A Anvisa aprovou um remédio para ondas de calor que não é hormônio — e age direto no cérebro

A Anvisa aprovou um remédio para ondas de calor que não é hormônio — e age direto no cérebro

O fezolinetanto (Veoza, da Astellas) é o primeiro não-hormonal aprovado no Brasil contra os fogachos e suores noturnos da menopausa. Ele não mexe com estrogênio: vai direto ao termostato neural. E mais de um terço das brasileiras na menopausa precisam de algo assim.

SaúdeCidade ·

Você provavelmente conhece alguém que acorda encharcada de suor às 3 da manhã, joga a coberta para longe, liga o ventilador mesmo no frio, dorme mal e levanta péssima. As ondas de calor da menopausa — os chamados "fogachos" — são uma das queixas mais frequentes na ginecologia. E por décadas a resposta mais eficaz era a terapia de reposição hormonal, que tem contraindicações sérias para muitas mulheres. A Anvisa acaba de aprovar o primeiro medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para esse fim no Brasil.

O fezolinetanto, vendido com o nome comercial Veoza pela farmacêutica japonesa Astellas, chegou ao mercado europeu e americano antes — agora os órgãos reguladores dos três principais blocos do mundo o aprovaram. A novidade não é o mecanismo: é o que ele faz com ele.

Por que a onda de calor acontece

Durante a menopausa, a produção de estrogênio cai. Essa queda desequilibra a relação entre o estrogênio e uma substância química cerebral chamada neurocinina B (NKB). A NKB age no hipotálamo — a região do cérebro que funciona como termostato do corpo. Com o equilíbrio quebrado, esse termostato perde a calibração e dispara sinais de "sobreaquecimento" sem razão real: a onda de calor.

O tratamento hormonal tradicional resolve o problema restaurando os níveis de estrogênio — é como consertar o termostato trocando a bateria. O fezolinetanto faz diferente: ele bloqueia os receptores de neurocinina B no hipotálamo, impedindo que o sinal errado seja disparado. Conserta o termostato pelo outro lado do circuito.

Para quem serve — e para quem a terapia hormonal já era a resposta

A terapia hormonal continua sendo a opção mais estudada e eficaz para a maioria das mulheres com sintomas vasomotores intensos. Mas ela tem contraindicações importantes: histórico de câncer de mama hormônio-dependente, trombose venosa, doenças cardiovasculares, e outras condições nas quais estrogênio adicional é arriscado.

Para essas mulheres, as alternativas até agora eram limitadas — antidepressivos em doses baixas, gabapentina, e outras opções com eficácia mais modesta e efeitos colaterais não desprezíveis. O fezolinetanto chega como a primeira classe de medicamento desenvolvida especificamente para esse sintoma, sem mexer no eixo hormonal.

Fezolinetanto (Veoza) — o que está aprovado:

Indicação: ondas de calor (fogachos) e suores noturnos moderados a intensos na menopausa
Mecanismo: bloqueador de receptor de neurocinina B (NK3R) no hipotálamo — não é hormônio
Fabricante: Astellas Farma
Aprovações anteriores: EUA (FDA), União Europeia (EMA) e Canadá
Ensaios clínicos: três estudos de fase 3 com mais de 3.000 participantes
Prevalência no Brasil: 36,2% das mulheres entre 40 e 65 anos têm sintomas vasomotores moderados a intensos
Situação no SUS: ainda não incorporado — aprovação regulatória é o primeiro passo

Fonte: Anvisa / Astellas Farma, junho de 2026.

O número que diz o tamanho do problema

Trinta e seis vírgula dois por cento. Essa é a proporção de brasileiras entre 40 e 65 anos com sintomas vasomotores moderados a intensos, segundo dados do próprio fabricante. Não é minoria: é uma em cada três mulheres nessa faixa etária acordando no meio da noite com o corpo em chamas.

Some a isso que uma parte significativa dessas mulheres tem contraindicação à terapia hormonal — seja por histórico oncológico, cardiovascular ou por opção pessoal fundamentada — e você tem um buraco terapêutico enorme. A chegada de uma nova classe de medicamento não preenche o buraco de uma vez, mas é a primeira peça genuinamente nova nesse quebra-cabeça em muito tempo.

O que ainda não sabemos

A aprovação regulatória resolve a questão da segurança e eficácia para uso geral. Não resolve o acesso. O fezolinetanto ainda não tem incorporação aprovada pelo SUS — para entrar na lista do sistema público, precisa passar por outra avaliação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), que analisa custo-efetividade.

Por ora, é uma opção disponível para quem consegue pagar pelo medicamento de bolso — o que exclui a maioria das brasileiras que mais precisam. A terapia hormonal genérica tem custo acessível e está disponível na rede pública; o fezolinetanto, por enquanto, é a novidade cara que chegou para quem pode pagar por ela.

Mas o estrogênio da menopausa não escolhe CEP. Que o remédio que age no termostato certo chegue, em tempo razoável, às mulheres certas.

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