanismo sem eufemismo: "Quando o impacto sobre indivíduos de menor escolaridade é tão desproporcional, fica claro que acesso à informação, escolhas de estilo de vida mais saudáveis, renda e cuidado contínuo de saúde influenciam diretamente as oportunidades de prevenção e tratamento."
Traduzindo do diagnóstico para o cotidiano: quem tem menos estudo, em geral, tem menos acesso a informação sobre prevenção, mais dificuldade de manter uma dieta adequada com a renda disponível, menos tempo para atividade física, e — o mais crítico — muito menos chance de acessar o sistema de saúde antes da emergência.
O paradoxo do diagnóstico masculino
Os dados têm uma contradição aparente que merece atenção. Em 2024, a taxa de diagnóstico de hipertensão entre mulheres era de 31,7% — contra 27,4% entre homens. As mulheres são mais diagnosticadas. Mas os homens respondem por 53% das mortes por doenças circulatórias.
Esse número não é paradoxo — é padrão. Homens vão menos ao médico. Quando recebem o diagnóstico de hipertensão, aderem pior ao tratamento. E chegam ao pronto-socorro mais tarde, quando o infarto ou o derrame já começou. A hipertensão diagnosticada e não tratada mata exatamente igual à hipertensão não diagnosticada — só que com um detalhe cruel: alguém já sabia.
• 399 mil mortes em 2024 — 187,5 por 100 mil habitantes
• 2º maior índice em 23 anos (só perde para 2022, com Covid)
• 62% das mortes em pessoas com até 7 anos de estudo (35% da população)
• 53% das mortes são masculinas, apesar das mulheres terem mais diagnósticos de hipertensão
• Diagnóstico de hipertensão: mulheres 31,7% / homens 27,4% (2024)
• Evolução: diagnóstico de hipertensão era 22,6% em 2009, subiu para 29,7% em 2024
Hipertensão: o prólogo de quase toda morte cardiovascular
A taxa de diagnóstico de hipertensão no Brasil subiu de 22,6% em 2009 para 29,7% em 2024. Isso soa como uma notícia ruim — mais gente hipertensa — mas é ao menos parcialmente uma boa notícia: mais gente sendo diagnosticada. O problema é o que acontece depois do diagnóstico.
O medicamento para hipertensão está disponível na Farmácia Popular e no SUS. Custa, no pior caso, alguns reais por mês. O problema não é o remédio — é a cadeia que leva ao remédio: a consulta que demora meses na UBS lotada, o retorno que o paciente não faz, o medicamento que acaba e a pessoa que não volta para renovar a receita porque perdeu meio dia de trabalho da última vez. A hipertensão não mata de uma vez. Ela corrói silenciosamente, ano a ano, vaso a vaso.
O que você pode fazer — sem depender do sistema funcionar
Verificar a pressão arterial é gratuito em qualquer farmácia e em toda UBS. Não exige consulta, não exige ficha. Se você não sabe sua pressão, não sabe se tem hipertensão — e 30% da população brasileira adulta tem, muitos sem saber.
Dois outros exames de sangue básicos — colesterol total e glicemia em jejum — podem ser solicitados na UBS e detectam dois dos outros grandes fatores de risco cardiovascular. Atividade física moderada, 150 minutos por semana, reduz o risco cardiovascular independentemente do peso. Não é jornada de academia — são 20 minutos de caminhada rápida por dia.
400 mil mortes por ano. 62% entre quem tem menos escolaridade. Os números do DataSUS não dizem que o coração discrimina — dizem que o acesso à saúde ainda discrimina quem consegue cuidá-lo a tempo. Enquanto isso não muda estruturalmente, o que dá para fazer é não esperar o infarto para descobrir o que estava errado.
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