De 15% para 8%: o HPV despencou entre jovens brasileiros — e a vacina não protegeu só quem tomou

De 15% para 8%: o HPV despencou entre jovens brasileiros — e a vacina não protegeu só quem tomou

O maior estudo populacional de HPV da América Latina comparou dois retratos do Brasil, com sete anos de intervalo. Entre as meninas vacinadas, a presença do vírus caiu de 15,6% para 3,1%. E as não vacinadas também se beneficiaram — é o efeito rebanho funcionando na sua frente.

SaúdeCidade ·

Vacina é uma das poucas tecnologias em que o sucesso é invisível. Quando funciona, não acontece nada — e "nada" é um péssimo material de campanha publicitária. Ninguém posta foto do câncer que não teve. É por isso que estudos como o que acaba de ser divulgado importam tanto: eles transformam o "nada" em número.

O Pop-Brasil, conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, é o maior levantamento populacional sobre HPV já feito na América Latina. E ele fez algo raro: tirou uma foto do Brasil antes e outra depois. Na primeira fase (2016-2017), analisou 6.388 jovens não vacinados. Na segunda (2020-2023), mais de 10 mil participantes, vacinados e não vacinados, entre 16 e 25 anos.

O resultado da comparação: a prevalência dos quatro tipos de HPV cobertos pela vacina caiu de 14,98% para 7,95%. Praticamente pela metade, em sete anos.

O número que impressiona de verdade

A queda geral já seria notícia. Mas o dado que faz o gráfico despencar está no recorte de quem efetivamente tomou a vacina.

Entre as meninas e mulheres vacinadas, a prevalência dos tipos-alvo do vírus foi de 15,6% para 3,1%. Isso é uma redução de 80%. Entre os meninos e homens vacinados, de 13,8% para 4,6%. Não é ajuste estatístico, não é margem de erro. É o vírus sumindo do organismo de uma geração inteira.

Estudo Pop-Brasil — HPV antes e depois da vacinação (16 a 25 anos):

• Prevalência geral dos 4 tipos vacinais: de 14,98% para 7,95%
• Mulheres vacinadas: de 15,6% para 3,1%
• Homens vacinados: de 13,8% para 4,6%
• Mulheres não vacinadas: caiu para 10,5% (efeito rebanho)
• Cobertura vacinal feminina no estudo: 61,8%
• Cobertura vacinal masculina: 31,1%
• Meta ideal de cobertura: 90%
• Amostra: 6.388 participantes na fase 1 e mais de 10 mil na fase 2

O efeito rebanho, explicado sem metáfora de rebanho

Aqui está a parte mais elegante do estudo. Entre as mulheres que não tomaram a vacina, a prevalência do vírus também caiu — chegou a 10,5%. Elas não receberam nenhuma dose. Mesmo assim, se infectaram menos.

A epidemiologista Eliana Wendland, que liderou o trabalho, aponta exatamente isso: mesmo entre os não vacinados, houve queda na prevalência do HPV. O motivo é simples de entender. O HPV é uma infecção sexualmente transmissível. Se metade dos parceiros possíveis de uma pessoa está imunizada, o vírus tem metade das oportunidades de circular. Cada pessoa vacinada é um beco sem saída para o vírus. Junte becos sem saída suficientes e a epidemia perde o mapa.

É por isso que vacina não é decisão puramente individual. Quando você vacina seu filho de 11 anos, você está protegendo também a colega de escola dele cujos pais foram convencidos por um vídeo no WhatsApp.

E onde está o problema, então?

No recorte masculino. A cobertura entre meninos no estudo foi de 31,1%, contra 61,8% entre meninas. E o efeito rebanho entre homens não vacinados foi limitado justamente por isso — não há gente vacinada suficiente para bloquear a circulação.

Essa desigualdade tem origem histórica. O SUS começou a vacinar contra HPV em 2014, só meninas. Meninos entraram em 2017, três anos depois, e carregam até hoje o atraso na cabeça dos pais — muita gente ainda acha que HPV é "coisa de menina", porque o câncer mais associado ao vírus é o de colo do útero.

É um erro caro. O HPV causa câncer de pênis, de ânus e — o que mais cresce — de orofaringe: garganta, base da língua, amígdalas. Nos homens, o câncer de orofaringe relacionado ao HPV já supera, em alguns países, o de colo de útero em número absoluto de casos. O vírus não consulta a certidão de nascimento antes de escolher onde se instalar.

Uma dose só, de graça, dos 9 aos 14

Se você tem filho ou filha nessa faixa, a decisão hoje é mais fácil do que nunca. Desde 2024, o esquema no SUS é de dose única — antes eram duas. Uma picada, em qualquer posto de saúde, sem custo, para meninos e meninas de 9 a 14 anos.

A idade não é aleatória. A vacina funciona melhor antes do início da vida sexual, porque protege contra tipos de vírus que a pessoa ainda não encontrou. Vacinar aos 10 anos não é "estimular sexo precoce" — é o mesmo raciocínio de instalar extintor antes do incêndio, não durante.

Existem ainda grupos especiais com indicação até idades mais avançadas: pessoas vivendo com HIV, transplantados, pacientes oncológicos e vítimas de violência sexual. Vale perguntar na unidade de saúde.

O câncer que a gente pode simplesmente parar de ter

É importante dimensionar o que está em jogo. O câncer de colo do útero mata milhares de brasileiras por ano, quase todas em idade produtiva, quase todas por diagnóstico tardio, quase todas dependentes do SUS. É um câncer com causa conhecida, vacina disponível, exame de rastreio barato e tratamento eficaz quando pego cedo. Ou seja: é um câncer que continua matando por razões que não são médicas.

O Pop-Brasil mostra que a parte científica funcionou. A vacina entregou o que prometeu, e entregou num país continental, com todas as dificuldades logísticas que isso implica. O que falta agora é a parte chata: convencer gente, corrigir a cobertura masculina, chegar aos 90%.

O vírus está perdendo. Seria uma pena deixar ele se recuperar por falta de comparecimento.

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