SUS volta a aplicar duas doses de reforço contra pólio — e abandona a gotinha de vez

SUS volta a aplicar duas doses de reforço contra pólio — e abandona a gotinha de vez

A partir de agosto, o calendário vacinal ganha mais uma camada de proteção: dois reforços injetáveis para crianças de até 4 anos. O motivo tem a ver com um risco pequeno mas real que a própria vacina oral carregava.

SaúdeCidade ·

A gotinha da pólio era quase um ritual. Quem tem mais de trinta anos provavelmente lembra da fila no posto, a febre com bandeirinha, o copinho descartável com duas gotinhas cor-de-laranja. Era simples, barata, fácil de aplicar. Mas a vacina oral vai sair do calendário vacinal dos reforços — e o motivo é, no mínimo, contraintuitivo.

O Ministério da Saúde anunciou que, a partir de 3 de agosto de 2026, o SUS retoma a aplicação de duas doses de reforço da vacina contra a poliomielite. Nada de gotinha desta vez: os dois reforços serão feitos com a versão injetável. O esquema completo fica assim: três doses iniciais aos 2, 4 e 6 meses; primeira dose de reforço aos 15 meses; segunda dose de reforço aos 4 anos. Tudo injetável.

O Brasil não registra um único caso de pólio selvagem há 37 anos. Então por que mudar algo que estava funcionando?

O problema com a vacina que funcionou bem demais

A vacina oral contra a pólio — a VOP, chamada de gotinha — contém vírus atenuados vivos. Em países com circulação ativa do poliovírus selvagem, ela é excelente: protege com rapidez, imuniza a comunidade ao redor via contato e é fácil de administrar sem agulha. Mas tem um detalhe que passou décadas sendo tolerável e que agora virou o principal problema.

Em raríssimos casos, o vírus atenuado da VOP pode sofrer mutações e recuperar a capacidade de causar doença. Chama-se VDPV — vírus derivado de poliovírus vacinal. A taxa é ínfima: algo em torno de 1 caso para cada 2 a 4 milhões de doses de terceira dose. Mas quando um país inteiro está livre do vírus selvagem há quase quatro décadas, esse risco mínimo se torna o maior risco disponível.

A lógica da mudança é a mesma que levou ao fim da vacinação contra varíola depois da erradicação: quando o vírus natural some, o vírus da vacina viva passa a ser a ameaça mais real. A vacina injetável (VIP) usa vírus inativado — ele não replica, não muta, não cria risco de VDPV.

37 anos sem um único caso — o número que justifica tudo

Entre 1968 e 1989, o Brasil registrou mais de 26 mil infecções por poliovírus. Em 1994, recebeu o certificado de área livre de circulação viral, junto com todos os países das Américas. Desde então, zero casos.

Isabela Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, colocou bem: "A pólio está controlada entre nós. No entanto, a situação mundial vem apresentando surtos localizados que preocupam." Não é paranoia — é epidemiologia. O vírus não foi erradicado globalmente ainda. Há surtos pontuais em países com cobertura vacinal insuficiente. Enquanto isso, qualquer brecha no calendário vacinal brasileiro é uma janela.

É por isso que o Ministério optou por adicionar um segundo reforço — e não apenas manter um. Duas doses de reforço com vírus inativado ampliam a durabilidade da imunidade e fecham brechas que ficavam abertas no esquema anterior.

O que muda na prática

Novo esquema vacinal contra a pólio no SUS (a partir de 03/08/2026):

2 meses: 1ª dose injetável (VIP)
4 meses: 2ª dose injetável (VIP)
6 meses: 3ª dose injetável (VIP)
15 meses: 1º reforço injetável (VIP) — novidade
4 anos: 2º reforço injetável (VIP) — novidade

Crianças menores de 5 anos com vacinação em atraso devem ser levadas ao posto de saúde mais próximo.

Para crianças que já tomaram doses anteriores, o esquema segue normalmente — não há necessidade de recomeçar. Quem está em atraso deve procurar a UBS para atualização vacinal. O SUS mantém estoque nos postos de saúde e a vacinação é gratuita.

O paradoxo de erradicar uma doença

Há uma ironia silenciosa na história das vacinas: quanto mais eficiente é uma campanha, mais o próprio esforço de vacinação pode virar o maior risco. Com a varíola, o processo foi o mesmo. Em 1980, a OMS declarou a erradicação e o mundo parou de vacinar. Continuar vacinando contra um vírus inexistente com uma vacina de vírus vivo teria criado mais risco do que a doença em si.

Com a pólio, estamos num meio-caminho. O vírus selvagem ainda circula em poucas regiões do mundo. A vacina oral ainda é necessária em países onde a transmissão é ativa. Mas no Brasil — e em cada país que conseguir manter a erradicação — o movimento natural é migrar para a versão injetável, que é mais segura justamente porque o vírus não vive nela.

37 anos sem pólio não é obra do acaso. É calendário vacinal cumprido por gerações de pais que levaram os filhos ao posto. E agora, um calendário um pouco mais seguro ainda — com dois reforços no lugar de um, e sem o risco que vinha junto com a gotinha.

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