Fiocruz vai fabricar remédio de R$ 140 mil para esclerose múltipla — e o SUS para de pagar a conta da Merck
A cladribina, vendida hoje como Mavenclad pela farmacêutica suíça, terá produção nacional. Hoje, cada paciente custa R$ 140 mil ao SUS em cinco anos. Multiplique por três mil.
Tem uma doença que ataca a bainha de mielina dos neurônios — aquela camadinha de gordura que faz o sinal elétrico viajar pelo nervo. Quando ela é destruída, o nervo continua lá, mas o sinal vai chegando picado, com falhas, até não chegar. Visão dobrada. Perna que falha. Equilíbrio que some. Bexiga que não responde mais. Essa doença chama esclerose múltipla, e o tratamento mais eficaz contra a forma mais agressiva dela custa, hoje, cerca de R$ 140 mil por paciente em cinco anos. É um luxo. E agora a Fiocruz acaba de assumir o compromisso de transformar luxo em direito.
A Fundação Oswaldo Cruz, através do seu instituto Farmanguinhos, fechou parceria com a farmacêutica suíça Merck (produtora atual do medicamento, vendido no Brasil como Mavenclad) e com a química nacional Nortec para fabricar a cladribina em território brasileiro. Junto vieram outros dois acordos: produção nacional de betainterferona 1a (outro pilar do tratamento da esclerose) e um medicamento pediátrico para esquistossomose. Três frentes, três custos derrubados.
O que a cladribina faz, traduzido em português
A esclerose múltipla, na sua forma mais comum — a "surto-remissão", ou RRMS na sigla em inglês — funciona em ondas. A pessoa tem uma crise (perde a visão, perde a sensibilidade da mão, perde o equilíbrio), melhora, fica meses ou anos bem, e tem outra crise. Cada surto deixa marca: um pouco de função que não volta. Ao longo do tempo, as marcas se acumulam.
A cladribina é o primeiro tratamento oral de curta duração com eficácia prolongada para essa forma agressiva da doença. O paciente toma comprimidos por alguns dias em dois anos consecutivos. Em estudos, 81% dos pacientes mantiveram a capacidade de andar sem ajuda após dois anos de tratamento — uma redução significativa das lesões neuronais. Para uma doença em que andar é frequentemente a primeira coisa que se perde, esse número é pesado.
• ~30 mil brasileiros com a forma surto-remissão (RRMS)
• ~3.200 com a forma altamente ativa (alvo da cladribina)
• Custo atual por paciente em 5 anos: R$ 140 mil
• Eficácia da cladribina: 81% mantêm a marcha autônoma
Parceria de produção nacional:
• Farmanguinhos (Fiocruz) — produção pública
• Merck — transferência de tecnologia
• Nortec — química-farmacêutica nacional
A matemática que ninguém gosta de fazer
Três mil e duzentos pacientes vezes R$ 140 mil dá quase R$ 450 milhões em cinco anos. Só de cladribina. Só desse subgrupo. Para um sistema que opera com cerca de 4% do PIB em saúde pública (contra 6-8% nos países desenvolvidos com sistema universal), pagar preço de balcão da Merck é uma sangria sistêmica.
Quando a Fiocruz produz no Brasil, sob acordo de transferência de tecnologia, a redução de custo costuma ficar entre 30% e 70%. Não é mágica — é o efeito de pagar matéria-prima em real, mão de obra brasileira, e cortar a margem de lucro do importador. E mais: o que sobra fica no país, recircula em pesquisa, em formação, em outras drogas.
Esse é o modelo que a Fiocruz vem aperfeiçoando há décadas com vacinas e antirretrovirais — o mesmo que permitiu, lá nos anos 1990, transformar o tratamento do HIV no Brasil de privilégio em política universal.
Por que demorou tanto
A pergunta incômoda é por que um medicamento aprovado há anos, sabidamente eficaz e sabidamente caríssimo, só agora entra na lista de produção nacional. Parte da resposta é técnica: transferência de tecnologia em medicamentos biológicos e quimioterápicos é complexa, exige planta industrial específica, validação regulatória, ensaios de bioequivalência. Outra parte é política — a indústria farmacêutica multinacional tem interesse claro em manter o mercado brasileiro como comprador, não como produtor.
O acordo com a Merck para a cladribina é, nesse sentido, raro: a própria detentora da patente concorda em transferir know-how. Geralmente isso acontece quando a patente está perto do fim ou quando há ameaça crível de licenciamento compulsório (a famosa "quebra de patente"). Pode ser uma coisa, pode ser a outra — o resultado para o paciente é o mesmo.
O que muda pra quem tem esclerose
Se você ou alguém da família tem esclerose múltipla na forma surto-remissão altamente ativa, vale conversar com o neurologista sobre a cladribina como opção. Ela já está disponível no SUS hoje, mas a fila e a regulação são apertadas justamente por causa do custo. Com a produção nacional, a expectativa é que mais pacientes consigam acesso e que a sustentabilidade do tratamento melhore.
Esclerose múltipla não tem cura. Tem controle — e controle bom muda completamente o que significa viver com a doença. Não é sobre evitar surtos eventuais. É sobre continuar trabalhando aos 50. Continuar dirigindo aos 55. Continuar andando aos 60. A diferença entre ter acesso ao melhor tratamento e ter acesso ao tratamento possível é, literalmente, a diferença entre essas vidas. Que o remédio agora seja produzido aqui é mais do que economia. É soberania farmacêutica — e, para quem espera receita, é a única coisa que importa.
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