HPV mata 7,5 mil brasileiros por ano — e 85% deles são mulheres

HPV mata 7,5 mil brasileiros por ano — e 85% deles são mulheres

Estudo publicado em revista internacional mostra que o vírus mais comum do mundo causa oito tipos de câncer, 29 mil internações por ano no Brasil — e a vacina que previne quase tudo isso está parada nos postos esperando alguém aparecer.

SaúdeCidade ·

Você provavelmente já teve HPV e nem sabe. Quase todo mundo sexualmente ativo entra em contato com o vírus em algum momento da vida — a estimativa é que 80% das pessoas peguem pelo menos um dos subtipos antes dos 45 anos. Na maioria das vezes o sistema imune resolve sozinho e o vírus some. Mas em alguns casos ele fica. E quando fica, demora dez, quinze, vinte anos em silêncio. Quando dá a cara, geralmente já é um câncer instalado.

Um estudo publicado na revista Human Vaccines & Immunotherapeutics, liderado pela pesquisadora Cintia Parellada com dados oficiais do Ministério da Saúde, traduziu esse silêncio em números. Entre 2011 e 2019, o HPV foi responsável por aproximadamente 7,5 mil mortes e 29 mil hospitalizações por ano no Brasil. Oitenta e cinco por cento das vítimas são mulheres. O câncer de colo do útero — o mais conhecido e mais letal entre os tumores associados ao vírus — responde sozinho por 74,3% das internações e 77,3% das mortes.

Oito tipos de câncer (não, não é só o de colo do útero)

Quando se fala em HPV, a primeira (e às vezes única) lembrança é o câncer de colo do útero. Faz sentido: é o mais frequente, o mais letal, o que tem rastreamento estabelecido há décadas. Mas o vírus causa pelo menos mais sete tipos de câncer que costumam ficar fora do radar — vagina, vulva, ânus, pênis, e a família dos cânceres de cabeça e pescoço (orofaringe, laringe, cavidade oral).

O detalhe inquietante do estudo é a curva do câncer anal: no período analisado, foi o que mais cresceu, com aumento de 3,1% ao ano em hospitalizações e 10,9% ao ano em mortalidade. Pode ser que a doença esteja realmente avançando. Pode ser que estejamos apenas diagnosticando melhor. As duas coisas, provavelmente.

HPV no Brasil — números do estudo:

~7.500 mortes anuais por cânceres associados
~29.000 hospitalizações anuais
85% dos afetados são mulheres
74,3% das internações são por câncer de colo do útero
+10,9% ao ano de mortalidade por câncer anal

Cânceres causados pelo HPV:
• Colo do útero, vagina, vulva
• Ânus
• Pênis
• Cabeça e pescoço (orofaringe, laringe, cavidade oral)

A vacina que ninguém quer tomar

Aqui é onde a história fica especialmente irritante. A vacina contra o HPV está disponível no SUS desde 2014 — gratuita, eficaz, segura, com mais de uma década de dados pós-comercialização confirmando que o que ela previne é muito maior do que qualquer efeito adverso. A indicação principal é para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, antes do início da vida sexual, quando a resposta imune é máxima.

E mesmo assim, a cobertura vacinal brasileira engasga. Há uma campanha vigente de resgate para todos os jovens de até 19 anos — porque parte dessa geração simplesmente passou batido nos anos em que deveria ter sido vacinada. O motivo é uma mistura conhecida: desinformação nas redes, medo de que vacinar contra IST "incentive" sexo precoce (não incentiva, mas o argumento sobrevive na boca de quem nunca leu um estudo), e a pandemia, que desorganizou todo o calendário vacinal do país.

Se você tem filho, sobrinho, irmão mais novo entre 9 e 19 anos, vale uma conversa direta: a vacina é gratuita, são duas doses, e protege contra os subtipos responsáveis por mais de 90% dos cânceres associados ao vírus. É um dos investimentos de saúde pública com melhor relação custo-benefício existentes.

Rastreamento — o que mudou para mulheres adultas

Para quem já passou da idade da vacinação ou já tem vida sexual ativa, a estratégia é outra: rastreamento. A grande mudança recente é o teste DNA-HPV oncogênico, que substitui ou complementa o tradicional Papanicolau. Indicado para mulheres e pessoas com útero entre 25 e 64 anos, ele detecta a presença do vírus de alto risco antes mesmo das células começarem a mudar.

Em comparação ao Papanicolau, que olha para alterações já existentes no esfregaço, o DNA-HPV é mais sensível, dura mais tempo entre coletas (de 3 em 3 anos, em vez de anual) e antecipa o problema. Quando dá positivo, a próxima etapa é a colposcopia, que olha de perto e biopsia se preciso. Lesões precursoras são tratadas em consultório e o câncer, ali, simplesmente não acontece.

Por que isso ainda é uma epidemia

A Organização Mundial da Saúde tem uma meta clara: eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2030. A receita é conhecida — 90% das meninas vacinadas até os 15 anos, 70% das mulheres rastreadas com teste de alta precisão entre 35 e 45, e 90% das lesões pré-cancerígenas tratadas. Onde isso foi feito a sério, funcionou. A Austrália está prestes a eliminar a doença.

O Brasil ainda está longe dos três 90s. Tem vacina, tem teste, tem ambulatório de colposcopia em rede pública — e ainda assim, sete mil e quinhentas pessoas morrem por ano de um câncer que poderia ter sido evitado dez ou vinte anos antes, num posto de saúde, com uma agulha de plástico e uma dose grátis. Isso não é destino. É escolha — coletiva, distribuída em milhões de famílias que não levaram o filho, no governo que não fez campanha, na escola que não conversou, na rede social que viralizou a próxima besteira sobre vacina.

A boa notícia é que dá pra mudar isso na sexta-feira de manhã. O posto é ali na esquina. A vacina está esperando.

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