A procura por endocrinologista disparou 62% em dois anos — e não é só por causa da tireoide

A procura por endocrinologista disparou 62% em dois anos — e não é só por causa da tireoide

De 728 mil consultas em 2023 para quase 1,2 milhão em 2025: o Brasil está acordando para uma epidemia silenciosa de doenças metabólicas, e a demanda está crescendo mais rápido do que o número de especialistas. O endocrinologista virou o médico do século XXI.

SaúdeCidade ·

Se você tentou marcar uma consulta com endocrinologista nos últimos meses e ficou com uma fila de espera que parece crônica, saiba que não é impressão sua. Os agendamentos com essa especialidade subiram 62,3% entre 2023 e 2025 no Brasil, segundo dados da plataforma Doctoralia. Eram 728.611 consultas em 2023. Foram 1.182.816 em 2025. No primeiro trimestre de 2026 já haviam sido feitas mais 403.512 marcações.

O endocrinologista deixou de ser "o médico da tireoide" — aquele especialista que você procurava quando o TSH dava alterado no exame de rotina — e se tornou o profissional que concentra as doenças crônicas mais prevalentes da nossa era. Obesidade, diabetes tipo 2, resistência à insulina, síndrome metabólica, menopausa: tudo caiu na cesta do mesmo especialista, ao mesmo tempo, numa população que está envelhecendo e engordando.

O que está por trás dos números

O Vigitel — sistema de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde — mostra que mais da metade dos brasileiros adultos está acima do peso. O Brasil projeta ter 30% da população com obesidade até 2030. A diabetes tipo 2, que tem obesidade como principal fator de risco, já afeta 16,8 milhões de brasileiros e é a que cresce mais rápido entre as doenças crônicas.

Some a isso o envelhecimento da população — que traz tireoide, hormônios, metabolismo ósseo e menopausa como demandas crescentes — e o resultado é uma especialidade que virou fila dupla: mais doenças por paciente, mais pacientes por ano.

O crescimento que os números contam:

2023: 728.611 consultas com endocrinologistas
2025: 1.182.816 consultas — alta de 62,3% em dois anos
1T 2026: 403.512 agendamentos só no primeiro trimestre
Mais da metade dos brasileiros adultos tem excesso de peso (Vigitel)
16,8 milhões de brasileiros vivem com diabetes tipo 2
• Projeção: 30% de obesidade na população adulta até 2030

Fonte: Doctoralia / Vigitel / Ministério da Saúde, 2026.

O endocrinologista virou médico de tudo isso ao mesmo tempo

A endocrinologista Juliana Cavalieri, consultada pela plataforma Doctoralia sobre os dados, aponta uma mudança comportamental importante: o brasileiro está indo ao especialista de forma mais preventiva, não apenas quando a doença já está estabelecida. Isso é bom — mas significa mais consultas para quem já tinha agenda cheia.

A especialidade também expandiu seu escopo de atuação. O endocrinologista de 2026 não trata só glândulas — ele coordena o peso, monitora a progressão do risco cardiovascular, ajusta insulina, cuida da saúde óssea pós-menopausa e, cada vez mais, prescreve os novos medicamentos para obesidade que viraram fenômeno de mercado. Ozempic, Wegovy, Mounjaro — todos eles passam, em última instância, pela consulta com esse especialista.

O problema que o número não resolve

Mais consultas agendadas não significa mais endocrinologistas formados. O Brasil tem cerca de 7.500 endocrinologistas para uma população de 215 milhões — uma proporção que já era insuficiente antes do boom. Com a demanda crescendo 62% em dois anos, o resultado prático é o que qualquer brasileiro que tentou marcar consulta já conhece: espera de meses.

No SUS, a situação é ainda mais aguda. O sistema público tem muito menos especialistas disponíveis proporcionalmente, e a fila de endocrinologia é, em muitas cidades, medida em anos — não meses. As doenças metabólicas, que progridem lentamente mas causam danos irreversíveis quando mal controladas, não têm paciência para esperar.

O que isso diz sobre o Brasil

Há algo revelador nesse crescimento de 62%. Não é só que mais gente está ficando doente — é que mais gente está percebendo que precisa de cuidado especializado. O aumento de consciência sobre saúde metabólica, impulsionado pelas redes sociais, pelos novos medicamentos para obesidade que dominaram o noticiário e pelo pós-pandemia que fez muita gente revisar hábitos, está chegando aos consultórios.

O problema é estrutural: o Brasil está gerando demanda por cuidado especializado mais rápido do que consegue formar especialistas para atendê-la. Resolver isso leva décadas de política de saúde. A conta que vai chegando enquanto isso não espera.

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